Capítulo 1
Meu marido queria sair do nosso casamento. O motivo: eu era a razão de a família ainda não ter um herdeiro. Ele não sabia que eu também estava grávida. E não fazia ideia de que, em três horas, nunca mais seria capaz de gerar um filho.
— Renata, assina. Os três cassinos e o banco clandestino do South Side ficam comigo, e a gente se separa sem sujeira. — Dario deslizou uma pasta pela mesa. — A Bianca está carregando meu filho. A família precisa de um herdeiro de verdade.
Ele tinha um charuto preso entre os dentes e soltou uma nuvem áspera de fumaça. Aquele rosto por quem eu já fui louca — não restava nada nele agora além de certeza. Nem passou pela cabeça dele que eu pudesse dizer não.
Bianca estava encaixada nele, num vestido justo de grife, as unhas vermelhas passeando sem pressa por uma barriga que ainda nem aparecia. Ela sorriu para mim.
— Desculpa, Renata. Mas o Dario diz que eu sou a única que pode dar a ele uma família de verdade.
Olhei para o contrato. Não era só o fim do nosso casamento. Era também a assinatura que entregava, junto, todos os grandes ativos no meu nome.
Cinco anos. Eu estive ao lado dele desde a época em que era só um corre de rua meia-boca até virar o chefe da família.
Eu levei um tiro por ele. Eu arrumei os piores livros da família, uma conta podre de cada vez. Para conquistar a velha guarda, bebi até meu estômago sangrar e me carregarem para o pronto-socorro.
Cada um daqueles negócios, eu tinha pago com sangue.
E agora ele queria catar tudo e entregar a uma mulher que uma quadrilha rival tinha enfiado no colo dele.
— Pensa bem nisso, Dario. — Sustentei o olhar dele. — A família tem regras. Quem vira as costas pros seus não vai longe.
— Regras? — Ele zombou e largou a caneta na minha frente. — Eu vou ter um filho. O Don se importa com a linhagem acima de qualquer coisa — essa é a única regra que conta. Para de enrolar e assina. Guarda um pouco de dignidade pra você.
Puxei o ar fundo e engoli o que quer que estivesse subindo pela minha garganta.
Minha mão foi até a barriga antes que eu conseguisse impedir. Naquela mesma manhã, eu tinha recebido o resultado da clínica — eu também estava grávida. Eu ia contar a ele hoje, no nosso aniversário.
Agora, olhando para os dois, tudo o que eu sentia era alívio.
Peguei a caneta, assinei meu nome e empurrei a pasta de volta.
— Pega suas coisas e sai da minha frente.
Dario juntou o contrato e se levantou, um braço em volta de Bianca, com uma satisfação estampada no rosto.
— Garota esperta. Reservei o Velvet pra hoje à noite pra comemorar. Não aparece lá pra estragar.
A porta se fechou atrás deles.
Peguei o café frio da mesa e arremessei na parede. A xícara se estilhaçou, e o café escorreu pelo papel de parede em listras escuras. Cinco anos. Eu levei um tiro por ele, limpei mais sujeiras dele do que consigo contar, e tudo o que isso me comprou foi “guarda um pouco de dignidade”.
Fiquei ali, respirando com dificuldade. Então me abaixei, peguei a caneta do chão — a mesma que tinha acabado de assinar a entrega de tudo — e fechei a mão em torno dela.
Chorar não ia mudar nada. Eu ia fazer ele pagar tudo de volta, com juros.
Três horas depois, meu celular tocou.
Era a Gemma — minha melhor amiga e a pessoa nesta cidade que ficava sabendo de tudo primeiro.
— Renata — ela disse, mal conseguindo manter a voz baixa —, aposto que você não adivinha o que acabou de acontecer com aquele lixo.
— O quê, alguém enfiou uma bala nele a caminho do bar? — Eu me servi de uma taça de tinto.
— Não morreu. — Ela estava praticamente se deleitando. — Mas pior do que morrer. Ele levou aquela putinha pra comemorar, e no meio da ponte os Vipers encostaram de moto e abriram fogo. O carro dele foi direto no guard-rail—
Ela fez uma pausa, prolongando de propósito.
— Uma barra de aço atravessou o assoalho do carro. Ele sobreviveu — mas, Renata… o que importa é onde acertou. Informação de dentro do hospital, totalmente fora do registro: aquela parte dele foi esmagada além de conserto. Os médicos dizem que ele nunca mais vai conseguir gerar um filho. Não nesta vida.
A taça parou no meio do caminho até minha boca.
Algo subiu no meu peito que eu não consegui nomear, e eu quase ri alto.
Dario — que não calava a boca sobre a família precisar de um herdeiro, que me jogou pra fora por causa da barriga de outra mulher — tinha acabado de dar um fim na própria linhagem.
— E a Bianca?
— Essa tem nove vidas. Ela tinha descido antes e pegado um táxi, então o máximo que levou foi um arranhão. — Gemma fungou. — O pequeno “herdeiro” na barriga dela está muito bem.
Desliguei e fui até a janela. Lá fora, a cidade inteira estava iluminada.
Abaixei o olhar e toquei minha barriga de novo.
Dario queria um filho tanto que isso tinha tirado ele do eixo. Ele me expulsou, me arrancou os negócios — e o único filho que ele poderia chamar de seu estava aqui dentro de mim, e isso nunca, nem uma vez, ia passar pela cabeça dele.
Peguei o celular e respondi a mensagem para Gemma.
Amanhã. Hospital Maria.
