Capítulo 3 A Linha de Demarcação

A física quântica admite o princípio da incerteza, mas eu sempre me recusei a aplicá-lo na minha vida. Até agora.

A solução para o problema da cama foi resolvido com uma barreira arquitetônica de quatro travesseiros extramacios, milimetricamente alinhados no centro exato do colchão. Eu havia usado uma fita métrica para garantir que Gael não tivesse um centímetro a mais dos cinquenta por cento que lhe cabiam.

O problema é que uma barreira de algodão não bloqueava a radiação térmica…

Nas duas últimas noites, não preguei o olho. O calor que emanava do corpo de Gael — que, para o meu absoluto terror, dormia apenas de calça de moletom, sem camisa — atravessava o espaço entre nós como ondas de micro-ondas. Passei horas encarando o teto, ouvindo a respiração pesada e ritmada do garoto que deveria ser meu ingresso para a salvação, mas que parecia cada vez mais a causa da minha ruína.

Mas a insônia não era a minha maior preocupação hoje. O verdadeiro teste da nossa farsa estava prestes a começar.

— Regra número quatorze — li, em voz alta, ajeitando a postura no banco de couro do SUV que a universidade tinha alugado para nós. — Contato físico em frente às câmeras: mãos estritamente na linha da cintura. Duração máxima de cinco segundos. Qualquer contato acima dos ombros ou abaixo dos quadris está proibido. Beijos, apenas na bochecha ou no topo da cabeça. Entendido?

Gael estava jogado no banco oposto do carro. Ele usava um terno sob medida todo preto, sem gravata, e os primeiros botões da camisa social abertos. O corte no supercílio ainda estava lá, dando a ele um ar de mafioso de filme europeu que contrastava violentamente com a elegância da roupa.

Ele revirou os olhos, parecendo mortalmente entediado.

— Tenho cara de quem anda com um cronômetro no bolso, Mendes? — ele resmungou, ajustando o relógio de aço no pulso. — Relaxe. Eu não tenho o menor interesse em tocar em você por mais de cinco milissegundos. Só vou sorrir, acenar para os abutres da imprensa e provar que sou um garoto bom.

Engoli em seco, alisando o tecido do meu vestido. O departamento de Relações Públicas havia enviado a peça naquela tarde. Era um vestido de veludo azul-marinho, elegante, mas com um decote nas costas que descia um pouco além do que eu considerava seguro.

O carro desacelerou, parando em frente à escadaria do salão de eventos do The Grand Hotel, onde aconteceria o Baile de Inverno da Universidade, o maior evento de arrecadação dos doadores esportivos.

Através do vidro fumê, vi a multidão. Jornalistas, fotógrafos esportivos e alunos com celulares a postos. A notícia do escândalo de Gael ainda estava fresca, e o anúncio de que ele chegaria com uma "namorada surpresa" havia transformado o tapete vermelho em um circo.

— Pronta, Sininho? — a voz de Gael mudou, perdendo a preguiça e assumindo um tom mais focado, quase militar. O instinto de capitão do hóquei entrando em ação.

— Não — fui sincera, meus dedos apertando a pequena bolsa que segurava.

Gael bufou. O motorista abriu a porta do lado dele. Os flashes das câmeras estouraram imediatamente, iluminando o interior escuro do carro como relâmpagos. O som de perguntas gritadas invadiu meus ouvidos, uma cacofonia que fez meu peito apertar de ansiedade.

Ele saiu primeiro. Os jornalistas gritaram o nome dele, perguntando sobre o processo da briga e o Draft. Gael os ignorou com uma facilidade invejável. Ele abotoou o paletó com uma das mãos, o rosto moldado em uma máscara de confiança, e então se virou para a porta do carro, estendendo a mão para mim.

Encarei a palma grande e calejada dele por um segundo a mais do que deveria. Respirei fundo, forcei meu cérebro a visualizar uma equação de física simples para acalmar os batimentos cardíacos, e coloquei minha mão na dele.

A pele de Gael era áspera pelos anos segurando tacos de hóquei, mas extremamente quente. No instante em que meus dedos tocaram os dele, um choque estático visível estalou entre nós. Prendi a respiração.

Ele me puxou para fora com facilidade, como se eu não pesasse nada.

— Sorria, Mendes. O show começou — ele murmurou pelo canto da boca.

Os flashes se intensificaram ao ponto de me cegarem.

— Gael! Quem é a garota?

— Thorne, é verdade que você está sendo suspenso do time? 

— Olha pra cá, casal!

A multidão começou a empurrar as grades de contenção. Um fotógrafo mais agressivo furou o bloqueio, empurrando o equipamento quase no meu rosto. Recuei por reflexo, meu calcanhar vacilando no degrau.

Antes que eu pudesse calcular o meu centro de gravidade e impedir a queda, o braço de Gael disparou.

Ele não colocou a mão na minha cintura como mandava a Regra 14. A mão grande dele, quente e firme, foi direto para o meio das minhas costas expostas pelo decote do vestido, a pele dele queimando diretamente contra a minha. Com um movimento rápido, ele me puxou para o lado dele. Meu quadril bateu contra o dele. A solidez do corpo de Gael era como uma parede de concreto armado.

O cronômetro na minha cabeça começou a rodar.

Um... Dois…

O fotógrafo recuou sob o olhar assassino que Gael lançou para ele.

Três... Quatro…

Gael não me soltou. Em vez disso, os dedos dele deslizaram milímetros para baixo, na curva final da minha coluna, apertando minha pele e enviando um calafrio líquido e quente direto para a base do meu estômago. Minha respiração travou. Toda a lógica se desintegrou.

— Tudo bem aí? — uma repórter sorriu, estendendo um microfone. — Gael, você parece ter encontrado um motivo para se acalmar fora do gelo. Há quanto tempo estão juntos?

Cinco... Seis... Sete. A regra estava morta.

Gael olhou para baixo, diretamente para mim. Os olhos escuros, que em casa só transmitiam escárnio, agora brilhavam com uma intensidade perigosa, fabricada perfeitamente para as câmeras. Ele levantou a mão livre, afastando uma mecha do meu cabelo para trás da minha orelha. Os nós dos dedos dele roçaram no meu maxilar.

— Há tempo suficiente para eu perceber que sou um cara de sorte — Gael respondeu para a repórter, mas a voz grave e rouca estava direcionada apenas para mim.

Ele abaixou o rosto. O cheiro de menta e perigo me envolveu. Meus olhos se arregalaram levemente quando ele quebrou a segunda regra, pressionando os lábios quentes e macios contra a pele sensível logo abaixo da minha orelha, e não no topo da cabeça.

As câmeras enlouqueceram ao nosso redor. O mundo era puro barulho.

Mas tudo o que eu ouvi foi o que ele sussurrou contra o meu pescoço, em um tom que só eu seria capaz de captar.

— Você está tremendo, garotinha — a respiração dele bateu na minha pele, derretendo qualquer barreira que eu havia construído. — Sua planilha não tem uma fórmula pra isso, não é?

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