Capítulo 2 2
Olívia
Então, assim que desci do coletivo, corri feito uma louca pelas ruas do bairro de classe média e entrei em casa pela porta dos fundos.
— Ah, graças a Deus! — Kim sibilou soltando o ar pela boca e se deixou cair sentada em uma cadeira da cozinha. Por sua vez, a porta da frente se abriu e os meus pais passaram por ela acompanhados do Edie, um amigo da família. — Corra para o banheiro e se livre dessas roupas, e dessa maquiagem! — Kim rosnou para mim um tanto apreensiva e eu saí de fininho para dentro de um corredor que me levaria para a escadaria.
— Oi, filha, onde está a sua irmã? — Escutei mamãe perguntar assim que alcancei o terceiro batente.
Contudo, não parei e fui direto para o nosso quarto. Me livrei das minhas roupas e tomei um banho rápido, voltando para o café da manhã logo em seguida.
— Olha ela aí! — Mamãe disse com uma estranha animação na voz. — Veja, Edie, ela não é linda? — Fitei rapidamente a minha irmã do outro lado da mesa, mas ela deu de ombros sutilmente.
— Sim, ela é realmente muito linda, Senhora Martin! — Um detalhe sobre Adele Martin, a minha mãe. Ela é a casamenteira aqui do bairro e já realizou mais de cinquenta casamentos. E eu só espero não ser a sua próxima vítima.
Quer dizer, Edie Durand é um dos rapazes mais lindos e cobiçado daqui e qualquer moça faria qualquer coisa apenas para se casar com ele, menos eu. A explicação é bem lógica.
A família Durand assim como a minha família são tradicionais demais para o meu gosto. Ou seja, na visão dos chefes dessas famílias as mulheres devem ter suas ocupações apenas com seus maridos, a casa e os filhos.
Portanto, trabalhar está fora de cogitação.
Eu definitivamente não quero isso para mim e foi por esse motivo que fiz um curso completo de secretariado e de línguas estrangeiras escondida do meu pai, a final, sonho em arrumar um emprego para ser independente. Na minha ideia original, assim que conseguir isso é levar a Kim para morar comigo.
— Querida, por que não serve uma xícara de café para o nosso visitante? — Mamãe pede com uma cordialidade singular e antes de obedecê-la solto uma respiração pela boca, forçando um sorriso para o rapaz.
Depois, a conversa inteira na mesa concentra-se apenas na minha pessoa. O quanto sou prendada, obediente, uma boa filha e sobre o homem de sorte que se casaria comigo. Viram o que eu disse?
Algumas horas depois...
— Escute, Olívia. — Edie diz assim que chegamos ao pequeno portão da minha casa. Ele segura as minhas mãos e beija as costas calidamente delas. Respiro fundo e penso em recolhê-las, mas ele continua. — Eu estive conversando com o seu pai mais cedo. Você já fez vinte e dois anos e já está na idade de se casar... — Puxo imediatamente as minhas mãos das suas e os seus olhos me fitam confusos. — Olívia, as nossas famílias são distintas, nós pensamos do mesmo jeito e...
Esse é o problema. Penso determinada a dar um basta nisso.
O Edie é realmente uma gracinha, mas eu não nasci para ser apenas uma dona de casa e a mãe de uma penca de filhos.
— Eu pedi permissão dos seus pais para namorar com você.
— Edie... eu sinto muito, mas eu... não estou preparada para namorar agora. Eu...
— Não se preocupe, eu sou um rapaz respeitador e não vamos namorar por muito tempo, porque quero me casar com você o quanto antes. — Meneio a cabeça fazendo um não para ele.
— Eu sinto muito, Edie, mas eu tenho outros planos para a minha vida agora! — disse de uma vez e não esperei pela sua resposta, simplesmente corri e entrei em casa, encontrando o sorriso satisfeito no rosto da minha mãe e um olhar repreensível no rosto do meu pai.
— Me conte tudo! — A empolgação na voz da minha irmã é palpável. Isso é aceitável já que a rigidez da nossa família não nos permite ir a festas e menos ainda a clubes ou danceterias.
— Minha nossa, Kim, o que você quer saber? — retruco achando graça da sua ansiedade e a fito deitada na sua cama de solteiro que fica ao lado da minha.
— Eu quero saber sobre tudo. Você sabe, as luzes, as músicas. Quero que me conte sobre o sabor das bebidas e sobre como é dançar com um homem. Ai Olívia, me conte! Não me esconda nada! — Termino de escovar os meus cabelos e vou imediatamente para a minha cama, para debaixo do cobertor, virando-me no colchão para ficar de frente para ela.
— A boate é exatamente como vimos nos filmes — falo e o seu sorriso se amplia. — Tinha toda aquela fumaça esbranquiçada, as luzes que corriam de um lado para o outro causando uma sensação esquisita na nossa cabeça. As minhas amigas optaram por beber cervejas e nossa, elas são horríveis! — Rimos do meu comentário. — Mas foi a bebida me deixou mais à vontade, então não reclamei.
— E o estranho, como ele era? — Puxo a respiração e me lembro dos olhos escuros sempre intensos e rígidos. Da sua boca que falava palavras firmes mescladas de meiguice e de compreensão, porém, elas eram envolventes demais. Do seu toque sempre possessivo na minha cintura na hora da dança e também nos momentos quentes naquele quarto. E até da maneira como ele respirava perto demais da minha pele.
— Ah, ele era lindo, realmente muito lindo! E era alto, tão alto que eu me sentia minúscula perto dele.
— E ele não te disse o nome? — Fiz não com a cabeça.
— Ninguém disse. Na verdade, eu não sabia nada sobre ele e nem ele sabia nada sobre mim.
— Você é maluca, sabia? — Rio.
Talvez eu seja mesmo. Penso.
Um leve giro no trinco nos faz apagar as luzes dos abajures e se deitar imediatamente, fingindo estar no décimo sono. Então a luz do corredor invade o nosso quarto e logo a porta se fecha outra vez.
