Capítulo 7
Sara não conseguia acreditar. Tinha que ser outra coisa. Aquele choque que ela sentira no instante em que ele beliscou seu pescoço…
Como poderia ser o vínculo de companheiros? Fazia apenas alguns dias que ela rompera o vínculo com Victor.
A chance de encontrar outro companheiro depois de romper o vínculo com o primeiro era rara. Mas agora, só dois dias depois de quebrar o primeiro vínculo, ela estava sentindo isso com outra pessoa.
Christian Rivers. Seu novo colega de quarto. Que ela agora sabia, com certeza, que era um Alfa.
Apenas os lobisomens mais poderosos conseguiam se transformar parcialmente, usando ao mesmo tempo a forma humana e a forma de lobo.
Era por isso que ela tinha ficado chocada quando suas presas se estenderam ao morder Victor, e por isso a tinham rotulado de raivosa. Ela estava convencida de que tinha sido por desespero que conseguira fazer aquilo. Mas, para qualquer outro, ela era uma Ômega que devia ser mantida trancada.
Christian parecia tão furioso que ela se encolheu e deu um passo para trás.
— O que você fez comigo? — ele exigiu, os olhos azuis se estreitando enquanto dava um passo em direção a ela. O rosto bonito parecia aterrorizante, e ela tropeçou para trás para se afastar dele.
— E-eu… eu não fiz nada — gaguejou, surpresa com a pergunta e com o jeito agressivo dele. Era ele quem tinha tentado morder seu pescoço, e ela não tinha controle algum sobre o vínculo de companheiros. Do que ele estava acusando ela?
— Eu sei sobre você — ele disse, dando mais um passo ameaçador.
— O quê? — ela perguntou, o coração martelando no peito. Ele agora estava entre ela e a porta, e ela sabia que não conseguiria passar por ele se ele não a deixasse sair.
— Você atacou o Rei Alfa porque queria tanto ser Luna. Se acha que eu vou ser seu plano B, pense de novo — ele disse.
Sara engoliu em seco. Ele não gostava de ter um vínculo de companheiros com ela. E ele também achava que isso era algum tipo de… o quê, exatamente? Bruxaria? O que ela poderia fazer para criar um vínculo de companheiros entre eles? Nenhum lobisomem era capaz disso. Era algo decidido pela Deusa.
— O que você quer dizer? — ela perguntou, as mãos se fechando em punhos.
Quando rompera o vínculo com Victor, ela nem sequer cogitara a ideia de encontrar um companheiro de novo. Poucos lobisomens que eram rejeitados ou perdiam seus companheiros encontravam outro.
Naqueles primeiros segundos depois que Christian a mordeu, as emoções dela haviam se transformado de terror em choque e, então, em euforia. E então ele a encarara com aquele rosto furioso, e a alegria dela murchara.
Encontrar outro companheiro depois do primeiro fracasso era um milagre. Encontrar um que odiasse a ideia de estar ligado a ela, não.
— Você pode esquecer essa história de ser a minha companheira — ele disse friamente.
Ela pressionou os lábios um contra o outro. Era preciso odiar muito alguém para rejeitá-la na mesma hora.
Uma pontada de dor atravessou seu peito, e Edna gania. Era, de fato, um vínculo de companheiros. Será que ela teria de passar pela tortura de ter um vínculo rompido duas vezes em uma única semana? Como sobreviveria a isso?
Christian também era um Alfa. Se ele a rejeitasse, o dano seria tão grande quanto havia sido romper o vínculo com Victor. Ela não tinha certeza de que conseguiria se recuperar.
Mas, estranhamente, isso não a incomodava tanto quanto as suposições dele.
— Quem disse que eu quero ser sua companheira? — rebateu ela, encarando-o diretamente nos olhos. Que audácia a dele, primeiro acusá-la de ser de alguma forma responsável por aquilo e depois agir como se ela estivesse desesperada para tê-lo como companheiro.
Ele podia ser um Alfa, mas ela tinha seu orgulho. Claro, por um segundo a vida dela pareceu mais brilhante quando percebeu que ele era seu novo companheiro. Mas isso foi antes de perceber que ele era um babaca arrogante. Ele podia rejeitá-la, se quisesse, mas ela não ia deixar que ele a humilhasse daquele jeito.
Enquanto Christian olhava para a garota à sua frente, uma miríade de sentimentos o atravessava. Nenhum deles era bom.
Sentimentos ardentes, sombrios, raivosos, que o faziam querer quebrar o pescoço dela em dois e esquecer que um dia a conheceu.
Ele completara dezenove anos sem encontrar sua companheira, e vinha esperando que a Deusa o tivesse poupado. A maioria dos lobisomens encontrava seus companheiros até os dezoito anos. Havia lobisomens que nunca encontravam, e ele esperava ser um deles.
Para ele, havia coisas mais importantes na vida do que o vínculo de companheiros. Ele o via como um incômodo desnecessário que só atrapalharia seu caminho.
Tudo estava saindo do jeito que ele queria… até que ela apareceu.
Ele deveria ter percebido que havia algo estranho quando a viu no dia em que ela chegou ao dormitório dele e seu coração falhou uma batida.
Claro, ela era bonita e tudo mais. Mas ele já tinha visto garotas mais bonitas, e seus olhos nem sequer quiseram se demorar nelas, muito menos seu coração falhar batidas.
Mas, naquela noite, quando os olhos castanhos dela encontraram os seus, seu coração tropeçou. Ele rapidamente ignorou aquilo e esqueceu.
Se soubesse, teria dado um jeito nela antes que tivesse a chance de sentir o vínculo entre os dois.
Mas ainda não era tarde demais. Ele sabia como lidar com aquilo de uma vez por todas. Não havia nada melhor do que a morte para romper um vínculo de companheiros… especialmente um indesejado.
Ele deu mais um passo em direção a ela, e ela recuou. As costas dela bateram na parede, e ele percebeu o pânico que enchia os olhos dela quando se deu conta de que estava encurralada. Ainda assim, ela o encarou, desafiadora. O espírito de luta dela era adorável... mas desnecessário. E não era da conta dele.
Ele abriu as mãos, reunindo forças, querendo transformá-las em garras. Um golpe só no pescoço dela e ele esqueceria que ela algum dia tinha aparecido na vida dele.
— NÃO!
Ele franziu a expressão ao ouvir a voz retumbante do lobo na cabeça.
— O quê? — rebateu, irritado.
— Não machuque ela!
— A gente não quer uma companheira, lembra?
— Você quer dizer você.
Os olhos da garota foram das mãos dele para os olhos, e o pânico que ela tentava esconder virou terror escancarado.
— O que... o que você está fazendo?
— Você está assustando ela — apontou o lobo. — Para com isso.
— Ian, ela é uma Ômega fraca e ardilosa. Mesmo que você me convencesse a aceitar uma companheira, nunca seria ela. Então dá pra sair do meu caminho e me deixar terminar isso.
Ele tentou canalizar a energia para as mãos de novo, mas Ian lutou contra ele.
— Só me rejeita — disse a garota. — Eu entendi, você não me quer. Mas não precisa me machucar.
— Não rejeita ela — disse Ian. — Você faz ideia do quanto eu estou feliz por finalmente termos encontrado ela? Eu achei que ia morrer triste e sozinho...
— Você vai — Christian interrompeu.
— Se você machucar ou rejeitar ela, pode esquecer que eu existo — ameaçou Ian.
— Sei — retrucou Christian, sem se abalar com a ameaça.
— Espera pra ver — resmungou Ian.
A irritação de Ian foi tanta que Christian parou de tentar fazer as garras aparecerem e deu um passo para trás, afastando-se da garota apavorada.
— Não deixe eu ver a sua cara de novo. Nunca — advertiu.
Ela ficou ali, encarando-o, como se tivesse congelado. Mas então ele rosnou, e ela se sobressaltou antes de correr até a porta. Abriu-a e desapareceu do outro lado.
— Só conhece ela primeiro, tá? — sussurrou Ian.
— Não, obrigado — resmungou Christian, voltando para o banco.
Mas, por mais que tentasse, ele não conseguiu voltar a dormir.
Naquela noite, quando Sara voltou ao dormitório, entrou no quarto, trancou a porta e não teve coragem de sair.
Ela não conseguia acreditar na própria falta de sorte.
Encontrar milagrosamente um segundo companheiro só para ele ressentir tanto a existência dela a ponto de quase cortar a garganta dela?
O que ela tinha feito para merecer aquilo tudo? Ela sempre se achara sortuda por ter sido adotada pela família de Victor. Não eram muitos os Ômegas órfãos que encontravam alguém disposto a acolhê-los em casa, quanto mais uma família de Alfas. A maioria acabava se escravizando para os outros em troca de comida e abrigo.
Agora, ela se sentia tudo, menos sortuda. Talvez sua sorte tivesse acabado.
Ela não estava apenas presa na North Academy, mas também com duas colegas de quarto que a odiavam.
Na manhã seguinte, repetiu sua rotina de sair do dormitório depois que todos já tinham ido embora. Por quanto tempo mais teria que viver daquele jeito?
O dia transcorreu da mesma forma que os dois anteriores, com isolamento, empurrões e insultos. Ela não foi ao refeitório, então evitou o banho de comida.
Estava a caminho do dormitório para comer alguma coisa quando se deparou com uma grande multidão no pátio. Ao se aproximar, descobriu que dois lobos de alcateias diferentes estavam lutando.
— Olá, lobinha.
Ela praguejou por dentro quando a voz de Kai surgiu bem atrás dela. Tanto por tentar ficar fora do caminho dele.
— Quem você acha que vai ganhar? — ele perguntou, abaixando a cabeça até deixar a boca bem ao lado da orelha dela.
— Eu já estava de saída — ela disse, começando a se virar. Mas ele pousou as mãos nos ombros dela e a manteve firme no lugar.
— Você não pode perder a diversão — ele disse.
As alunas ao redor já estavam lançando olhares para os dois. Como se ela precisasse atiçar ainda mais o ódio delas.
— Então, em quem você aposta? Eles estão lutando por uma loba, os dois alegando que ela é sua companheira. Se estivessem lutando por você, de quem você gostaria que vencesse?
Sara franziu a testa ao olhar de volta para os dois lobos. Eles estavam em suas formas lupinas e se atacavam como se estivessem lutando até a morte.
Ela nunca tinha ouvido falar de uma loba com mais de um companheiro ao mesmo tempo. Um deles teria que ser rejeitado ou perder a companheira para conseguir encontrar outra.
A luta continuou por mais alguns minutos, até que um dos lobos, Eddie, venceu. No entanto, ele chocou todo mundo ao rejeitar a loba logo em seguida.
Sara se irritou com a arrogância dele. Ele não estava lutando porque queria ficar com ela. Simplesmente não queria deixar o outro lobo vencer.
Ela tentou sair de novo quando o presidente se adiantou. Ao que parecia, duelos eram uma parte normal da vida escolar na North Academy. Dois lobos com uma rivalidade lutavam, e quem vencesse ganhava um prêmio.
O presidente disse a Eddie que, já que ele tinha vencido, poderia escolher uma Ômega para servi-lo.
O queixo de Sara caiu. Ela não esperava que aquele fosse o prêmio. Tentou se desvencilhar do aperto de Kai e desaparecer antes de acabar em outra situação horrível, mas já era tarde demais.
Os olhos de Eddie já estavam sobre ela.
