Capítulo 5 O Ponto de Combustão
Julian não esperou pelo "três".
O pânico foi instantâneo. Meu ex-parceiro tropeçou nos próprios pés, virou as costas e marchou em direção ao elevador com uma pressa que beirava o desespero. O suéter de caxemira pareceu encolher nele enquanto fugia do capitão do hóquei.
Gael não deu tempo para que a figura de Julian sumisse no corredor. Com um movimento brusco e impaciente da mão livre, ele bateu a pesada porta de carvalho. O estrondo reverberou pelas paredes do apartamento, soando como um tiro no silêncio que se seguiu.
O trinco travou. Estávamos trancados. Sozinhos.
A mão de Gael ainda estava no meu pescoço. O polegar dele descansava exatamente sobre a minha veia jugular, onde meu pulso batia em um ritmo tão frenético que parecia prestes a rasgar a pele. O calor que emanava do corpo imenso e seminu dele atrás de mim era quase asfixiante.
Dei um passo brusco para a frente, rompendo o contato, e girei nos calcanhares para encará-lo. Eu precisava de espaço. Precisava de oxigênio. Meu cérebro lutava para encontrar uma âncora lógica em meio ao caos químico que inundava minha corrente sanguínea.
— Você perdeu o juízo? — minha voz saiu trêmula, o que me irritou profundamente. Cruzei os braços sobre o moletom, tentando erguer um escudo invisível. — Regra número seis, Gael! Nenhuma demonstração de hostilidade pública. A imprensa já está farejando a nossa porta. Você quer dar a eles a manchete de que espancou a ex-estrela da patinação artística?
Gael continuou plantado na frente da porta. O peito largo dele subia e descia no ritmo de respirações pesadas. O olhar escuro, que momentos antes era focado em Julian, agora estava cravado em mim, queimando com uma intensidade indecifrável.
— Era ele — Gael disse. A voz soou baixa, um rosnado gutural que fez os pelos da minha nuca se arrepiarem. Ele não estava perguntando. — O desgraçado que soltou a sua mão nas Nacionais. Que foi pra mídia dizer que você era um problema.
Minhas unhas cravaram nos meus braços.
— Isso é irrelevante. É só… passado.
— Irrelevante? — Gael deu um passo na minha direção. Toda a preguiça arrogante dele havia evaporado. Agora, ele tinha um ar de predador que acabou de encurralar a presa. — Aquele almofadinha vem até a minha porta, tenta te olhar de cima a baixo como se você fosse lixo reciclável, e você me diz que é irrelevante?
— Nós estamos fingindo, Thorne! — rebati, elevando o tom de voz, dando um passo para trás até a minha cintura bater contra a quina do aparador do corredor. — Você não precisa interpretar o namorado furioso quando não tem nenhuma câmera ligada. Você não precisa me proteger de nada. Eu sei cuidar de mim mesma!
Gael soltou uma risada ríspida, sem o menor traço de humor.
— Cuidar de si mesma — ele repetiu com escárnio, dando mais dois passos largos e apagando completamente a distância entre nós.
Ele invadiu o meu espaço pessoal. Tive que inclinar o pescoço para trás para não desviar o olhar. O cheiro de adrenalina e suor dele dominou meus sentidos, apagando o resto do mundo. Gael ergueu as mãos e as espalmou no aparador, uma de cada lado dos meus quadris, prendendo-me em uma gaiola intransponível de músculos e calor.
— Você tremeu, Jade — ele murmurou, abaixando o rosto até nossos narizes quase se tocarem. A raiva no olhar dele começou a se fundir com algo muito mais escuro e perigoso. — No segundo em que ele abriu a boca, você recuou. E se você acha que eu vou ficar parado enquanto um merda daquele te diminui debaixo do meu teto, a sua lógica está mais fodida do que eu pensava.
— O contrato… — tentei balbuciar, minha respiração falhando quando o olhar dele desceu da minha linha dos olhos direto para a minha boca.
— Foda-se o contrato. Foda-se o Diretor Hoffman — Gael sussurrou, a respiração quente batendo nos meus lábios.
Meu coração errou uma batida. A física ensina que o ponto de combustão é a temperatura exata na qual uma substância inflama. E eu estava queimando.
— O que você está fazendo? — minha voz não passou de um fio.
— Te provando que não tem câmera nenhuma gravando agora — ele respondeu. — E que, ainda sim, é isso que você quer.
E então, ele acabou com o espaço entre nós.
A boca de Gael colidiu com a minha, faminta e implacável. O impacto me empurrou contra o móvel. Um suspiro surpreso escapou da minha garganta, e foi a única brecha que ele precisou. A língua dele invadiu a minha boca, quente, possessiva e exigente, tomando o controle de forma absoluta.
Minhas mãos, que deveriam tê-lo empurrado para longe, traíram anos de disciplina. Elas subiram por conta própria, espalmando-se contra o peitoral nu e suado dele, sentindo a vibração do gemido rouco que ele soltou contra os meus lábios.
Gael não me beijava como se fosse um contrato de namoro falso. Ele me beijava como se quisesse me devorar, apagar a existência de qualquer outra pessoa que já tivesse me tocado.
Uma das mãos enormes dele soltou a borda do móvel e agarrou o tecido do meu moletom, puxando-o para cima com violência. Seus dedos calejados e ásperos encontraram a pele nua e sensível da minha cintura. O contraste do calor dele contra o frio da minha pele me fez arquear as costas, colando nossos corpos. O quadril duro e inegavelmente excitado dele pressionou contra o meu. Pelos céus… ele estava duro.
— Eu avisei que você não ia conseguir manter as suas regras imbecis — Gael rosnou contra a minha boca, os lábios descendo pelo meu maxilar, mordiscando a pele do meu pescoço enquanto a mão dele subia pela minha costela, roçando de propósito na base do meu sutiã.
Minhas unhas arranharam os ombros largos dele. Meu controle havia evaporado. Eu não era mais a Rainha de Gelo. Eu era pura combustão nas mãos do caos.
Sem pensar muito, Gael puxou a barra do meu moletom por cima da minha cabeça e o jogou em algum lugar no chão ao nosso lado.
— O quarto — ofeguei, os olhos cravados nos dele, que agora estavam cheios de desejo e completamente dilacerados pela luxúria.
Gael não esperou eu pedir duas vezes. Ele agarrou a parte de trás das minhas coxas, me erguendo do chão em um movimento rápido e me prensando contra o peito dele enquanto marchava na direção da nossa única cama.
