Capítulo 3
Aurora chegou à casa da amiga, Riley Walker, puxando a mala atrás de si.
Ela ergueu a mão e bateu de leve na porta. Depois se afastou um passo e esperou em silêncio.
Riley abriu a porta rapidamente. Quando viu quem era, os cantos da boca se ergueram num sorriso caloroso e radiante. “Aurora, o que traz você aqui?”
Riley espiou para fora e viu Aurora parada na penumbra do corredor, puxando a mala. Ela ficou paralisada por um instante, então escancarou a porta.
“Meu Deus!” Riley puxou Aurora para dentro, os olhos indo direto para a mala ainda suspensa no ar. “Ele realmente...”
Aurora assentiu de leve.
As duas mulheres tinham vivido juntas sobre um colchão velho no orfanato por mais de uma década. Cinco anos atrás, quando o sedã preto chegou para levar Aurora embora, Riley se apoiou na janela e disse: “Lembre-se, sempre vai haver um lugar no sofá esperando por você aqui.”
Foram essas palavras que permitiram que Aurora saísse hoje do apartamento de luxo sem olhar para trás.
Riley não fez nenhuma pergunta. Virou-se, tirou um cobertor extra do armário e depois abriu a geladeira, pegando duas latas de refrigerante.
Ela pressionou uma lata nas mãos geladas de Aurora. A lata fez um som suave ao ser aberta.
“Riley”, Aurora disse de repente, com a voz rouca, “eu estou sendo estúpida?”
Riley se sentou ao lado dela, o ombro roçando de leve no de Aurora.
“Não”, disse ela, olhando para as luzes de Nova York que nunca dormiam. “Você só levou aquele idiota a sério demais.”
Aurora apertou a lata de refrigerante com força, e o alumínio gelado foi, aos poucos, ganhando a temperatura do seu corpo.
Naquele apartamento velho, com cheiro de desinfetante, ela finalmente deixou os ombros caírem.
Riley olhou para Aurora, que forçava um sorriso.
Seu rosto estava abatido, com os olhos fundos e a pele pálida.
Ao vê-la daquele jeito, Riley sentiu de repente uma pontada profunda de tristeza.
Ela abraçou Aurora com força. “Não fica triste. Você tem a mim.”
Ao ouvir aquelas palavras, Aurora não conseguiu impedir que seus olhos se enchessem de lágrimas.
Ela retribuiu o abraço e deu leves tapinhas nas costas de Riley. “Eu estou bem. Não se preocupe.”
Riley observou sua melhor amiga, sabendo melhor do que ninguém que seu consolo, naquele momento, era apenas um curativo sobre uma ferida já encharcada de sangue.
Ninguém entendia melhor do que Riley o quanto Aurora havia se sacrificado ao longo dos anos.
Durante o dia, trabalhava como garçonete em um café, com as pontas dos dedos calejadas de carregar bandejas. Tarde da noite, ficava acordada editando rascunhos de design no computador até os olhos ficarem vermelhos de cansaço. Nos fins de semana, permanecia sob o sol escaldante no shopping distribuindo panfletos.
Por cinco anos, Aurora nunca parou, movida inteiramente por aquele homem impossível.
“Quando eu quitar aquele milhão”, Aurora lhe dissera certa vez, tarde da noite, com os olhos brilhando tanto que doía ver, “talvez ele não pense... que eu não sou diferente de qualquer outra pessoa.”
Na época, Riley não respondeu. Ela não suportava destruir aquela bela ilusão. Quando alguém já colocou um rótulo em você dentro do coração, mesmo que você arranque esse rótulo, o resíduo da cola vai permanecer para sempre.
Agora, os pensamentos de Riley voltaram àquela noite tempestuosa de cinco anos atrás. A chuva caía sem parar, encharcando a cidade inteira.
Se Aurora não tivesse se vendido a Lawrence Bryant naquele dia, empurrando as pesadas portas giratórias daquele hotel de luxo e esbarrando em Dylan, que acabara de sair de um jantar de negócios, naquele corredor pouco iluminado, então talvez ela tivesse simplesmente voltado da exposição de formatura da faculdade comunitária de artes. Estaria se preparando para seu primeiro emprego oficial como designer em seu apartamento alugado, pequeno, mas aconchegante.
Nos fins de semana, sairia para caminhar no Central Park com os amigos, procuraria tecidos vintage nos mercados de pulgas do Brooklyn e, de vez em quando, passaria uma tarde tranquila desenhando em um banco de igreja.
A garganta de Riley se apertou. Ela estendeu a mão e envolveu a mão gelada de Aurora com a sua, esfregando-a com firmeza.
“Escuta”, disse, olhando diretamente para os olhos vermelhos e inchados da amiga. “Você se lembra do padre daquela igreja antiga ao lado do orfanato? Ele sempre dizia que Deus tem um caminho diferente para cada pessoa. Alguns caminhos são especialmente difíceis, não porque você não seja digna, mas porque, quando chegar ao fim, vai ser mais forte do que qualquer outra pessoa.”
Do lado de fora da janela, as luzes de Nova York brilhavam noite adentro. Naquele apartamento um pouco apertado, duas garotas que um dia tinham dependido uma da outra para sobreviver dividiam um refrigerante.
Riley sabia que a cura levava tempo.
Mas acreditava com ainda mais firmeza que a garota que um dia havia caminhado para o desconhecido debaixo de um temporal por alguém que amava possuía uma resiliência profunda que nem ela mesma percebia ter.
A estação das chuvas vai passar, e o sol sempre vai voltar a brilhar.
Enquanto você continuar vivendo, não haverá obstáculo que não possa superar.
Riley se virou para pegar um conjunto limpo de pijama e o entregou a Aurora. “Vai se trocar primeiro. Eu vou fazer alguma coisa gostosa pra você comer, e depois você pode dormir bem. Não fique pensando em mais nada, tá?”
Aurora pegou o pijama e assentiu obedientemente.
Riley ficou na ponta dos pés sob a luz amarela e fraca da cozinha para alcançar a aveia na prateleira mais alta do armário.
Ela fazia aquilo havia cinco anos, sabendo que Aurora tinha o estômago sensível e precisava de algo leve pela manhã.
Encolhida no sofá, Aurora observava a silhueta de Riley, enquanto uma dor aguda crescia em seu peito.
Seu coração parecia uma bomba falhando aos poucos — cada batida mais difícil e mais fraca que a anterior.
Três semanas antes, o médico tirou os óculos e falou com calma, como se estivesse lendo a previsão do tempo: “Senhorita Campbell, receio ter más notícias. Seu coração está perdendo as últimas funções. Se você não quiser passar seus últimos dias na UTI, sugiro que termine de fazer as coisas que deseja fazer.”
A primeira coisa que lhe veio à mente não foi ver a aurora boreal na Islândia nem andar de gôndola em Veneza. Foi voltar para o pequeno apartamento de oitocentos dólares por mês, com o sofá cujas molas estavam começando a ceder, para tomar uma última xícara de chocolate quente de Riley.
“Aurora”, chamou Riley, virando a cabeça e segurando duas canecas. “Quer marshmallows? Comprei ontem.”
O sorriso dela era tão puro que partiu o coração de Aurora.
Aurora assentiu com força, sentindo a garganta apertar.
Quando tinham cinco anos, dividiram às escondidas um biscoito guardado na cama dura do Lar Infantil St. Mary. Quando tinham quinze, ficaram encolhidas juntas na lavanderia comunitária, esperando as roupas secarem. Riley colocou seu casaco grosso sobre os ombros de Aurora. Agora, aos vinte e cinco, aquela garota boba esperava para decidir se colocaria ou não marshmallows no chocolate quente.
Riley era o presente mais generoso da vida de Aurora, um raio de luz atravessando toda a escuridão.
Mas ela estava prestes a deixar aquela luz se apagar.
Se Riley soubesse — se soubesse que o coração da amiga que ela protegera estava parando pouco a pouco; se soubesse que a garota que se agachava para falar baixinho com um gato de rua — como ela choraria?
Aurora pegou a caneca, e o calor escaldante atravessou a porcelana até a palma de sua mão. Ela abaixou a cabeça, usando o vapor que subia para esconder os olhos avermelhados.
“Está tão bom”, ela disse com um sorriso, a voz um pouco rouca.
Que ela pudesse ser egoísta só por mais um pouco.
Antes de terminar esta xícara de chocolate quente, enquanto ainda conseguia respirar e sorrir, ela daria mais algumas olhadas para a pessoa que sempre tinha sido completamente sincera com ela.
A luz amarela e acolhedora dentro do cômodo envolvia as duas figuras encolhidas juntas. Uma contava em silêncio os dias que restavam, enquanto a outra fazia planos para amanhã: comprar bagels na loja favorita de Aurora, levá-la para ver o filme independente que estava em cartaz e ficar ao lado dela por muito, muito tempo.
Mas só uma delas sabia que o tempo que tinham juntas era de menos de três meses.
— Riley, eu quero pedir demissão — disse Aurora.
Riley assentiu. — Você realmente precisa de um descanso. Nestes últimos anos, você se acabou de tanto trabalhar só para ganhar um pouquinho a mais de hora extra. Peça demissão logo, descanse em casa e deixe a parte de ganhar dinheiro comigo!
O coração de Aurora se aqueceu, e ela respondeu baixinho:
— Tá bom.
O destino nunca tinha sido gentil com ela.
Já que a separação era inevitável, ela decidiu passar aqueles três últimos meses ao lado de Riley.
Logo cedo na manhã seguinte, ela se maquiou com cuidado, usando base para esconder a palidez doentia, e foi para o escritório.
Mal tinha se sentado em sua baia, e nem tivera tempo de ligar o computador e escrever sua carta de demissão, quando sua colega Allison Coleman se inclinou na direção dela.
— Aurora, você viu o e-mail que a empresa mandou ontem à noite para todo mundo?
Aurora balançou a cabeça. Dylan a levara para sair no fim de semana passado, então ela não tinha tido chance de checar os e-mails do trabalho.
Allison baixou a voz, com um tom que deixava escapar a empolgação:
— Maya Green, do RH, acabou de mandar um aviso dizendo que a filha do presidente vem hoje ao escritório para assumir como CEO.
Enquanto falava, ela lançou um olhar para as salas da diretoria. — Ouvi dizer que ela já está lá embaixo.
Aurora não se lembrava de nada sobre a filha do presidente e, de qualquer forma, não tinha interesse. Como estava de saída da empresa, pouco importava para ela quem assumiria.
Mas Allison parecia completamente intrigada e sussurrou:
— Ouvi dizer que a nova CEO acabou de terminar o MBA. Por mais impressionante que seja o currículo dela, ela nunca trabalhou de verdade em um escritório. Será que não se preocupa com o fato de os funcionários não respeitarem alguém que caiu direto nesse cargo?
Laila Larson, sentada ao lado dela, soltou uma risadinha, com um tom de quem entendia bem a situação.
— Quem é que ousaria desobedecer? Ela é a mulher que Dylan Ramirez sempre quis.
Ao ouvir o nome dele, o dedo de Aurora, pairando sobre o mouse, hesitou por um breve instante.
