Capítulo 3

Quando Sara acordou, estava deitada num chão frio e duro. A cabeça doía, e o corpo inteiro parecia moído enquanto ela tentava se levantar e entender onde estava.

O pânico a atravessou quando as lembranças do que acontecera riscaram sua mente. Ela olhou em volta, apavorada, com medo de ainda estar no quarto de Victor. Mas não. Aquilo era uma… cela de prisão?

Correntes tilintaram quando ela se mexeu, chamando sua atenção para o peso estranho em volta das mãos e das pernas. As mãos estavam presas com algemas, e os pés também. Uma corrente longa ligava as algemas das mãos às que prendiam seus tornozelos.

Como ela tinha ido parar ali?

Por mais aliviada que estivesse por não estar mais no quarto de Victor, a prisão dos lobisomens era o último lugar em que ela esperaria acordar. Ela ainda usava o vestido sujo de antes.

Ela se lembrou do poder estranho que percorreu seu corpo antes de ela morder Victor, e depois da fraqueza que a dominara antes de desmaiar. Devia ser por isso que seus músculos estavam doloridos e as articulações latejavam quando ela tentava se erguer.

Apoiando as palmas algemadas no chão, ela levantou a parte de cima do corpo e olhou em volta. A cela era pequena, com paredes cinzentas e feias. Barras de aço a separavam de um corredor do lado de fora.

Ela foi até as grades e as agarrou, tentando enxergar o corredor. Bem em frente à sua cela havia outra, mas estava vazia.

Ela estava ali porque tinha mordido Victor? Era por isso que a tinham acorrentado como algum lobisomem raivoso?

Ela ouviu um movimento e, logo, um guarda apareceu diante da cela. “Ótimo, finalmente acordou”, ele disse.

“O que eu estou fazendo aqui?”, ela perguntou, esperando que ele lhe desse alguma explicação.

O guarda deu uma risada de desdém. “Perdeu a memória quando ficou fora de si?”

Ela franziu a testa. “Do que você está falando?”

“Você atacou o Rei Alfa e o mordeu. O que você esperava que acontecesse?”

Ela balançou a cabeça com veemência. “Eu não ataquei ele! Eu estava me defendendo! E eu não estou fora de mim!”

O guarda sacudiu a cabeça. “Guarda a sua história, você vai contar ao tribunal.”

“Tribunal?”, ela gritou. O tribunal dos lobisomens?

“Sim, o tribunal. Você vai ser julgada por atacar o Alfa. Achou que ia sair impune?”

“Mas eu não fiz nada de errado!”

“Como eu disse, conta ao tribunal. Vou buscar uma túnica pra você e depois vamos escoltar você até o tribunal imediatamente”, ele disse, antes de voltar pelo corredor.

Sara gemeu e encostou a testa nas barras de aço. Nunca, em toda a sua vida, imaginou que acabaria diante do tribunal dos lobisomens.

Ela podia ao menos ousar esperar justiça? Ela era só uma Ômega, e Victor era o Rei Alfa. O tribunal acreditaria nela em vez dele?


“Quando eu a rejeitei, ela tentou me seduzir e então me atacou.”

Um murmúrio se espalhou pelo tribunal depois que Victor terminou de dar seu depoimento. Sara não conseguia acreditar no que estava acontecendo. Victor tinha distorcido a história para parecer que ela o atacara porque ele a rejeitara. E, até então, todo mundo parecia acreditar nele.

“Isso não é verdade”, ela negou, voltando o olhar para os membros do tribunal. “Foi ele que me atacou e tentou me forçar a fazer sexo com ele. Eu só reagi em legítima defesa.”

Victor soltou uma risada de desdém, com expressão de nojo. “Por que eu chegaria a esse ponto por uma Ômega?”

“O tribunal está ciente de que havia mais uma pessoa presente no momento do incidente”, disse o presidente do tribunal. “Senhorita Green, por favor, conte ao tribunal o que aconteceu hoje à tarde na casa do Alfa.”

Sara voltou o olhar para Laura, sabendo, antes mesmo de a outra garota abrir a boca, que ela não diria a verdade. Depois de tanto tempo atormentando-a, Laura finalmente tinha a chance de colocá-la em apuros de verdade.

— Victor está dizendo a verdade, senhor. Ele me convidou para a casa dele e me pediu para ser a Luna dele. Quando Sara nos flagrou, ele rejeitou ela, e ela ficou violenta. Foi quando ela o atacou e mordeu o pescoço dele. Tinha tanto sangue... eu achei que... — a voz dela foi sumindo, o rosto se contorcendo de forma dramática numa dor fingida. — Se fosse um lobisomem mais fraco, ele teria morrido. E como se isso não bastasse, ela tentou atacá-lo de novo, mas, por sorte, eu a impedi.

Murmúrios voltaram a encher o tribunal, enquanto as pessoas olhavam para Sara com horror e nojo. Ela cerrou as mãos em punhos e encarou o conselho.

— Ela está mentindo. Ela e Victor me atacaram juntos. Como o depoimento dela pode ser aceito como testemunho?

— Que garota sem-vergonha! Você ousa fazer acusações falsas contra o Rei Alfa e a filha do Beta. Você quer morrer? — gritou, furioso, um dos membros da multidão.

— Nunca deveriam ter adotado essa aí. Uma Ômega sem classe vai ser sempre uma Ômega sem classe. Ela ainda teve a coragem de atacar o filho deles. Que ingratidão!

Conforme o sentimento se voltava contra ela, Sara desviou o olhar para os pais adotivos. Engoliu em seco ao encontrar o olhar gelado da mãe.

— Mãe, eu juro, isso não é verdade!

— Não me chame de mãe, sua ingrata! Nós te criamos para você tentar assassinar nosso filho?

Sara ficou sem palavras. Tinha pensado que seus pais saberiam que tudo não passava de uma mentira. Com certeza, eles sabiam que ela era incapaz de ferir Victor por maldade. Ela achou que confiavam nela.

O pai não parecia menos ameaçador nem menos furioso, então ela se afastou deles, com medo de causar uma cena. É claro que acreditariam nas palavras de Victor em vez das dela. Afinal, ele era o filho verdadeiro. Ela era só uma Ômega sem lar, de quem eles tiveram pena e acolheram em casa.

Uma hora depois, o tribunal proferiu o veredito. Primeiro, retiraram de Sara o direito de ser a Luna deles. Isso não importava tanto para ela — ela já tinha rejeitado Victor e não tinha mais nenhuma intenção de ser a Luna dele.

Segundo, condenaram-na a passar um tempo na notória Academia do Norte como punição por ter mordido o Rei Alfa. A Academia do Norte era um campus para onde eram enviados lobisomens considerados um perigo para a comunidade. Sara já tinha ouvido dizer que era para lá que todas as famílias poderosas mandavam os filhos delinquentes.

Os sentimentos de Sara se misturavam enquanto um par de guardas a escoltava de volta para casa, para pegar suas coisas, antes de levá-la de carro até o campus.

Ela ficou triste com a ruptura com os pais adotivos, que sempre a tinham tratado bem. Mas, ao mesmo tempo, sentia um certo alívio por estar deixando a alcateia. Se ficasse, depois de todas as acusações feitas contra ela, sua vida se tornaria ainda mais difícil. Sem falar que, sem o vínculo de companheiros, ela agora estava mais fraca do que nunca.

A Academia do Norte não era exatamente o tipo de lugar onde ela preferiria passar os próximos anos, mas talvez conseguisse encontrar um jeito de sobreviver.

A reputação da escola a deixava preocupada. Era para lá que iam os piores dos piores, inclusive os valentões mais cruéis. E se ela acabasse sofrendo bullying lá também?

Quanto mais pensava, mais incerta ficava sobre o que a aguardava. Só podia esperar.

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