Capítulo 4
A viagem até a Academia durou duas horas e, quando Sara chegou, já era noite. Os guardas a deixaram aos cuidados da inspetora do colégio, que a conduziu até o prédio do dormitório.
— Este é o seu quarto — disse a inspetora, parando diante de uma porta com o número 301. Ela enfiou uma chave na mão de Sara. — Era a última vaga disponível, então nem venha atrás de mim pedindo troca.
Sara assentiu e pegou a chave. Depois que a inspetora foi embora, ela testou a maçaneta e descobriu que a porta não estava trancada. Inspirando fundo, abriu a porta e entrou.
Havia um corredor curto que levava ao cômodo principal, com uma pequena cozinha do lado esquerdo. A inspetora havia informado que aquele dormitório tinha quatro quartos, o que significava quatro colegas de quarto. Sara ficou aliviada por cada um ter seu próprio quarto. Se, por acaso, tivesse colegas problemáticos, seria fácil evitá-los.
Quando saiu do corredor e entrou na sala, ela parou, pega de surpresa pela cena à sua frente.
Num sofá do outro lado do cômodo, estava deitado um homem nu e, com ele, uma mulher nua. Por que eles estavam largados pelados na sala quando cada um tinha o próprio quarto?
O homem ergueu o olhar e a viu, e um sorriso de canto atravessou seu rosto enquanto ele a devorava sem o menor pudor.
— Olá, docinho. Perdida?
A mulher ao lado dele lançou um olhar fulminante para Sara e depois para o homem. Cutucou-o na costela.
— Cala a boca, Kai.
O cara não deu a mínima para a parceira e se endireitou, abrindo os braços sobre o encosto do sofá. O corpo nu dele ficou ainda mais exposto, e Sara se esforçou para manter os olhos em território seguro.
— Precisa de ajuda, querida?
— Não, obrigada — retrucou Sara, procurando com os olhos pelo cômodo. Quanto mais rápido encontrasse o quarto dela, melhor. Uma de suas colegas de dormitório gostava de ficar pelada com o namorado na sala. Ótimo. Será que os outros aprovavam esse tipo de comportamento? — Qual quarto está vazio? — perguntou, voltando a atenção para a mulher.
A mulher revirou os olhos e cruzou os braços sobre o peito.
— Você tem uma colega mulher? — perguntou ela, direcionando a pergunta ao homem.
Como assim? Sara olhou de volta para o homem. Colega? Ele era o colega de quarto dela?
— Parece que você vai precisar da minha ajuda, afinal — ele disse, levantando-se e vindo na direção dela.
Sara deu um passo para trás por instinto e lançou a ele um olhar de aviso. Ela via o jeito como ele a encarava, e não gostou nem um pouco.
— Não chegue perto de mim — disse.
— Ah, é? E você vai fazer o quê a respeito? — ele perguntou, sem diminuir o passo. — Foi você que entrou no meu dormitório. Talvez eu devesse te ensinar uma lição.
Os olhos dele se estreitaram enquanto fazia a ameaça, e Sara percebeu que ele não estava brincando. Então, além de dividir o dormitório com um cara, ela tinha que lidar com um valentão.
— Eu fui designada para este dormitório — disse ela. — Só me mostra o quarto vazio e eu deixo você em paz.
— Quem diabos é você? Por que foi designada para este dormitório?
— Eu não sou a inspetora. Como é que eu vou saber? — ela rebateu. Agora ela entendia por que a inspetora tinha dito para ela não aparecer pedindo troca. Se não tivesse sido avisada, já estaria a caminho da administração dos alojamentos para pedir um novo quarto.
Kai pareceu não gostar da resposta e avançou até ela, com os olhos faiscando de raiva.
— Você faz ideia com quem está falando?
À medida que ele se aproximava, Sara se sentiu sufocada pela presença dele. Devia ter pelo menos um metro e oitenta, o que o fazia se impor sobre o um metro e cinquenta e sete dela. A aura de raiva que ele exalava de repente a fez se sentir ainda mais em perigo.
Quando ele chegou perto demais, Sara teve que recuar para criar alguma distância entre os dois. Ele não parou de avançar, e ela acabou com as costas prensadas na parede atrás dela. Ela engoliu em seco quando o medo se instalou no estômago. Se ele a atacasse, ela conseguiria se defender?
— Olhe para mim quando eu estiver falando com você — ele exigiu, levantando a mão para segurar o queixo dela entre os dedos. Em seguida, puxou para cima com um tranco, forçando-a a encará-lo.
Sara encarou direto os olhos dele, determinada a não se acovardar. Se aquele cara era mesmo seu colega de quarto, ela não ia deixar que ele achasse que podia mandar nela e assediá-la quando bem entendesse. Talvez um joelho no saco ensinasse a ele a manter distância.
Antes que pudesse partir para o ataque, ele passou o polegar pelo lábio inferior dela. O gesto a pegou desprevenida, mas um segundo depois ela se recuperou e afastou a mão dele com um tapa. “Não encosta em mim!”
“Eu faço o que eu quiser”, ele afirmou, abaixando a cabeça até que os lábios ficassem a centímetros da orelha dela, “e você vai gostar.”
Sara engoliu em seco enquanto o coração disparava no peito. Ele realmente não ia deixá-la em paz, ia?
Ele se afastou e voltou a encará-la. “A gente vai se divertir muito, eu e você”, disse.
“Continua sonhando”, ela retrucou, desafiadora.
Os olhos dele faiscaram com uma raiva renovada, e ele socou a parede ao lado da cabeça dela. O corpo inteiro de Sara tremeu, e ela começou a se perguntar se desafiá-lo tinha sido uma boa ideia.
Ele a fuzilou com o olhar, a mandíbula pulsando, e o calor do corpo dele parecia se enrolar nela e sufocá-la. Ela percebia que ele era um lobisomem poderoso. A aura dele era forte demais... ele era um Alfa? Com a sorte podre que ela tinha, não seria surpresa se tivesse acabado presa com um Alfa arrogante como ele.
Um disparo ecoou de repente, interrompendo o silêncio do quarto. Sara levou alguns segundos para perceber que o tiro tinha vindo de dentro do quarto. Atônita, ela se abaixou por baixo do braço de Kai para ver o que estava acontecendo.
Ela piscou ao ver outro homem nu, com uma arma na mão. Esse estava sentado no sofá em frente ao que Kai vinha ocupando. O sofá ficava de costas para o corredor; por isso, quando Sara entrou, não o tinha notado.
Olhando para ele, ela não pôde deixar de reparar no quanto era bonito. Sara franziu a testa, se perguntando se ele também era seu colega de quarto.
“Dá pra ter um pouco de silêncio aqui?” o homem exigiu, lançando o olhar na direção de Kai.
“Tá bom, princesa, não precisa sair por aí atirando nas coisas”, Kai disse, revirando os olhos de um jeito dramático.
Os olhos do homem deslizaram até Sara, e eles ficaram se encarando por alguns segundos. Sara se retesou, esperando que ele fizesse algum comentário sobre a presença dela. Mas ele só a olhou sem expressão por alguns segundos antes de se largar de novo no sofá, desaparecendo do campo de visão dela.
Mesmo sem ter dito nada, o tom frio da voz dele e o olhar indiferente que tinha lançado para Sara deixavam claro que ele não era alguém com quem se mexia.
“Você deu sorte”, Kai resmungou, e então voltou para o sofá onde o amante dele ainda esperava.
Aliviada por ele tê-la deixado em paz, Sara tentou a porta do quarto mais próximo. Para sua agradável surpresa, estava vazio; ela levou a mala para dentro e trancou a porta.
Ela ficou encostada na porta fechada por alguns segundos e respirou fundo. Sua estadia na North Academy já tinha começado mal. O quanto pior aquilo ainda podia ficar?
Suspirando, ela tratou de desfazer as coisas e arrumar a cama. Estava quase terminando quando um grito alto do lado de fora atravessou o ar. Rápido, ela apagou as luzes e se sentou na parte de baixo da cama, abraçando o próprio corpo com força.
Havia muito tempo que ela ouvia histórias sobre os punidores da escola. Se um lobisomem fosse indisciplinado, os punidores o matavam. O grito que ela tinha ouvido estava carregado de dor, e ela só conseguia imaginar o que estava acontecendo lá fora.
Ela estava determinada a manter um perfil baixo e não fazer nada que atraísse a atenção dos punidores para si.
Quando a noite voltou a ficar silenciosa, ela se levantou da cama e foi até a porta. Colando a orelha na madeira, escutou qualquer sinal de movimento do lado de fora. Que se danassem os punidores; ela precisava pensar num jeito de sobreviver aos colegas de quarto. E se eles arrombassem o quarto dela de noite? Principalmente aquele Kai, que já tinha algo contra ela.
No fim, ela ficou sentada no chão, com as costas apoiadas na porta. Estava cansada e queria muito dormir, mas não queria correr o risco de os colegas de quarto invadirem o quarto.
Naquele momento, o foco dela era atravessar a primeira noite na escola inteira.
