Capítulo 4 A Regra do Atrito

Risquei a mesma equação no caderno três vezes. O grafite manchou o papel, formando um borrão cinza inútil.

Fazia setenta e duas horas desde o baile beneficente e a coletiva de imprensa na escadaria do hotel. Setenta e duas horas, e a sensação da respiração de Gael Thorne contra o meu pescoço ainda parecia grudada na minha pele. Isso era completamente irracional. Eu estava perdendo tempo precioso de estudo tentando ignorar uma resposta fisiológica básica ao calor humano.

Ergui a cabeça e encarei a geladeira de inox do nosso apartamento. Presa sob um ímã, estava a página três do meu contrato de convivência. A regra número quatro estava grifada em amarelo neon: É terminantemente proibida a circulação nas áreas comuns em trajes íntimos, toalhas de banho ou sem camisa.

O som da porta da frente sendo destrancada me fez endireitar a coluna no banco da ilha da cozinha.

Gael passou pelo hall de entrada e jogou a bolsa gigantesca de equipamento de hóquei no chão de qualquer jeito. Ele tinha acabado de voltar do treino matinal. E, pelo visto, a regra número quatro continuava sendo tratada como uma sugestão irrelevante.

Ele usava apenas uma calça de moletom cinza, frouxa o suficiente para desafiar as leis da gravidade nos quadris. O peitoral largo e o abdômen estavam cobertos por uma camada fina de suor. O cabelo escuro estava úmido, grudado na testa, e o hematoma perto do olho já começava a ganhar um tom amarelado. Ele ocupava o espaço de forma agressiva, sem pedir licença.

Gael caminhou direto para a geladeira, ignorando completamente a minha existência. Ele puxou uma jarra de água gelada e virou direto na boca.

— O conceito de copo ainda não chegou ao vestiário do hóquei? — perguntei, o tom seco, forçando meus olhos a voltarem para o caderno de física.

Ele abaixou a jarra, limpando o canto da boca com as costas da mão calejada.

— O conceito de não encher a porra do meu saco às dez da manhã ainda não chegou no seu laboratório, Jade? — ele rebateu, a voz rascante.

Ele encostou o quadril na bancada, exatamente na minha frente. O cheiro de gelo raspado, suor e sabonete invadiu o espaço. Tentei não focar na gota de água que escorreu do pescoço dele, contornando a clavícula antes de sumir na linha da calça.

Bati a ponta da caneta na ilha de mármore.

— Regra número quatro, Thorne. Vista uma camisa. Esse ambiente é compartilhado.

Um sorriso torto, carregado de arrogância e malícia, repuxou o canto da boca dele. Ele não se afastou. Pelo contrário, apoiou os dois cotovelos na bancada e se inclinou na minha direção, invadindo meu campo de visão até que eu fosse obrigada a levantar os olhos.

— Sabe o que é engraçado? — ele murmurou, a voz caindo para um registro mais baixo. — Você diz que me odeia. Você passa horas redigindo essas regras imbecis e age como se eu fosse um parasita. Mas desde que eu entrei por aquela porta, você leu a mesma linha desse livro quatro vezes e não virou a página.

Minha mão travou ao redor da caneta.

— Você está bloqueando a luz — menti.

Gael soltou uma risada nasalada.

— O seu problema não é a falta de tecido, Jade. É o fato de que, por mais que a sua mente de robô tente negar, o seu corpo não consegue parar de reagir ao meu. Você sentiu isso no carro, sentiu no tapete vermelho, e está sentindo agora.

Abri a boca para triturar o ego dele com dados estatísticos sobre ilusões de grandeza, mas o som agudo e insistente da campainha rasgou o ar.

O sorriso de Gael sumiu. Ele franziu a testa, a postura mudando imediatamente do flerte zombeteiro para algo defensivo. O endereço do apartamento era confidencial…

— Espera aí — ele disse, a voz dura, fazendo menção de ir até lá.

— Eu atendo — cortei, deslizando do banco rápido demais, desesperada por uma desculpa para fugir daquela proximidade sufocante.

Caminhei até o hall, ajeitando meu moletom, e girei a maçaneta sem olhar pelo olho mágico.

A porta se abriu, e o ar fugiu dos meus pulmões em um golpe seco.

Julian Carter estava parado no tapete do corredor.

O cabelo loiro estava perfeitamente alinhado, o suéter de caxemira azul não tinha um único amassado. Ele cheirava a perfume caro e a expectativas. Era o rosto do garoto que eu amei por dois anos. O parceiro de rinque que soltou a minha mão diante de milhares de pessoas quando eu tive meu ataque de pânico nas Nacionais, anunciando para a mídia que eu era uma "bagagem emocional pesada demais para carregar".

— Oi, Jade — Julian disse, a voz macia, acompanhada por aquele sorriso condescendente que costumava me fazer duvidar da minha própria sanidade. Seus olhos me avaliaram, parando nas mangas esgarçadas do meu moletom. — Eu vi as fotos do jornal ontem. Preciso confessar que não acreditei no início. Vim ver pessoalmente o nível de desespero que você atingiu para manter a bolsa na universidade. Namorando o delinquente do campus? Sério?

Minha garganta fechou. A velha ansiedade gelada começou a rastejar pela minha espinha. Tentei formular uma frase cortante, tentei dizer a ele para ir embora, mas o passado sempre parecia me paralisar.

Antes que eu pudesse dar um passo para trás ou tentar fechar a porta, a atmosfera ao meu redor mudou de forma violenta.

Senti o calor antes mesmo do toque. O corpo de Gael apareceu como um eclipse nas minhas costas. Uma mão grande, quente e pesada pousou no meu ombro, os dedos cravando possessivamente através do tecido do meu moletom. A simples presença dele bloqueou toda a luz do corredor.

— O que você quer, almofadinha? — a voz de Gael soou logo acima da minha cabeça.

Não era o tom preguiçoso de antes. Era um rosnado animal, baixo e carregado de fúria.

Julian empalideceu no mesmo instante, dando um pequeno passo vacilante para trás ao se deparar com um metro e noventa de puro músculo e raiva direcionados exclusivamente a ele.

— Eu... eu só estava conversando com a Jade — Julian gaguejou, a máscara de arrogância rachando imediatamente.

A mão de Gael escorregou do meu ombro, deslizando para a curva do meu pescoço de forma territorial. A pele dele queimava contra a minha.

— Você tem exatamente três segundos para dar meia-volta e sumir da minha porta antes que eu arranque os dentes que você usa pra dar esse sorriso patético — Gael sussurrou, a ameaça afiada como uma lâmina de patins. — Um. Dois...

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