Capítulo 2
Assim que Dylan saiu, seu assistente pessoal, Ethan, entrou carregando um comprimido.
Ele o colocou sobre a mesa de cabeceira e falou em um tom respeitoso: “Srta. Campbell, por favor.”
Outro anticoncepcional.
Dylan não se apaixonava, e certamente não acabaria com um filho.
Ethan precisava vê-la engolir o comprimido todas as vezes antes de poder considerar seu dever cumprido.
Aurora encarou o comprimido branco, e seu peito se apertou de repente.
Ela não sabia se era seu coração finalmente falhando de vez ou se tinham sido as atitudes de Dylan que a atravessavam como uma faca.
De qualquer forma, a dor a deixou sem ar e com a cabeça zunindo. Ela não queria nada mais do que agarrar o comprimido e esmagá-lo na cara fria daquele homem.
Mas sua mão só se ergueu levemente antes de cair mole outra vez.
Doía. Doía demais. Até respirar parecia engolir uma faca, de dentro para fora.
“Srta. Campbell…” Ethan falou imediatamente ao ver que ela não reagia, com medo de que ela se recusasse a tomar o comprimido.
Aurora lançou um olhar para o remédio. Antes que Ethan pudesse insistir de novo, ela o pegou e o engoliu sem água. Ele arranhou sua garganta ao descer, mas ela nem sequer franziu a testa.
Ethan soltou o ar, aliviado, virou-se e tirou cuidadosamente duas coisas de sua pasta, colocando-as diante dela: a escritura de um imóvel e um cheque fino com uma quantia astronômica.
O ar pareceu congelar por alguns segundos.
Em voz baixa, Ethan disse: “O Sr. Ramirez instruiu que a casa fosse passada para você. Este cheque deve ser suficiente para o seu sustento no futuro.”
O olhar de Aurora percorreu os dois itens à sua frente, e ela de repente soltou uma risada fraca.
Como ele era generoso.
Pena que o que ela queria nunca tinha sido dinheiro.
Ela ergueu os olhos para Ethan, com os cantos dos lábios ligeiramente curvados. “Eu não quero nada disso.”
Ethan ficou imóvel, hesitando antes de perguntar: “Você acha que não é suficiente?”
Aquelas palavras perfuraram o coração de Aurora como uma agulha. Até o assistente de Dylan, que trabalhava com ele havia anos, presumia que ela estava atrás de dinheiro.
E o próprio Dylan, então?
Ele lhe oferecera uma indenização exorbitante, provavelmente não como compensação, mas por medo de que ela viesse importuná-lo no futuro.
Aurora repuxou os lábios num sorriso amargo. Pegou a bolsa, tirou um cartão de crédito preto e o bateu ao lado da escritura com um estalo seco.
“Aqui. Devolva isso para ele”, disse ela, com a voz tremendo levemente, mas o tom firme. “Nestes cinco anos, eu não toquei em um único centavo da conta dele.”
Os olhos de Ethan se arregalaram. “Você… você não usou?”
Cinco anos. Quem conseguiria resistir a tocar no dinheiro dele vivendo com Dylan?
Aurora não deu mais explicações e tampouco se importou em saber se ele acreditava nela. Lançou um último olhar para o cartão preto, símbolo da farsa de cinco anos que vivera, então se virou e foi embora.
Seus saltos altos bateram no piso de mármore polido do Havenwood Grand Hotel, produzindo um eco nítido e decidido. Ela manteve as costas eretas e não olhou para trás nem uma vez.
Quando atravessou as portas giratórias, o vento frio entrou de repente.
Só então ela afrouxou os punhos cerrados, que traziam marcas profundas e ensanguentadas de suas unhas.
Agora estamos quites.
Os invernos em Nova York eram frios.
Aurora caminhou pela rua.
Sua silhueta esguia projetada no chão parecia incrivelmente frágil.
Ela apertou mais o casaco branco-acinzentado contra o corpo, rangeu os dentes e voltou de salto alto para seu apartamento.
A porta se abriu, revelando um espaço amplo, vazio e de planta aberta.
Aquele luxo frio parecia uma câmara de gelo meticulosamente esculpida. Parada à entrada, Aurora de repente sentiu falta de ar. Tudo ali a lembrava de que Dylan nunca pertencera a ela.
Ela foi até o sofá devagar, sentou-se e percebeu que as palmas das mãos estavam encharcadas de suor frio. O que deveria fazer agora? Não sabia. A mente ficou em branco, deixando apenas uma dor surda no coração.
É hora de ir.
As pernas fraquejaram quando ela se levantou. Abriu o guarda-roupa, e os dedos roçaram nos vestidos caros, todos presentes dele. Puxou a mão de volta como se tivesse se queimado e pegou apenas as poucas roupas velhas e gastas que estavam num canto.
Arrumou a mala lentamente, parando de vez em quando para ficar olhando para o nada. A cada peça que guardava, parecia que um pedaço do coração era arrancado.
Quando enfiou a última roupa na mala, o zíper enroscou.
Ela puxou várias vezes, mas não cedia. De repente, desabou. As lágrimas brotaram sem aviso e caíram em gotas grandes e pesadas no chão frio. Ela mordeu o dorso da mão, com medo de fazer qualquer som, mas os ombros sacudiam com violência.
Por fim, estendeu a mão até as chaves. Quando o metal frio tocou sua palma, ela ficou parada por um longo instante. Então afrouxou a mão devagar, deixando-as escorregar por entre os dedos e cair no piso de mármore com um estalido seco e oco.
Ao puxar a mala até a porta, olhou para trás.
Aquele lugar, que ela achou que seria seu lar, nunca tinha sido.
As portas do elevador se fecharam lentamente, a superfície espelhada refletindo seu rosto pálido. Ela se encostou na parede e escorregou até se sentar, enterrando o rosto nos joelhos.
Assim que entrou no carro, enviou uma mensagem para Ethan:
Sr. Wood, o código do Imperial Splendor Apartments é 0826.
A mensagem chegou, e Ethan olhou para ela, franzindo a testa na hora.
Os dedos dele pairaram sobre a tela.
De repente, um lampejo daquela noite chuvosa de cinco anos atrás atravessou a mente de Ethan — a garota, encharcada até os ossos, ajoelhada diante de Dylan; gotículas de água presas aos cílios; a voz tremendo incontrolavelmente.
— Um milhão... para me comprar por uma noite. Tudo bem?
Naquela época, os olhos dela estavam cheios de desespero — um contraste gritante com a forma como ela parecia agora.
Ethan praticamente correu de volta para a empresa. Invadiu o escritório do CEO e colocou sobre a mesa de Dylan a escritura do imóvel e o cartão preto, intactos.
— Ela não levou nada — disse Ethan, com urgência. — Devolveu o cartão. Disse que não gastou um centavo do seu dinheiro.
Dylan ergueu os olhos dos papéis, primeiro fixando-os na escritura e depois deslocando o olhar, devagar, para o cartão preto.
Seus olhos amendoados, normalmente indiferentes, se estreitaram ligeiramente.
— Tem um milhão a mais no cartão? — perguntou, a voz mais baixa do que de costume.
Ethan assentiu de imediato. — Eu conferi — com certeza tem um milhão a mais. — Fez uma pausa e acrescentou, hesitante: — Parece que a senhorita Campbell devolveu.
Dylan sabia exatamente o que aquilo significava — aquela noite chuvosa de cinco anos atrás, quando ela tinha se ajoelhado e implorado para que ele a comprasse.
O escritório caiu num silêncio repentino.
Dylan encarou o cartão, o rosto impassível, mas o maxilar travado com força. Alguns segundos depois, ele estendeu a mão de súbito e prendeu o cartão preto rígido entre os dedos.
Com um estalo seco e decisivo, metal e plástico se partiram entre seus dedos.
Ele jogou o cartão quebrado de volta sobre a mesa e empurrou para a frente a pilha grossa de escrituras. A voz estava gelada.
— Dê um fim nisso.
Os lábios de Ethan se contraíram. Ele queria dizer que Aurora não teve uma vida fácil nesses cinco anos e que talvez não fosse quem eles achavam que era.
Mas, quando levantou os olhos, viu que Dylan já tinha voltado o olhar para a tela do computador. O perfil dele era duro e frio, deixando claro que se recusava a discutir o assunto.
As palavras que estavam na ponta da língua morreram ali.
Ethan pegou a pilha de papéis valiosos e saiu do escritório em silêncio.
