Capítulo 6

Pressionando a mão contra o coração dolorido, que parecia prestes a parar de bater, Aurora se obrigou a voltar para a mesa.

Ela precisava pedir demissão — e imediatamente. Não suportava ver os dois entrando e saindo juntos, com tanta intimidade, no escritório todos os dias, e ela já não tinha muito tempo.

Tinha medo de que, um dia, perdesse o controle e confrontasse Dylan cara a cara: “Por que você está sendo tão cruel comigo?”

Ela digitou a carta de demissão rapidamente e foi direto para o escritório de Maya.

Maya nunca gostara muito do jeito como Aurora trabalhava. Ao ver que Aurora tinha vindo se demitir por vontade própria, Maya apenas soltou um protocolar: “Lamento ver que você tomou essa decisão”, antes de assinar os documentos sem hesitar.

De acordo com a política da empresa, o processo de demissão levava trinta dias. Aurora não podia sair imediatamente, então decidiu usar as férias remuneradas acumuladas, tirando duas semanas de uma vez.

Ela trabalhava no Grupo A havia cinco anos, e as férias acumuladas totalizavam exatamente duas semanas. Usar esses dias antes de sair era perfeitamente normal.

Vendo o quanto Aurora estava ansiosa para ir embora, Maya não pôde deixar de lançar-lhe um olhar, com um tom bastante cortante: "Posso aprovar sua licença, mas você deve voltar imediatamente depois para cuidar da transição."

Aurora apenas respondeu: "Ok", então pegou a bolsa e saiu do prédio da A Group International sem olhar para trás.

Ao sair, ela esbarrou em Francisco Hamilton, o CEO da família Hamilton, perto da Times Square.

Ele tinha uma reputação terrível nos círculos empresariais de Nova York, especialmente por sua conduta desprezível com as mulheres, e havia muitos rumores escandalosos a seu respeito.

Ao vê-lo sorrir enquanto se aproximava, o coração de Aurora afundou, e ela se virou para recuar de volta para o prédio.

Francisco foi mais rápido, deu dois passos à frente, segurou seu pulso e a puxou para si.

“Com tanta pressa assim”, sussurrou ele, com a respiração roçando sua orelha. “Para onde vai, senhorita Campbell?”

“Está fugindo de mim?” O hálito quente dele roçou a parte de trás da orelha dela enquanto sua língua percorria de propósito a borda de seu lóbulo. “O jeito como você treme toda vez... isso me excita demais.”

“Você tem um cheiro tão bom...” Ele aspirou profundamente o aroma dos cabelos dela, depois subiu a mão em direção ao seu rosto.

Aurora imediatamente agarrou o pulso dele, com a voz glacial. "Sr. Hamilton, por favor, mostre um pouco de respeito."

Francisco, porém, levou o lóbulo da orelha dela à boca e riu, abrindo um sorriso. “Respeito? O que é isso?”

Um mês antes, quando Aurora foi ao Grupo Hamilton entregar documentos, Francisco a tinha colocado na mira.

Desde então, ele vinha ao escritório com o pretexto de negócios para assediá-la.

Toda vez que a via, ou tentava apalpá-la ou fazia comentários grosseiros e obscenos.

Na época, Aurora precisava do emprego para sobreviver e não podia se dar ao luxo de ofendê-lo, então não teve escolha a não ser suportar aquilo repetidas vezes.

A voz dele não era desagradável, mas o tom lascivo de suas palavras a fazia sentir náusea.

Ela virou o rosto, os olhos cheios de repulsa, mas Francisco não se importou nem um pouco. Quanto mais ela lutava, mais excitado ele ficava. Aquele senso de conquista lhe dava um prazer imenso.

Ele enfiou o joelho entre as pernas dela com força. Aurora soltou um arquejo e o empurrou com toda a força que tinha.

“Me solta! Estamos em um lugar público!”

“Público?” Francisco zombou, deslizando os lábios pela sua carótida. “Você está vendo alguém por aqui que vá nos impedir?”

De fato, as ruas de Manhattan estavam agitadas, cheias de gente apressada na hora do almoço. Alguns transeuntes olharam na direção deles antes de seguir em frente depressa.

No momento em que ela estava prestes a empurrar Francisco para longe, uma voz envelhecida soou de repente atrás dela.

“Dylan?”

Francisco a soltou no mesmo instante, arrumou de volta o casaco dela e abriu um sorriso educado.

Ao ouvir aquelas palavras, Aurora enrijeceu e ficou paralisada.

Ela se afastou lentamente do abraço de Francisco e olhou na direção de Dylan, que estava parado perto do elevador.

Ele estava um pouco distante, então ela não conseguia distinguir direito sua expressão.

Só conseguia sentir seus olhos amendoados fixos nela.

O frio cortante que emanava de seu olhar parecia capaz de engoli-la por inteiro num instante.

Terry Dawson, o presidente da A Group International, acabara de entrar na empresa quando avistou Dylan no saguão. Imediatamente, dirigiu-se até ele com vários membros do conselho.

—Dylan —Terry o cumprimentou com um sorriso. —O que o traz ao escritório hoje?

Só então Dylan desviou o olhar e lançou a Terry um relance discreto.

—Trouxe a Aria.

Terry assentiu, satisfeito.

—Obrigado. Ela acabou de voltar para Nova York, e há muitas coisas que vão exigir a sua atenção.

A expressão de Dylan permaneceu neutra quando respondeu, educado:

—Vou voltar para o escritório agora.

—Certo —disse Terry, apressado. —Não vou tomar seu tempo. Vou fazer a Aria visitar a família Ramirez daqui a alguns dias.

Dylan assentiu e se virou para sair. Os seguranças que o acompanhavam se dividiram rapidamente em duas fileiras, flanqueando-o enquanto ele atravessava o saguão.

Ao passar por Aurora, ele não vacilou o olhar; era como se ela fosse apenas um vaso decorativo encostado na parede.

Aurora baixou os olhos.

Como ela suspeitava, tinha sido coisa da sua cabeça. Não havia como Dylan notar a sua presença.

Só quando a silhueta de Dylan desapareceu no elevador é que Francisco o reconheceu como o filho da família Ramirez. Ele soltou Aurora imediatamente e correu atrás de Dylan.

—Sr. Ramirez! —compôs a expressão, cumprimentando-o com um sorriso. —Que coincidência encontrá-lo aqui.

Dylan entrou direto no carro, e a porta bateu com força. Uma dúzia de sedãs pretos estacionados na beira da rua deu partida e arrancou, desaparecendo rapidamente.

Francisco não conseguiu alcançá-lo e teve de voltar para procurar Aurora. Viu-a andando a passos rápidos em direção à entrada de funcionários do outro lado do prédio. A figura dela sumiu atrás da porta.

Ele passou a ponta do dedo no canto dos lábios, onde havia roçado a bochecha dela. Um brilho de divertimento cintilou em seus olhos.

—Victor —disse, virando-se para o assistente. —Descubra o endereço atual dela.

Victor Hayes, atrás dele, assentiu na mesma hora.

—Entendido, Sr. Hamilton.

Aurora voltou para casa, fechou a porta e jogou a bolsa sobre o banco perto da entrada.

Entrou na sala atordoada, sentou-se no sofá e ficou imóvel por um bom tempo.

Só quando o celular tocou dentro da bolsa é que ela voltou a si. Enfiou a mão para pegá-lo.

Encarou o nome piscando na tela, franzindo levemente a testa.

Ethan? Por que o assistente de Dylan estaria entrando em contato com ela a essa hora?

O dedo pairou sobre o botão de atender por alguns segundos, antes de enfim deslizar a tela.

—Ethan. —Sua voz saiu calma.

Do outro lado da linha, veio uma voz profissional e respeitosa:

—Srta. Campbell, peço desculpas pelo incômodo. Ao esvaziar o apartamento do Sr. Ramirez, encontrei alguns pertences seus. Gostaria que eu providenciasse a entrega ou prefere buscar quando for conveniente?

Os nós dos dedos de Aurora ficaram um pouco brancos de tanto apertar o telefone. Por um instante, ela esperou, absurdamente, que houvesse um significado mais profundo naquela ligação, talvez arrependimento.

Mas a realidade era simples —e cruel.

—Não precisa —disse ela, sem emoção. —Pode se desfazer de tudo.

Sem esperar resposta, encerrou a chamada.

No instante em que a tela escureceu, ela abriu os contatos, selecionou o número de Ethan e o apagou, junto com os outros.

Seus movimentos foram rápidos e decisivos, sem o menor traço de hesitação.

Quando foi embora ontem, inexplicavelmente tinha mantido aqueles números, uma esperança tênue e humilde ainda se agarrando a algum canto do coração. Agora, aquele último fiapo de esperança tinha se apagado.

Ela desligou o celular e afundou no sofá.

O cômodo ficou envolto numa escuridão silenciosa. O cansaço a inundou. Ela fechou os olhos e deixou a consciência afundar num sono caótico.

Não sabia quanto tempo tinha dormido até que uma batida surda na porta a arrancou dos sonhos.

Devia ser Riley. Ultimamente ela vinha fazendo o turno da noite e sempre chegava de madrugada. Tinha deixado as chaves com Aurora de novo.

Aurora esfregou as têmporas latejantes, levantou-se grogue, atravessou a sala mal iluminada, segurou a maçaneta e abriu a porta.

A pessoa do lado de fora não era Riley.

Francisco estava ali com uma das mãos no bolso da calça social, encostado no batente. Um sorriso tênue brincava em seus lábios.

A luz do corredor vinha por trás dele, recortando com nitidez seus traços refinados e fazendo-os parecer ainda mais frios.

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