Capítulo 2
No dia seguinte, fui ao Hospital Maria, o particular que a família possuía.
Guardas armados se alinhavam no corredor do lado de fora do quarto de Dario. Quando viram que era eu, hesitaram — depois abriram passagem. Na família Marchetti, eu nunca tive menos peso do que Dario.
Empurrei a porta. Dario estava deitado, branco como um lençol, a metade de baixo enfaixada bem apertado. Bianca estava sentada ao lado da cama, os olhos vermelhos, segurando um copo d’água nos lábios dele como se o mundo inteiro tivesse feito alguma coisa contra ela.
No segundo em que me viu, o rosto dele escureceu, e algo tremeluzia no olhar — pânico. O tipo de pânico de quando alguém encosta num nervo exposto.
— O que você está fazendo aqui? Veio se gabar?
— Como sua ex-esposa, achei justo verificar se você já morreu. — Puxei uma cadeira, sentei e cruzei as pernas.
— Eu estou muito bem. — Ele cerrou os dentes, se agarrando ao que restava do orgulho. — O médico disse que, com alguns meses de repouso, vou ficar como novo.
Como novo. Metade dele lá embaixo tinha sido dilacerada por uma barra de aço e arrancada. Com o quê, exatamente? Ri comigo mesma, mas não fiz questão de corrigir.
Tirei da bolsa o resultado do exame daquela manhã e o coloquei com cuidado na mesinha ao lado da cama.
— Tem uma coisa que você precisa saber, Dario. — Encarei-o, a voz firme. — Eu também estou grávida. De sete semanas.
O quarto ficou em silêncio absoluto.
O copo tombou na mão de Bianca, e a água se derramou no cobertor. Ela encarou aquele papel, e as lágrimas nos olhos sumiram num instante — não sobrou nada além de veneno.
O rosto de Dario era uma cena à parte. Primeiro choque, depois dúvida e, por fim, os olhos dele foram sozinhos até a barriga de Bianca — e havia muita coisa acontecendo por trás daquele olhar.
A linhagem dele tinha acabado. Se o que eu acabara de dizer fosse verdade, a criança que eu carregava era a única do sangue dele que ele teria na vida.
Observei-o e lhe dei uma última brecha.
— Pense bem. Essa criança… você realmente não quer? — eu disse. — Me devolva o controle da Zona Sul, e eu considero manter a gravidez.
Era um teste, e a última chance que eu daria àqueles cinco anos juntos. Se ainda houvesse um fiapo de decência dentro dele, talvez eu tivesse encerrado tudo de outro jeito.
Dario olhou para mim e depois se virou para Bianca.
Ela agarrou a mão dele na mesma hora, com lágrimas surgindo na hora certa, caindo uma após a outra.
— Dario, você me prometeu. Nosso bebê é o único herdeiro da família… Ela está mentindo pra você. Ela só quer a Zona Sul de volta!
Dario puxou um longo fôlego. Eu vi o lampejo de hesitação nos olhos dele ser sufocado pelo cálculo.
Ele achava que o estrago era só abaixo da cintura. Enquanto tivesse o bebê na barriga de Bianca, o lugar dele na família estava garantido — e ele não ia ceder nem um centímetro da Zona Sul.
— Não brinque comigo, Renata. — Ele levantou a mão e apontou para a porta, deixando claro palavra por palavra. — Eu só quero o filho da Bianca. O que está em você… eu não quero. Se livre disso agora, e nem pense em usar isso pra vir atrás do meu dinheiro depois. Sai daqui.
Olhei para aquele rosto, egoísta até o osso.
O estranho é que eu não me senti decepcionada. Eu me senti mais leve.
Assenti, me levantei e rasguei o resultado do exame em pedacinhos bem na frente dele antes de jogar no lixo.
— Ótimo. Você mesmo disse — não venha chorar depois.
Eu não voltei para casa. Mandei o motorista me levar para o outro lado da cidade, a um médico do mercado negro em quem a família confiava.
As luzes da clínica eram de um branco agressivo. Deitei na maca, olhando para o teto, contando os azulejos um por um, ouvindo os instrumentos tilintarem na bandeja de metal.
Eu não fiz um som.
Quando acabou, a enfermeira me ajudou a sentar. Uma dor surda e arrastada vinha em ondas, baixa no meu ventre. Olhei para baixo — vazio agora — e as lágrimas vieram do nada, caindo no dorso da minha mão.
Eu as enxuguei.
Essa foi a minha escolha. Dario tinha dito na minha cara — não queria. Então era ali que a vida da criança terminava. E, com ela, a parte de mim que ainda amolecia por amor.
Me vesti e saí da clínica com uma mão apoiada na parede.
O carro de Gemma estava estacionado na frente. Ela se encostava na porta, sem o sorriso fácil de sempre. Quando me viu sair, veio até mim e me amparou.
— Entra. — Ela abriu a porta para mim, a voz suave pela primeira vez. — Eu te levo pra casa.
Rodamos um bom tempo antes que ela dissesse qualquer coisa.
— Aquele desgraçado — ela disse, os olhos fixos na estrada à frente. — Mais cedo ou mais tarde, vai ser ele que vai chorar.
Eu recostei no banco e fechei os olhos.
— Sem pressa — eu disse. — Ele vai continuar cavando o próprio buraco. Eu posso esperar.
