Capítulo 5
Aria se apresentou brevemente, trocou algumas gentilezas e, com naturalidade, enlaçou o braço no de Dylan. Em seguida, acompanhou Maya em direção ao escritório do CEO.
Allison observou os dois se afastarem lado a lado, com a inveja estampada no rosto. — Será que é tipo a CEO e o crush dela, igual nos romances, com o Sr. Ramirez acompanhando pessoalmente o primeiro dia dela?
Laila deu um tapinha no ombro dela e balançou a cabeça. — Você está simplificando demais. Ela virou CEO no momento em que voltou ao país — como os acionistas veteranos da empresa poderiam aceitar isso tão facilmente?
— O fato de o Sr. Ramirez ter vindo com ela hoje manda um recado bem claro: ela tem o apoio da família Ramirez. Isso abre caminho para ela e lembra a qualquer um que ainda tenha dúvidas que ela conta com o respaldo da família Ramirez.
Allison apoiou o rosto nas mãos, com um olhar invejoso. — Abrir caminho tão rápido para o próprio crush... o Sr. Ramirez é mesmo dedicado.
Laila baixou um pouco o olhar, o tom carregado de admiração contida. — Se ela não fosse filha do presidente do conselho, como poderia ter chamado a atenção de um homem com tamanho poder em Nova York?
Allison balançou a cabeça. — A srta. Dawson tem seus próprios méritos — é bem instruída e elegante. Mas, quando o assunto é aparência...
Ela se virou para olhar Aurora. — Não consigo deixar de achar que ela se parece muito com a nova CEO.
Laila se inclinou para observar melhor e assentiu. — Parece mesmo um pouco com ela. Mas acho a Aurora mais bonita.
O último vestígio de cor sumiu do rosto de Aurora.
As palavras de Allison foram como uma agulha fina, perfurando sem aviso o ponto mais vulnerável dela.
Sua garganta se apertou, as pontas dos dedos ficaram geladas, e ela começou a respirar com cautela, como se o menor esforço pudesse despedaçar a calma frágil à qual estava se agarrando.
— Não brinquem assim.
Ela ouviu a própria voz, fraca e distante, como se tivesse sido arrancada dela à força. Antes que as outras duas voltassem a falar, levantou-se e empurrou a cadeira para trás às pressas.
As luzes do corredor a deixaram tonta. Ela correu em direção ao banheiro, os saltos altos batendo no chão num ritmo urgente e regular, como se estivesse fugindo de uma cena de crime.
Só quando fechou a porta é que ousou soltar o lábio inferior, que vinha mordendo, e se apoiar contra a porta fria da cabine. Fechou os olhos devagar.
A pessoa no espelho tinha os olhos levemente vermelhos e uma expressão atordoada.
Ela se parecia com ela?
Essa semelhança sutil era tão óbvia assim para os outros?
Allison observou a figura de Aurora se afastando e perguntou em voz baixa: — O que houve com ela? Ela não parece muito bem.
Laila sorriu, com sarcasmo na voz. — Ela provavelmente está desconfortável por ver que a nova CEO se parece um pouco com ela, mas leva uma vida completamente diferente.
Allison não respondeu. Sabia que Laila era do tipo que fala uma coisa na sua frente e outra pelas suas costas, então decidiu não tocar mais no assunto.
Aurora entrou às pressas no banheiro, tirou um frasco de comprimidos da bolsa, despejou duas pílulas para se acalmar e as engoliu a seco.
Ficou apoiada na parede da cabine por um tempo, esperando a dor aguda passar. Depois, foi até a pia, abriu a torneira, juntou água nas mãos e a jogou com força no rosto.
Quando ergueu a cabeça, a pessoa no espelho estava pálida, com os olhos fundos. A doença prolongada a havia consumido, deixando-a abatida e amarelada. Bem quando encarava o espelho, atordoada, a porta do banheiro se abriu. Aria entrou com passos elegantes; o som dos saltos altos contra o piso de mármore era nítido e controlado.
Sua pele era lisa e radiante, as bochechas coradas por um rubor natural. Ela exalava um brilho que denunciava cuidado meticuloso.
Sem falar na inteligência e na elegância lapidadas em uma instituição da Ivy League — qualidades que Aurora não tinha e nem poderia imitar.
Quando o olhar de Aria passou pelo espelho por acaso, Aurora baixou os olhos por instinto.
Ela agarrou duas folhas de papel-toalha em desespero, virou-se às pressas e praticamente fugiu do banheiro.
— Espere. — Aria a chamou de repente.
O coração de Aurora disparou. Ela congelou no lugar, como se tivesse sido pega fazendo algo errado.
Mesmo sendo a substituta, aquela mantida no escuro — a vítima —, quando a verdadeira protagonista apareceu, ela sentiu uma vergonha indescritível e mal conseguiu erguer a cabeça.
Aria se aproximou, abriu um sorriso gentil e perguntou:
— Você é a assistente do meu escritório?
Aurora se esforçou para se recompor e, mantendo a cabeça baixa, respondeu baixinho:
— Sim.
Aria olhou para o relógio e então disse com suavidade:
— Vou presidir uma reunião de acionistas em meia hora. Você pode, por favor, preparar uma xícara de café e levá-la ao escritório do CEO? Preciso me manter alerta.
Ao pensar em Dylan, que ainda estava lá dentro, Aurora sentiu relutância. Mas era seu dever, e ela não podia recusar.
Ela assentiu, pretendendo pedir a um colega que levasse depois.
Aria sorriu em agradecimento e se virou para sair. Sua postura exalava compostura e eficiência.
Sua confiança e sua aura radiante faziam Aurora parecer ainda mais apagada em comparação.
Doente e frágil, Aurora se sentia como uma sombra tosca e desfocada de Aria, e isso a fazia se sentir completamente sem valor.
Ela ficou ali por um momento, tentando com todas as forças esconder as próprias emoções.
Saiu do banheiro e foi direto para a copa.
Lembrando-se das preferências do presidente, preparou o café de Aria exatamente do mesmo jeito.
Ela tinha planejado pedir a Allison e aos outros que o levassem ao escritório do CEO, mas eles já tinham sido deslocados para arrumar a sala de conferências.
Depois de hesitar por alguns segundos, não teve escolha a não ser pegar a xícara de café fumegante e caminhar ela mesma até a porta pesada.
— Pode entrar — chamou a voz suave e doce de Aria do lado de dentro.
Aurora sabia que seria constrangedor entrar.
Ela ficou parada do lado de fora, hesitando por um longo momento. Por fim, respirou fundo e empurrou a porta.
A porta se abriu lentamente.
Num relance, ela viu Aria sentada de lado no colo de Dylan, com uma mão pousada de leve no ombro dele e a outra ainda segurando documentos. Os dois estavam muito próximos, cochichando um com o outro.
O braço de Dylan repousava naturalmente em volta da cintura dela, e os dois estavam sentados numa postura íntima e descontraída. A familiar sensação de posse fez o ar da sala congelar por um instante.
Apesar de ter se preparado mentalmente, ver aquela cena fez a mão com que segurava o café tremer levemente.
Com medo de que percebessem que havia algo errado, ela imediatamente baixou o olhar e forçou um tom calmo.
— Senhorita Dawson, seu café está pronto.
Aria respondeu, um pouco sem jeito:
— É só deixar ali.
Aurora assentiu, colocou o café sobre a mesa e se virou para sair da sala.
Do começo ao fim, ela não olhou para Dylan nem uma única vez.
Ao sair do escritório do CEO, suas pernas de repente fraquejaram. Instintivamente, ela estendeu a mão para se apoiar na parede fria, mal conseguindo se manter de pé.
Era assim que Dylan costumava adorar segurá-la.
Embora eles tivessem acabado de conversar, a lembrança parecia um espinho cravando fundo em sua mente.
Incontáveis noites passaram por sua cabeça — noites em que Dylan a segurava daquele jeito, passando as pontas dos dedos por seu cabelo e sussurrando em seu ouvido.
Aqueles momentos íntimos e ternos — que ela um dia acreditou serem só dela — agora ecoavam com uma ironia amarga.
Naqueles momentos secretos, ele a abraçava e se aproximava dela exatamente daquela forma. Mas, no fim, tudo não passava de um hábito copiado de outra pessoa.
Pior ainda: cada gesto que ele havia feito com ela, cada sussurro que havia dito, e até aqueles olhares que ela confundira com paixão tinham sido ensaiados mil vezes com outra pessoa.
Ela permaneceu imóvel, com as pontas dos dedos geladas.
Desde o começo, ela nunca passara de um receptáculo para as memórias de outra pessoa.
O calor das pontas dos dedos dele quando a tocava era uma mentira. O reflexo nos olhos dele quando a olhava era uma mentira. Até aqueles sussurros tarde da noite, que faziam seu coração disparar, na verdade chamavam por outra pessoa.
Ela era apenas uma substituta lamentável, meticulosamente moldada.
