Capítulo 1 A Equação da Queda
A física é a única constante na qual confio cegamente.
No papel, tudo faz sentido. A conservação do momento angular dita que, se você puxar os braços para perto do eixo de rotação do seu corpo, sua inércia diminui e a sua velocidade angular aumenta. Na prática, no gelo, isso se traduz em um Axel triplo. É o som seco da lâmina rasgando a superfície congelada. É o vento frio cortando o rosto em sincronia com o giro.
Diferente das pessoas, os números não mentem. Eles não mudam de ideia, não fazem falsas promessas e, acima de tudo, os números não sofrem ataques de pânico humilhantes, travando o corpo inteiro no meio do Campeonato Nacional de Patinação.
Me posicionei para repetir o salto. Mais velocidade na entrada. Mais pressão na perna de apoio.
Gire. Trave o abdômen. Crave.
Aterrissei, a lâmina traseira cravando no gelo perfeitamente, e deslizei de costas pela pista. Eram seis da manhã de uma terça-feira. O único horário em que o rinque estava imerso em um silêncio absoluto, livre do olhar julgador dos meus treinadores e dos sussurros das outras patinadoras. Minha respiração formava pequenas nuvens brancas no ar gélido. Puxei o oxigênio para os pulmões, sentindo o suor esfriar na nuca, satisfeita pela primeira vez em semanas.
Então, o bipe estridente do meu celular ecoou pelas arquibancadas vazias, estilhaçando a minha paz.
Deslizei até a borda de acrílico e tirei uma das luvas com os dentes. A tela do aparelho brilhava com um e-mail direto da reitoria e do departamento de esportes.
Assunto: Notificação de Cancelamento — Auxílio-Moradia e Bolsa Atlética.
O arrepio que subiu pela minha espinha não tinha absolutamente nada a ver com o frio da arena. Meus olhos correram pelas linhas formais, a visão embaçando nas palavras-chave. Corte drástico de orçamento... ausência de resultados competitivos no último trimestre... liberação imediata do alojamento.
Meu estômago despencou. O ar de repente pareceu espesso demais para engolir. A familiar e aterrorizante sensação de sufocamento começou a fechar a minha garganta, o zumbido agudo do pânico tomando conta dos meus ouvidos.
Não, não, não. O acordo era outro. Eles prometeram que eu teria até as eliminatórias de inverno para provar que estava pronta para competir de novo. Se eu perdesse o apartamento do campus e o financiamento, teria que voltar para a casa da minha tia, a três estados de distância, para dormir em um sofá estreito. Minha carreira no gelo estaria morta. Meus estudos em Física, enterrados.
Arranquei os patins com mãos que não paravam de tremer. Joguei as lâminas de qualquer jeito na mochila, empurrei meus óculos contra a ponte do nariz e vesti o maior moletom que encontrei. A ansiedade era uma variável que eu ainda não sabia isolar ou controlar, mas eu não ia aceitar a ruína sem uma briga racional.
Quarenta minutos depois, eu marchava a passos pesados pelo linóleo encerado do Departamento de Esportes. Debaixo do braço, apertava meu tablet, carregado com planilhas de evolução física, gráficos de rendimento e uma defesa argumentativa à prova de balas. O Diretor Hoffman ia me escutar. Ele tinha que escutar.
Mas, quando virei o corredor e entrei na recepção da diretoria, toda a minha lógica colidiu violentamente com uma muralha de caos.
Gael Thorne.
Ele estava esparramado em uma das cadeiras de couro. Uma bolsa gigantesca de equipamento de hóquei estava largada no chão, bloqueando a passagem. As pernas longas e musculosas, vestidas num jeans escuro e puído nos joelhos, estavam abertas de um jeito preguiçoso e territorial. Como capitão do time e o garoto-problema oficial da universidade, Gael era a última pessoa na face da Terra com quem eu queria cruzar.
O rosto dele parecia ter sido usado como saco de pancadas. Havia um corte inchado e avermelhado no supercílio, o nó dos dedos da mão direita estava esfolado e sujo de sangue seco, e a camisa preta repuxava nos ombros largos a cada respiração pesada.
O vídeo dele destruindo a cara de um estudante de outra fraternidade em um bar na noite passada já estava em todos os grupos do campus. Gael Thorne era imprevisível. Violento. Descontrolado.
Quando seus olhos se voltaram para mim, a temperatura da sala pareceu subir instantaneamente. Ele me analisou devagar, da ponta dos meus tênis gastos, passando pelo moletom enorme, até parar nos meus óculos. Um sorriso torto e perigosamente cínico curvou os lábios dele.
— Perdeu alguma coisa na minha cara, Sininho? — a voz dele soou rouca, com um sotaque arrastado que parecia feito para testar a paciência alheia.
Endireitei a coluna, apertando o tablet contra o peito como se fosse uma armadura.
— Estava apenas calculando a probabilidade de você ter sofrido dano cerebral ontem à noite — respondi, mantendo o tom perfeitamente plano e gelado. — Mas, considerando que você não tinha muito cérebro para começo de conversa, a margem de erro da minha equação é inexistente.
Gael soltou uma risada baixa, o som reverberando no peito. Ele se inclinou para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos.
— Você é a garota da patinação artística, não é? A Rainha de Gelo. Mendes. — Ele estalou a língua de um jeito condenscendente. — Ouvi dizer que você não sabe brincar quando tem gente assistindo. Aquela cena de congelar e abrir o berreiro no meio da pista nas Nacionais do ano passado foi um espetáculo.
O golpe foi sujo e extremamente preciso. Minhas unhas cravaram na lateral do tablet com tanta força que a junta dos meus dedos ficou branca. Mas, se ele queria jogar baixo, eu ia expor a ferida aberta dele também.
— E você é o cara que compensa a falta de habilidade técnica arrumando brigas . — Dei um passo à frente, recusando-me a ser intimidada. — Se a sua técnica no gelo fosse tão boa quanto os seus socos impulsivos, talvez os olheiros da NHL parassem de rir nos jogos. Toda essa brutalidade é só uma fachada patética pra esconder que você mal consegue fazer uma curva fechada sem perder o equilíbrio, Thorne.
O sorriso irônico sumiu do rosto dele. A mandíbula de Gael travou, um músculo saltando na lateral do rosto. Bingo.
Ele se levantou devagar. Desenrolou o corpo da cadeira até atingir seu mais de um e noventa de altura, projetando uma sombra densa sobre mim. A diferença física entre nós era ridícula. Ele fechou a distância em dois passos, invadindo o meu espaço pessoal até o cheiro de sabonete barato, hortelã e suor invadir as minhas narinas. Tive que inclinar o pescoço para trás para encará-lo, mas não recuei um milímetro.
— Quer mesmo falar sobre equilíbrio, Mendes? — ele murmurou, a voz grave caindo de tom. Ele baixou o rosto, os olhos cravados nos meus. — Vamos ver quem desmorona primeiro.
Estava prestes a rebater quando o trinco da porta de carvalho girou brutalmente.
O Diretor Hoffman apareceu. O rosto do homem estava numa tonalidade perigosa de vermelho, a respiração pesada de fúria. Ele olhou de Gael para mim, deixando claro que éramos os responsáveis pelo iminente infarto dele.
— Mendes. Thorne — a voz do diretor ressoou como um tiro no corredor silencioso. — Entrem. Os dois. Agora.
