Capítulo 3

A melhor parte de um ano passou assim.

Sem aquele casamento me arrastando pra baixo, as coisas de fato ficaram mais calmas. De dia, eu cuidava das contas da família. À noite, ficava de olho nas rotas de contrabando lá pro norte. Ocupada, sim — mas o tipo de ocupação que combinava comigo.

Don Emilio confiava mais em mim a cada semana. Eu tinha fechado o acordo do fornecimento de armas europeu e desembaraçado algumas rotas de contrabando no norte que tinham dado ruim.

Então ele simplesmente me entregou a operação mais importante da família — toda a rede de lavagem de dinheiro. Nas reuniões, eu via o jeito como os veteranos olhavam pra mim começar a mudar.

Engraçado. Depois que me livrei do Dario, até a minha sorte pareceu virar.

Quanto ao Dario, ele passou aqueles meses virando a piada de todo mundo no ramo.

A história de que ele “não conseguia mais levantar” não ficava enterrada. Esse tipo de coisa — quanto mais armas um homem mantém ao redor, mais difícil é manter a boca de todo mundo fechada. Seguranças, médicos, enfermeiras: uma boca solta e pronto, a cidade inteira já sabia.

Os de cima já tinham ficado sabendo. E, em vez de se esconder, ele ficou mais espalhafatoso, como se desse pra abafar a vergonha aumentando o volume.

Ele apostou tudo o que tinha na barriga da Bianca.

Durante toda a gravidez, em toda consulta, ele jogava as fotos do ultrassom no grupo da família, com legendas cada vez mais melosas. “Meu garoto é parrudo — um dia vai ser o melhor atirador da família.” “Hoje encomendei o berço do herdeiro. Ouro maciço. Nada menos serve pra ele.”

Quando a foto dos dois no quarto do bebê, abraçados, apareceu na minha tela, uma risada escapou antes que eu conseguisse segurar. O desgraçado realmente estava empenhado no teatrinho.

“Fica pior.” Gemma chutou a porta, jogou uma pilha de pastas na minha mesa e se largou no sofá, jogando as pernas pra cima. “Adivinha o que ele foi lá e fez agora.”

“Não faço a menor ideia.” Servi um café pra ela também. “Só fala.”

“Ele passou o cassino mais lucrativo do South Side todinho pro nome da Bianca.” Gemma pegou o café e soprou, sem pressa. “E, como se não bastasse, ele torrou dez milhões numa propriedade lá em Long Island. A escritura? No nome dela. Só dela.”

Minha mão parou sobre o café. “Pagou à vista?”

“À vista.” Ela revirou os olhos. “Aquela barra de aço deve ter levado um pedaço do cérebro dele junto com o resto. Age como se um filho significasse que ele pode dormir tranquilo pra sempre. Tô te falando, ele anda por aí como se quisesse levantar aquele bebê acima da cabeça pra cidade inteira ver.”

Soltei uma risada seca. Dario não era burro — ele estava com medo. Um chefe que tivesse perdido o “equipamento” lá embaixo, sem um “herdeiro” pra sustentá-lo, seria engolido vivo pelos próprios soldados em pouco tempo.

Ele não estava sendo generoso. Estava comprando a própria vida com território.

“Deixa ele comprar.” Abri a pilha de pastas. “Quanto mais ele afundar nisso, mais alto vai ser o estrondo quando cair.”

Dentro havia um monte de registros de gastos e algumas fotos de vigilância. Em uma delas, Bianca — grande, grávida — estava do lado de fora de um motel afastado, presa num beijo com um homem coberto de tatuagens.

Eu olhei, puxei a foto e a estendi sobre a mesa. “Bom trabalho.”

“Óbvio.” Gemma ergueu uma sobrancelha, presunçosa. “Não tem sujeira nessa cidade que eu não consiga cavar. O nome dele é Vince — um chefete dos Vipers lá do West Side, pegou dois anos de cana. E aqui vai a parte que importa: antes de a Bianca se envolver com o Dario, ela era a mulher do Vince.”

Ela esticou um dedo e deu um toque na barriga da mulher na foto.

“Eu conferi as datas. Ela engravidou bem na época da primeira semana em que o Vince pagou fiança. E o Dario ainda tava por aí se gabando pra todo mundo de que ia virar papai.”

Fechei a pasta e bati de leve com um dedo na capa. Bianca era uma peça dos Vipers, carregando o filho de outro homem, que fisgara um Dario que por acaso agora era estéril — e que vinha com casas e território no pacote.

As peças estavam quase todas no lugar. Faltava uma.

“Fica em cima deles”, eu disse. “Principalmente nos dias perto do parto. Eu quero um teste de paternidade — quanto mais oficial, com o maior carimbo que você conseguir, melhor.”

Os olhos da Gemma brilharam, e ela se sentou ereta no sofá. “Você devia ter falado isso antes.” Ela virou o resto do café de uma vez e se levantou. “Esse tipo de trabalho? Deixa comigo.”

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo