Capítulo 8

Aurora tinha planejado não estar mais neste mundo dentro de três meses.

Até lá, mesmo que Francisco quisesse ir atrás dela, só encontraria um cadáver.

Mas agora, ele reduziu o prazo para três dias.

Justo quando ela estava prestes a falar de novo, Francisco a soltou de repente.

Aurora deu um passo para trás, engolindo as palavras que queria dizer.

Saia daqui primeiro. O resto pode esperar.

— Baby.

Ele de repente segurou a nuca dela, obrigando-a a erguer o rosto. Então deu um beijo pesado em sua bochecha, fazendo um estalo bem audível. — Hoje eu vou deixar passar.

Ele recuou meio passo, e seu olhar se enrolou nela como uma teia de aranha pegajosa. — Três dias. Eu venho te buscar então.

Aurora manteve os olhos baixos, sem responder, apenas assentindo de leve.

Francisco a encarou por alguns segundos e então sorriu de repente. Estendeu a mão e deu tapinhas na bochecha dela, como se acariciasse um animal de estimação obediente.

Depois se virou, abriu a porta e saiu.

Quando chegou à entrada, parou de repente.

Voltou-se e lançou a Aurora um olhar significativo. — Querida, o nome da sua boa amiga é Riley, não é?

A compostura forçada de Aurora desmoronou na mesma hora, tornando-se sombria.

O fato de Francisco conhecer Riley significava que ele já tinha investigado tudo sobre ela.

A sensação de estar completamente exposta fez um calafrio percorrer seu corpo.

— O que você quer? — A voz de Aurora estava tensa.

Francisco sorriu, com um tom levemente descontraído. — Nada. Só um lembrete para você ficar em casa pelos próximos três dias e não sair por aí.

Ele não a tinha ameaçado diretamente, mas ela entendeu.

Se fugisse, ele iria atrás de Riley.

A sensação de desespero — de não ter para onde escapar — apertou sua garganta mais uma vez. Ela baixou os olhos e afrouxou os punhos cerrados.

Disse, sem expressão:

— Não encoste na Riley. Eu vou esperar por você.

Só então Francisco lhe lançou um beijo satisfeito. — Boa garota.

Nojento.

No instante em que a porta se fechou, Aurora correu para a pia, abriu a torneira e esfregou com toda a força os lugares do rosto em que ele havia tocado.

Sua pele ficou vermelha de tanto esfregar, mas ela ainda se sentia imunda.

Repetiu o movimento várias vezes, até que a sensação pegajosa foi desaparecendo aos poucos, e só então parou.

Francisco estava usando Riley para ameaçá-la. Ela nem sequer tinha a chance de fugir. Se não pensasse em alguma solução logo, o que seria dela em três dias?

Aurora saiu da banheira, enrolou-se numa toalha e voltou para o quarto para pegar o celular.

Seu dedo pairou sobre o botão de chamada de emergência, mas ela hesitou em apertá-lo.

Ela poderia enfrentar Francisco sozinha — afinal, já não tinha mais nada a perder.

Mas Riley era diferente. A vida dela mal tinha começado, e seu casamento seria no mês que vem.

Aurora abaixou o celular e ficou ali, pensando por um longo tempo. Por fim, abriu os contatos e encontrou o número que tinha bloqueado.

Quando aquele nome apareceu na tela, seu coração falhou uma batida.

Ele era o único capaz de enfrentar Francisco.

Mas ele não a queria mais.

Será que atenderia se ela ligasse agora?

Aurora ficou olhando para o número, com o dedo pairando sobre a tela por muito tempo.

Ela conhecia Dylan bem demais. Quando ele rejeitava alguma coisa, nunca voltava atrás.

Ligar para ele só faria com que parecesse um incômodo.

Se ela tinha escolhido ir embora em silêncio naquela época, por que perturbá-lo agora?

Ela apagou a tela e jogou o celular de lado.

Nos últimos dias, Aurora tinha mandado fazer uma chave reserva e pegado alguns remédios no hospital.

Seu médico responsável tinha sugerido que ela ficasse internada até surgir um coração compatível para transplante, mas ela recusou.

Seu problema cardíaco era congênito e hereditário. Ela tinha passado por uma cirurgia de revascularização, o que melhorou bastante seu quadro.

No entanto, desde que levou dois chutes violentos no peito, cinco anos atrás, os sinais de insuficiência cardíaca começaram a reaparecer. Nem as constantes medicações intravenosas nem os remédios conseguiram impedir que a doença voltasse a se agravar.

Medicação constante, soro na veia com regularidade e incontáveis idas de madrugada ao pronto-socorro não ajudavam.

Nos últimos meses, o inchaço havia se espalhado para as panturrilhas. À noite, ela muitas vezes acordava arfando por ar, como um peixe se debatendo fora d’água.

Ela sabia que seu tempo estava acabando. Esperar por um coração compatível? As chances eram ínfimas — ela não podia se dar ao luxo de esperar.

Os remédios que tomava apenas aliviavam a dor e o inchaço.

Tendo passado a vida inteira valorizando limpeza e beleza, ela não podia morrer parecendo um desastre.

De volta em casa, despejou alguns comprimidos na mão e os engoliu com água fria.

Em seguida, puxou do fundo do armário uma pochete preta de autodefesa. Dentro havia uma lata de spray de pimenta de alta potência e um miniaturo taser disfarçado de batom.

Ela testou o interruptor, e faíscas azuis estalaram na ponta.

Não havia plano, e não havia saída.

Se Francisco viesse atrás dela em três dias, iriam para o inferno juntos.

Assim que terminou de deixar tudo pronto, o assistente de Francisco, Victor, chegou para buscá-la.

Ela levou a bolsa que escondia suas armas e entrou num Maybach preto.

Esperava ser levada diretamente para a residência de Francisco, mas o carro parou diante de uma loja de departamento de alto padrão.

Victor a conduziu até um salão privativo no último andar, onde vários estilistas aguardavam.

Eles prenderam seus cabelos, que iam até a cintura, num coque elegante e aplicaram uma maquiagem impecável.

Então trouxeram um vestido de noite cor de marfim, perfeitamente ajustado, de um tecido sedoso que parecia ter sido feito especialmente para ela.

Por fim, colocaram um colar de diamantes sobre sua clavícula. A pedra central lançava um brilho frio e afiado sob as luzes, fazendo sua pele parecer mais pálida. Ela olhou o reflexo no espelho — meticulosamente maquiada e adornada de joias — e, de repente, sentiu algo estranho.

Aquilo não parecia com ela.

Parecia mais com Aria.

Se Dylan a visse agora, provavelmente acharia que ela era uma imitação barata.

Aurora puxou os cantos da boca diante do espelho; seu sorriso estava carregado de amargura.

Quando o visual ficou completo, Victor a levou depressa ao Liberty Melody Party Venue.

Era um dos locais secretos mais exclusivos e caros de Nova York, frequentado por gente poderosa e famosa.

E, mais importante, não havia câmeras de segurança — e, mesmo que houvesse, as gravações jamais cairiam em mãos erradas.

Muitos acordos sujos e jogos obscuros aconteciam ali.

Francisco claramente escolhera aquele lugar sem qualquer intenção de deixá-la sair ilesa.

Ao pensar no que poderia acontecer a seguir, o coração de Aurora disparou como um elevador desgovernado subindo em disparada.

Quando o elevador se aproximou do último andar, ela se obrigou a se acalmar, apertando a bolsa com força.

As portas se abriram. Ela seguiu Victor para fora e parou diante de uma porta pesada que dava para uma sala privativa.

Victor tirou um cartão VIP, passou-o, e as imponentes portas automáticas se abriram lentamente.

Uma luz quente se derramou para fora, e os tons graves do jazz ficaram suspensos no ar como uma névoa fina.

Aurora se surpreendeu. Ela esperava que o gosto de Francisco pendesse para boates berrantes e espalhafatosas, mas a decoração ali era elegante, a música tranquila, e a atmosfera exalava certa sofisticação.

Ela mal tinha parado na entrada quando um braço se enlaçou em sua cintura por trás.

Francisco a puxou para o abraço e se inclinou para beijar sua bochecha. “Baby, você está absolutamente deslumbrante hoje.”

Uma onda de náusea a invadiu. Ela virou o rosto para evitá-lo, mas, sem querer, avistou a outra extremidade da sala privativa.

Um homem de camisa branca estava sentado na área de lounge. Os dois primeiros botões do colarinho estavam abertos, e as mangas, arregaçadas até os antebraços. Ele segurava uma taça de vinho tinto; na luz baixa, o líquido parecia sangue coagulado.

O olhar dele atravessou a multidão que se movia e pousou diretamente nela.

Dylan.

Como ele podia estar ali?

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