Capítulo 2 A Variável Imprevista

A sala do diretor cheirava a café queimado.

Ele estava sentado atrás da mesa de mogno, esfregando as têmporas como se tentasse arrancar uma enxaqueca do cérebro. Me mantive na cadeira, as costas retas, o tablet sobre os joelhos. Do outro lado da sala, esparramado no sofá como se estivesse na sala de casa, Gael parecia entediado. Ele girava um disco de hóquei entre os dedos machucados, o som do metal roçando contra a borracha.

— Vocês dois representam meu fracasso nesta temporada — Hoffman disparou. Ele apontou um dedo na direção de Gael. — Thorne. A diretoria da universidade e os patrocinadores estão exigindo a sua braçadeira de capitão. O vídeo de você desfigurando um estudante no estacionamento do The Blue Line bateu cem mil visualizações em três horas. Os olheiros do Chicago Blackhawks me ligaram de manhã querendo saber se o garoto que eles planejam recrutar no primeiro round do Draft tem algum controle ou se é um sociopata em treinamento.

Gael parou de girar o disco. A mandíbula dele travou, mas o tom continuou irritantemente calmo.

— Foi legítima defesa. O cara assediou uma garçonete e tentou jogar uma garrafa no nosso goleiro. E eu não desfigurei ninguém, Hoffman. O nariz dele já era torto.

— Eu não dou a mínima! — O diretor bateu com a mão na mesa, fazendo meu tablet tremer. — Sua imagem pública é um lixo no momento. Ou nós limpamos essa bagunça agora, ou você está suspenso pelo resto da temporada. O que significa adeus ao Draft.

A expressão de Gael finalmente vacilou. O pânico brilhou naqueles olhos escuros antes que ele fechasse a cara em uma máscara de indiferença.

Hoffman se virou para mim. O olhar dele era menos furioso, mas igualmente letal.

— E você, Mendes. Sem resultados nas pistas, sem financiamento. O departamento de esportes cortou o orçamento do alojamento para atletas que não trazem medalhas há mais de doze meses. Seu aviso de despejo entra em vigor em quarenta e oito horas.

Meu cérebro começou a trabalhar em velocidade máxima, tentando calcular uma rota de fuga.

— Tenho um plano — disparei, abrindo o tablet. — Os gráficos mostram que a minha taxa de acerto nos treinos subiu trinta por cento. Se o senhor analisar a planilha...

— Guarde a matemática, Mendes. Não lido com números, lido com resultados — Hoffman me interrompeu, abrindo uma pasta em cima da mesa. — O departamento de Relações Públicas passou a madrugada montando uma estratégia para salvar o pescoço de vocês dois. Uma simbiose perfeita.

— Uma o quê? — Gael grunhiu, franzindo a testa.

— Um namoro, Thorne — o diretor abriu um sorriso sem nenhum traço de humor. — A garota mais controlada e certinha do campus domando o capitão problemático do hóquei. Uma influência estabilizadora. A mídia adora o arquétipo do bad boy redimido pela garota boazinha. E a Mendes ganha o status de "namorada do Capitão", o que força os patrocinadores a manterem o rosto dela nas campanhas e, consequentemente, a bolsa de estudos ativa.

O silêncio que se seguiu foi denso o suficiente para ser cortado com uma lâmina de patins.

Gael foi o primeiro a explodir. 

— Você está de brincadeira comigo. Quer que eu finja namorar o robô da patinação artística? A garota que literalmente calcula o ângulo das coisas antes de andar?

— É estatisticamente inviável — declarei, a voz um pouco mais estridente do que gostaria. Meu peito subia e descia rápido. — A impulsividade dele vai destruir meu foco. E eu não vou segurar a mão de um troglodita em público para salvar a pele dele!

— Você vai se quiser continuar patinando, Mendes — retrucou Hoffman. — A universidade tem um apartamento premium vago no complexo dos atletas veteranos. Ele é pago pelos patrocinadores do time. Se vocês aceitarem a farsa, o apartamento é de vocês até o fim da temporada. Moradia de graça. Mas vocês precisam morar juntos. 

Morar com ele. Respirar o mesmo oxigênio que Gael. 

Minha mente processava as variáveis. Era o caos contra o fim da minha carreira…

Fechei os olhos por um segundo. A física me ensinou que, às vezes, você precisa aplicar uma força oposta e extrema para não ser esmagado pela gravidade...

— Eu aceito.

Gael girou a cabeça na minha direção, parecendo genuinamente chocado.

— Ficou maluca? — ele exclamou.

— Diferente de você, eu penso — rebati, encarando-o. — Mas eu só aceito sob os meus termos. Um contrato. Redigido por mim. Com cláusulas de comportamento, limites de contato físico em público e horários restritos para o uso de áreas comuns no apartamento.

Gael cruzou os braços enormes sobre o peito. Ele me olhou de cima a baixo, os olhos parando no meu maxilar tenso. Lentamente, um sorriso perverso desenhou-se no rosto machucado.

— Um contrato de namoro — ele repetiu, a voz arrastada, cheia de um escárnio sombrio. — Você é ainda mais maluca do que eu pensava, Sininho. Mas tudo bem. Eu assino a sua papelada inútil se isso me mantiver no jogo.

— Excelente — Hoffman suspirou. — Peguem as chaves com a secretária. Vocês se mudam hoje à tarde.

Às quatro, eu estava parada no corredor do último andar do prédio mais caro do campus, segurando uma caixa de papelão com os meus livros e arrastando uma mala preta.

Gael caminhava ao meu lado, carregando duas mochilas gigantescas de lona como se não pesassem absolutamente nada. Ele cheirava a couro e a um perfume amadeirado caro demais para um universitário. Nós não tínhamos trocado uma única palavra durante todo o percurso. A hostilidade entre nós era tão palpável que eu sentia o arrepio elétrico na pele toda vez que nossos braços acidentalmente se roçavam.

Parei diante da porta de madeira com o número 402 em metal dourado. Girei a chave e empurrei a maçaneta.

O apartamento era espetacular. Um loft moderno, com janelas do chão ao teto, piso de madeira polida, uma cozinha com ilha de mármore e uma sala de estar com uma TV do tamanho de um outdoor. Era o tipo de luxo que a universidade reservava apenas para os astros que rendiam milhões.

Soltei a respiração, um pequeno alívio afrouxando o nó no meu peito. Talvez, com espaço suficiente, a convivência fosse tolerável. Eu passaria os dias no laboratório e na pista, ele no hóquei, e só nos encontraríamos para as malditas fotos de paparazzi.

Deixei minha caixa no balcão da cozinha e caminhei em direção ao corredor no fundo da sala. Havia um banheiro enorme à esquerda. E, à direita, uma porta dupla.

Empurrei a porta do quarto.

Meu cérebro deu um curto-circuito. Toda lógica desmoronou no exato instante em que meus olhos registraram o ambiente.

O quarto era enorme. Mas havia apenas… Uma única cama king-size.

Senti o calor do corpo de Gael atrás de mim. Ele parou, olhando por cima do meu ombro. O peito dele encostou de leve no meu braço. 

— Bom — a voz rouca de Gael sussurrou bem perto do meu ouvido, enviando um arrepio até a base da minha nuca. — Adoraria ver onde o seu contrato imbecil prevê essa variável, namorada.

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