Capítulo 6
Mais tarde naquela noite, Kai estava sentado na sala de estar quando a garota nova irrompeu no dormitório. Ele sentiu a raiva dela antes mesmo de os olhos pousarem nele e ela avançar, com as mãos fechadas em punhos, os olhos castanhos estreitados, os lábios pressionados um contra o outro.
— Oi, docinho — ele cumprimentou, cruzando uma perna sobre o joelho da outra. — Como foi seu primeiro dia?
— Por que você mentiu? — ela exigiu, parando diante dele e fulminando-o com o olhar. Ela estava com certeza furiosa — e ele gostou disso.
Mal podia esperar para lhe dar uma lição.
Uma lição que envolvia aqueles olhos irritados se fechando em êxtase e aqueles lábios emburrados dizendo o nome dele enquanto ela implorava para que ele a tomasse.
Kai bateu de leve na própria coxa e lhe deu um sorriso debochado.
— Senta aqui e eu te conto.
Ela bufou.
— O que há de errado com você? O que você tem contra mim? A gente só se conheceu ontem e nem se conhece. Por que você não me deixa em paz?
— Não me diga o que eu tenho que fazer — ele a advertiu. — Eu disse que ia te dar uma lição. Eu cumpro minhas promessas.
Ele ainda conseguia se lembrar do olhar enojado no rosto dela no dia anterior, quando ele se aproximou. Nenhuma garota jamais olhou para ele daquele jeito, nunca. A maioria estaria implorando para ele tocá-las, fazer o que quisesse.
Quem ela pensava que era para rejeitá-lo e agir como se fosse boa demais para ele? Ele era o Alfa dos Mountain Blacks, e ela era só uma Ômega insignificante. Quando ele terminasse com ela, ela ia saber o seu lugar.
— O que foi que eu te fiz? — ela exigiu.
— Eu odeio gente que não me obedece — ele disse. — E esse é o seu castigo.
Ela encarou Kai, o rosto passando da confusão ao espanto e então ao riso.
— Eu machuquei seu egozinho?
Os olhos de Kai se estreitaram e a mandíbula se retesou. Aquele riso... ninguém jamais tinha rido dele de um jeito tão zombeteiro.
— Olha, cara — ela disse — tem um monte de garotas neste campus prontas pra matar... literalmente, pra ficar com você. Então por que você não vai atrás delas? Me poupa. Já fui jogada contra a parede vezes o bastante hoje pra ficar com o ombro doendo.
— Você está presa comigo — ele disse. — Ou pode dormir comigo e seus problemas vão acabar.
— Continua sonhando — ela respondeu.
Já farto da atitude dela, Kai se levantou, seu corpo mais alto se impondo sobre o dela. Ela se encolheu, mas logo se recompôs e manteve a posição, como se achasse que podia enfrentá-lo.
— Você está forçando a barra, lobinha — ele advertiu, inclinando-se para aproximar o rosto do dela. — Vamos ver por quanto tempo você aguenta, vamos?
A garota deu um sorriso de desdém, enfiou o dedo do meio na cara dele e foi embora para o quarto.
Ele ia fazê-la se arrepender de ter sido tão insolente com ele. Era ele quem rejeitava as garotas. Não o contrário. Não importava o que fosse preciso, ele conseguiria o que queria.
No dia seguinte, Sara se perguntou se não tinha sido imprudente demais ao confrontar Kai no dormitório.
Ela soubera que ele era o Alfa dos Mountain Blacks, uma das principais matilhas da região. Normalmente, ela não iria querer irritar um Alfa — ainda mais um que estudava na North Academy, o que significava que ele era um tipo especial de encrenqueiro.
Quando o enfrentou na noite anterior, estava com tanta raiva que, quando ele propôs que ela dormisse com ele, ela perdeu completamente qualquer instinto de autopreservação.
Ela odiava Alfas arrogantes como ele, que achavam que podiam conseguir tudo o que queriam. E, sim, na maioria das vezes conseguiam.
Mas, se ele achava que ela ia deixar que ele fizesse o que bem entendesse com ela, estava muito enganado. Ela não tinha escapado de um babaca manipulador para substituir por outro.
Além disso, parecia que Edna já tinha se cansado de ser pisoteada. Enquanto Sara sempre preferira manter a cabeça baixa e ignorar os valentões, Edna sempre teve sede de sangue. E parecia que, ultimamente, o lado rebelde dela estava vencendo.
Ninguém gostava de Ômegas rebeldes. Ômegas deviam enfiar o rabo entre as pernas e baixar a cabeça quando confrontados por um lobisomem de patente mais alta. E o que ela tinha feito? Rido dele e mostrado o dedo do meio.
De manhã, Sara ficou no quarto até ter certeza de que todo mundo tinha saído. Ela sabia que não poderia evitar Kai para sempre. Mais cedo ou mais tarde, acabaria trombando com ele. Mesmo assim, ia tentar. Ela mal conseguiu chegar a tempo na primeira aula.
Ao meio-dia, ela subia correndo um lance de escadas para ir a outra aula quando alguém esticou o pé para derrubá-la. Ela já tinha se acostumado a desviar de trombadas, mas na escada era diferente.
Ela tropeçou no pé e foi lançada em direção aos degraus. No último instante, conseguiu agarrar o corrimão e se segurar com todas as forças, o corpo a poucos centímetros de se espatifar nos degraus. Risadas ecoaram ao redor enquanto a garota que a tinha derrubado passava com as amigas.
Sara se endireitou e cerrou os dentes. Aquilo poderia ter acabado muito mal. No dia anterior, tinham empurrado ela pelos corredores, despejado água no almoço dela e chamado-a de nomes toda vez que ela passava.
Ela também passou a se ver sentada sozinha em todas as aulas, com todo mundo se afastando dela, até os alunos homens. A história já tinha se espalhado de que fora ela quem atacara o Rei Alfa, então não era surpresa que ninguém quisesse ser visto perto dela.
Ela não se importava de ser isolada, mas dispensava os ataques físicos.
No almoço, ela estava sentada sozinha numa mesa no canto mais ao fundo do refeitório da escola quando sentiu uma presença se impondo sobre ela.
Ergueu os olhos e encontrou a ex do Kai, acompanhada de três amigas. Cada uma carregava uma bandeja de comida.
— Quem disse que você podia comer aqui? — perguntou a garota.
— É um lugar público — ela respondeu.
— Ninguém te quer aqui — disse uma das outras. — Já temos que te aturar na sala. Poupa a gente da sua cara no almoço.
— Eu não vou sair — declarou Sara.
— Não vai? — perguntou a líder, fechando a mão em torno de um copo de suco na bandeja. — Precisa de um empurrãozinho?
Estendendo o braço, ela virou o copo sobre a cabeça de Sara, encharcando o cabelo e o suéter.
Um burburinho se espalhou ao redor. Sara cerrou as mãos em punhos, tentando fazer Edna parar de instigá-la a brigar. Lembrou a si mesma de que o presidente tinha posto um alvo nas suas costas e, obviamente, ela seria punida se revidasse.
Em silêncio, pegou a bandeja e se levantou. Seus olhos encontraram Kai algumas mesas adiante, observando a cena com um sorriso maldoso no rosto. Quando seus olhares se cruzaram, ele arqueou uma sobrancelha, como se dissesse: “minha oferta ainda está de pé”.
Ela desviou o olhar e passou pelas quatro garotas em direção ao lixo. No caminho, algumas pessoas jogaram comida nela e, quando saiu do refeitório, já estava imunda.
Risos e insultos a acompanharam até as portas de saída. O plano era voltar para o dormitório e se trocar, mas, no instante em que deixou o refeitório, a fachada de indiferença desmoronou.
Aquilo era demais. Sim, ela já tinha sofrido bullying antes, mas não daquele jeito. Todo mundo ali parecia estar contra ela, e ela odiava se sentir tão impotente. Ignorá-los não ia funcionar.
Brigar era a única opção, mas a ideia de o presidente mandar os punidores atrás dela a fez hesitar. Se algum deles a atacasse em particular, porém, ela não se conteria.
Com as lágrimas embaçando a visão, seguiu para uma escadaria que levava ao terraço, longe da multidão.
No momento em que empurrou a porta do terraço, os sentimentos que vinha reprimindo romperam de vez, e ela caiu no choro.
A soneca da tarde de Christian Rivers foi interrompida pelo som de choro. No começo, ele achou que estava imaginando, porque o terraço geralmente era silencioso, e ninguém nunca subia ali.
Mas então ele ouviu com clareza. É, tinha companhia. Ao conferir o relógio, viu que nem tinha dormido dez minutos.
Ele odiava quando alguém atrapalhava sua hora de dormir.
— Cala a boca e dá o fora daqui — gritou, esperando que quem quer que fosse entendesse o recado e sumisse.
Houve silêncio por alguns segundos e, então, uma voz feminina irritada gritou de volta:
— Vai se foder!
A resposta atravessou Christian como um choque, e ele se levantou do banco onde estava deitado. De pé, contornou a esquina para ver quem era—
Ah, a garota nova do dormitório dele.
Era a segunda vez que ela atrapalhava o sono dele, e ainda tinha a coragem de retrucar.
— O que foi que você disse?
— Me deixa em paz, porra — ela disse, enfiando o rosto na dobra do cotovelo. Estava sentada no chão, as costas apoiadas na parede ao lado da porta.
Parecia que tinha acabado de passar por uma guerra de comida, mas isso não era problema dele. Ele ia mostrar a ela o que se ganha por perturbar sua paz e xingar na cara dele.
Avançando, ele agarrou o braço dela e a puxou para ficar de pé. Os olhos castanhos dela faiscaram de raiva ao encarar o rosto dele e, então, ela parou, rígida.
— É você — ela murmurou.
— Quando eu mando sair, você corre — ele rosnou, sem o menor interesse em botar papo em dia com ela.
Ela deu uma risada de desprezo e tentou soltar o braço do aperto dele.
— Deus, você é tão babaca quanto ele, não é?
— Você me chamou do quê?
— Você ouviu. Me solta.
Em toda a vida, Christian nunca tinha sido insultado na cara. Definitivamente não por uma Ômega que ele podia esmagar com a palma da mão.
Ômegas como ela não sabiam o próprio lugar e causavam todo tipo de problema para todo mundo.
Ela claramente precisava ser domada.
Entreabrindo os lábios, ele mostrou os dentes, canalizando seu lobo e deixando as presas se estenderem.
A expressão dela congelou e ela ficou pálida, sem cor.
— Você… você é… você é—
Ela não teve chance de terminar a frase: ele segurou o pescoço dela de um lado e afundou as presas do outro.
Ela arfou, as mãos lutando para empurrá-lo.
Ao primeiro gosto do sangue dela, uma descarga forte de energia atravessou o corpo dele, e ele a soltou na hora.
Ela também se afastou, segurando o pescoço e encarando-o com os olhos arregalados.
Ele sabia que ela devia ter sentido também.
O vínculo de companheiros.
