Capítulo 5
Na manhã seguinte, Sara foi arrancada do sono por um barulho alto. Sobressaltou-se, os olhos varrendo o quarto em pânico, procurando um intruso.
Do ponto de vista da cama, não via ninguém. E então se lembrou de ter dormido encostada na porta. Por que ela estava na cama?
Olhou para si e constatou que estava com as mesmas roupas de ontem. O medo que a tinha agarrado por um segundo — de que uma de suas colegas de quarto tivesse invadido seu quarto — diminuiu.
Ela deve ter acordado no meio da noite e vindo para a cama, concluiu. Não só ainda estava com a roupa de ontem, como também estava deitada por cima do edredom.
O alívio a inundou. Ela tinha sobrevivido à primeira noite. Agora, só precisava sobreviver ao primeiro dia.
Ao checar o celular, viu que eram sete e meia. Às oito, precisava pegar seu horário das aulas na secretaria e, depois, encontrar o caminho até a primeira aula.
Saindo da cama, foi até a porta e escutou. Não vinha som nenhum do outro lado, e ela esperou que isso significasse que suas colegas tinham ido embora.
Quando apareceu na sala, estava de fato vazia. Voltando ao quarto, pegou seus itens de higiene e a toalha e foi ao banheiro. Tomou um banho rápido e retornou ao quarto para se trocar. Então, pegando a mochila, saiu, trancando a porta atrás de si.
Chegou à secretaria pouco depois das oito. A mesa da secretária, do lado de fora do gabinete do diretor, estava vazia, então ela ficou por perto e esperou.
Alguns instantes depois, a porta do gabinete do diretor se abriu e uma mulher saiu, seguida por um homem.
— Precisa de alguma coisa? — perguntou a mulher, sentando-se atrás da mesa.
— Sim. Meu nome é Sara Mae Xavier, sou nova. Vim buscar meu horário das aulas.
— Me dê um minuto — disse a secretária, ligando o computador.
— Senhorita Xavier? — Uma voz masculina e dura veio detrás dela. Sara se virou e encontrou o homem que havia saído do gabinete a encarando com aspereza. — Entre no meu gabinete — ordenou ele e voltou para a sala do diretor.
Sara engoliu em seco, sem entender por que o diretor estava falando com ela daquele jeito. Era só o primeiro dia, e ela não tinha feito nada para merecer ser convocada ao gabinete dele.
— É melhor não deixá-lo esperando — aconselhou a secretária, lançando-lhe um olhar rápido antes de voltar à tela. — Seu horário vai estar pronto quando você voltar.
Sara assentiu e seguiu em direção ao gabinete do diretor. A porta se fechara atrás dele; ela a empurrou e entrou.
Ele estava de pé diante de uma janela atrás de uma enorme mesa de mogno, de costas para a porta.
— Sim, senhor? — anunciou sua presença, entrelaçando as mãos à frente do ventre.
O homem se virou, e os olhos cinzentos, hostis, pousaram nela.
— Então é você que teve a audácia de atacar o Rei Alfa.
Sara engoliu em seco. Ah, então era sobre isso. Será que ele fazia isso com todo novo delinquente despejado na escola dele?
— Sim — respondeu.
Ele soltou um riso de desprezo, afastando-se da janela e vindo na direção dela.
— Que coragem. Você não tem vergonha na cara, tem?
Sara mordeu a língua. Não adiantaria dizer que ela não estava errada. O tribunal não acreditara nela, e ele já parecia ter decidido o que pensar dela.
— Ainda bem que você está aqui — disse ele, parando a alguns passos dela. — Eu adoro lidar com Ômegas como você, que acham que podem fazer o que quiserem.
As mãos de Sara se fecharam em punhos diante da ameaça. Se o diretor estava de olho nela, teria de ser ainda mais cuidadosa para não se meter em encrenca.
Ela desviou o olhar do dele, e seus olhos caíram sobre um retrato na parede, com um rosto familiar. Seu estômago se apertou quando os olhos de Victor a encararam de volta. Victor. Ele era o patrocinador da escola.
Agora ela sabia que aquilo tinha pouco a ver com a rotina do diretor com os recém-chegados e muito mais com o fato de o Rei Alfa patrocinar a escola. Pegá-la no pé era, sem dúvida, o jeito dele de bajular Victor.
Ia mesmo ser difícil passar despercebida naquela escola, não ia?
O diretor acabou deixando que ela fosse embora, depois de avisar que ficaria de olho nela e que, se ela saísse da linha, teria o maior prazer em colocá-la no lugar. Sara ficou aliviada ao pegar seu horário e se afastar dali, para longe da secretaria.
Ao olhar o horário, ela percebeu que tinha uma aula naquele exato momento, no prédio B. Por sorte, o prédio não ficava longe dos escritórios da administração, e ela encontrou o anfiteatro depois de alguns minutos.
Havia alunos na sala, mas o professor ainda não tinha chegado. Observando o lugar, ela localizou um assento vazio na segunda fila. Começou a ir até lá, mas, de repente, alguém entrou no seu caminho e a bloqueou.
Ela só teve tempo de registrar que era a garota que estivera com Kai no dia anterior antes de a menina lhe dar um tapa forte no rosto.
Sara arfou, chocada, segurando a bochecha ardendo. “Que porra é essa?”, exigiu, encarando a garota.
“Pra você aprender a não roubar o namorado dos outros”, disse a garota, cruzando os braços no peito.
“Como é?”, Sara retrucou. “Do que você está falando?”
A garota empurrou o ombro dela com brutalidade, fazendo-a tropeçar para trás. “Não ouse bancar a inocente. Se não fosse por você, o Kai não teria terminado comigo.”
“O que isso tem a ver comigo?”, Sara exigiu, ficando com raiva. Mas se conteve, embora quisesse muito revidar com um tapa. Ela não podia se dar ao luxo de entrar numa briga. Não depois das ameaças bem específicas que o presidente tinha acabado de fazer.
“Tudo!”, a garota disparou, com a voz alta o bastante para que todo mundo na sala provavelmente ouvisse. “Você só está aqui há um dia e já está se jogando em cima dele como uma puta barata. Vou te dizer uma coisa: não me importa se você é colega de quarto dele ou não; se eu te vir perto dele de novo, eu vou rasgar essa sua cara feia e ver com o que você vai seduzir ele.”
“Ela acabou de te chamar de puta?”, Edna exigiu, a voz na mente dela carregada de raiva.
“Ignora”, Sara disse para sua loba, em pensamento. “Ela é só mais uma valentona patética.”
“Se a gente não mostrar pra ela que não pode mexer com a gente, ela vai continuar”, Edna apontou, “como aquelas garotas lá de casa.”
“Tá me ouvindo?”, a garota exigiu, irritada por Sara não estar dizendo nada. “Fica longe do Kai!”
“Se ele te dispensou, isso não é problema meu”, Sara disse. “Agora, se você sair da minha frente, eu preciso achar um lugar pra sentar.”
Edna se eriçou, louca para brigar, mas Sara conseguiu manter a calma quando passou de lado pela garota.
Pelo menos até a garota agarrar Sara pela parte de trás do cabelo e puxá-la de volta.
O último controle que Sara tinha sobre a situação escorreu pelos dedos, e Edna conseguiu o que queria. Virando-se, ela foi para cima da garota e devolveu na mesma moeda, agarrando o cabelo dela também.
A sala explodiu em gritos de incentivo enquanto as duas se atracavam, trombando uma na outra e batendo nas mesas da primeira fila. Em algum momento, foram parar no chão, trocando socos e tapas.
Ninguém tentou parar a briga, e nenhuma das duas dava sinal de ceder, até Kai aparecer no anfiteatro. Sara o viu primeiro. Ela se levantou num pulo e marchou até ele. “Você pode, por favor, dizer pra sua namorada maluca que eu não tenho nada a ver com você ter terminado com ela?”, exigiu, ofegante.
A outra garota se levantou, ajeitando a roupa e limpando o sangue do nariz.
Sara olhou para Kai, esperando que ele colocasse tudo em pratos limpos. Mas, quando ele olhou para ela, deu de ombros e disse: “Mas você me seduziu.”
Sara ficou de boca aberta, sem acreditar no que tinha acabado de ouvir.
A sala se encheu de sussurros, e a garota tentou avançar nela de novo, mas Kai a impediu. “Eu já cansei de você”, disse ele, empurrando-a para trás.
Ela cambaleou para trás, as lágrimas escorrendo pelo rosto.
Sara agarrou o braço de Kai e puxou com força, sentindo a raiva subir de novo. “O que você acha que está fazendo?”
“Meu Deus, que vadia”, disse alguma garota, enquanto levava a ex de Kai embora.
Kai se inclinou na direção de Sara, os olhos escuros brilhando de malícia. “Você quer que eu minta sobre o que a gente fez a noite inteira?”
Por instinto, Sara levantou a mão para dar um tapa nele, mas ele segurou o pulso dela antes que ela pudesse encostar no rosto dele. Para a irritação dela, ele levou o dorso da mão dela aos lábios e beijou de leve. “Depois a gente conversa, gata. Agora é hora da aula.”
Então ele soltou a mão dela e foi embora, encontrando um lugar para se sentar no anfiteatro.
Sara ficou ali, recuperando o fôlego, lutando contra a vontade de ir atrás dele e enfiar um pouco de juízo na cabeça dele.
No fim, ela teve de caminhar em silêncio até o seu lugar quando o professor apareceu. Vários pares de olhos cheios de ódio a acompanharam enquanto ela ia até a cadeira. Algumas palavras nada agradáveis foram lançadas na direção dela, todas vindas das colegas.
E assim, de uma hora para outra, ela virou o inimigo comum de toda lobisomem fêmea nas redondezas. Era como voltar para a escola lá de casa.
