Capítulo 10 Seguindo
Ponto de vista de Novalyn
A manhã começa como todas as outras — cedo demais, fria demais e quieta demais para ser confortável. A névoa se enrola baixa sobre os campos, agarrada à grama como um segredo teimoso. Minha respiração fica branca no ar enquanto empilho a última caixa de ovos na caçamba da minha caminhonete, a madeira rangendo sob o peso. O cheiro de feno, leite e terra molhada me envolve. Era para ser tranquilo, mas não é.
Paz significa imobilidade, e a imobilidade deixa espaço demais para pensamentos que eu não quero.
Principalmente ele.
Eu enfio esse pensamento para baixo do jeito que aprendi: trabalhando mais. Mantendo as mãos ocupadas, a cabeça baixa, a mente quieta. Digo a mim mesma que é só mais um dia, mais uma ida à cidade. As mesmas estradas esburacadas, as mesmas pessoas, as mesmas conversas.
Subo na caminhonete e dou partida. Ela geme em protesto antes de, por fim, ganhar vida num ronco.
— Não morre agora, não — murmuro, dando uma batida firme no painel.
Os pneus estalam no cascalho quando saio do terreiro. O sol ainda não subiu muito, mas uma luz dourada já se derrama pelas colinas, banhando os campos num brilho suave. Um gavião circula lá em cima, cortando a névoa. É lindo — daquele jeito solitário e intocável que as coisas às vezes têm.
Na metade do caminho pela estrada de terra, alguma coisa cintila entre as árvores. Só um borrão, mas o bastante para fazer minha loba se agitar, inquieta, sob a pele.
Provavelmente um cervo, digo a mim mesma. Ou a sua imaginação.
Mas é estranho como a mata tem parecido diferente ultimamente. Ainda familiar, mas mais quieta, como se estivesse prendendo a respiração.
Quando chego à cidade, já me convenci de que estou sendo ridícula. A rua principal já está acordando — gente abrindo portas de loja, varrendo varandas, cumprimentando uns aos outros com os mesmos sorrisos previsíveis. A normalidade me envolve como um disfarce que eu conheço bem demais.
Estaciono perto da praça do mercado, a caminhonete velha tossindo em protesto de novo.
A Sra. Alder, da padaria, acena, farinha manchando o avental.
— Bom dia, Nova! Trouxe ovos hoje?
— Fresquinhos — respondo, descarregando uma caixa.
Ela sorri.
— Você é uma bênção. A esposa do prefeito acabou com tudo ontem, disse que vai assar para alguma coisa de caridade.
— Acho que todo mundo precisa do seu pão — resmungo.
Ela ri e então baixa um pouco a voz.
— Você ouviu? O pessoal lá perto da serra disse que viu lobos de novo ontem à noite.
Minhas mãos param por um instante sobre a caixa.
— Provavelmente cães selvagens.
— Foi o que eu disse — ela responde, embora o olhar dela diga que não está convencida. — Mas é estranho. Disseram que os olhos brilhavam.
Dou de ombros, fingindo que não significa nada.
— As pessoas veem o que querem ver.
Faço minhas entregas — no açougue, no mercado, no cafezinho que pega leite e manteiga toda quinta-feira. Todo mundo é simpático o bastante, mas eu mantenho tudo rápido, educado, distante. É mais fácil assim. Quanto menos perguntam, menos eu preciso mentir. Misturar-me entre humanos ficou mais fácil com o tempo.
Quando termino, o sol já está mais alto, e eu só quero voltar para casa. Estou colocando a última caixa de volta na caminhonete quando uma voz vem de trás de mim, macia e grave.
— Quer uma mãozinha, querida?
Meu coração dá um salto antes de o meu cérebro conseguir acompanhar. Eu me viro num movimento brusco, e lá está ele.
Encostado num poste de luz como se estivesse posando para um retrato. A luz do sol pega no cabelo dele, algumas mechas caindo sobre a testa, as mangas arregaçadas, o sorriso preguiçoso e irritante.
“Você de novo”, resmungo, largando a caixa um pouco mais forte do que precisava.
“Você fala como se fosse uma coisa ruim.”
“E é.”
Ele se afasta do poste e vem mais perto. “Eu estava por aqui.”
“Isso aqui é uma cidade de humanos”, rebato, ríspida. “Você não devia estar aqui.”
“Relaxa”, ele diz, com a maior tranquilidade. “Eu não vou morder ninguém.”
“Ainda.”
Isso arranca dele uma risadinha baixa. “Você realmente não gosta de mim, né?”
“Eu nem te conheço.”
Ele estende a mão como se fosse um convite que eu não pedi. “Lazarus.”
Eu encaro a mão, depois volto a olhar para ele. “Que bom pra você.”
Ele dá um meio sorriso, sem se ofender. “Você também tem um nome, imagino?”
Antes que eu consiga pensar em alguma resposta atravessada, a Sra. Alder chama da porta da padaria. “Nova! Não esquece o seu troco!”
Meu estômago despenca. O sorriso dele se alarga.
“Fica com ele, Sra. Alder!”, grito de volta.
“Nova”, ele repete devagar, como se estivesse provando o som. “Bonito.”
“Não.”
Ele ri, erguendo as mãos. “Tá bom. Sem nomes, sem sorrisos, sem mordidas. Vou tentar me comportar.”
“Tenho certeza de que você é péssimo nisso.”
Ele pega uma das caixas antes que eu consiga impedir. “Deixa eu ajudar.”
“Eu não preciso de ajuda.”
“É”, ele diz baixo, colocando a caixa na caminhonete mesmo assim. “Você vive dizendo isso.”
Tem alguma coisa no jeito como ele fala — como se não estivesse mais falando de caixas — que faz meu peito apertar. Eu desvio o olhar.
Aí acontece — um uivo distante, que parece entrar nos ossos, corta o ar. Longe demais pra estar perto, mas perto o suficiente pra acelerar meu pulso.
Lazarus fica imóvel ao meu lado, a cabeça levemente inclinada, a expressão mudando de provocação para um foco afiado.
“Você ouviu isso?”, sussurro.
Ele assente uma vez. “Aquilo não foi um cervo.”
Por um instante, nenhum de nós se mexe. A rua está normal — crianças correndo, portas de lojas abertas — mas, por baixo de tudo, alguma coisa parece errada.
Ele olha pra mim de novo. “Você não devia voltar dirigindo sozinha.”
“Eu faço isso há anos.”
“Mesmo assim”, ele diz. “Deixa eu ir atrás de você.”
“Eu não preciso de babá.”
O sorriso dele volta, fraco, mas verdadeiro. “Beleza. Então eu só vou… por acaso pegar a mesma estrada.”
“Você nem tem carro.”
“Acho que vou correr rápido, então.”
Reviro os olhos e subo na caminhonete. “Você é maluco.”
Ele apoia os braços na janela aberta. “Talvez. Mas eu sou persistente.”
“Persistência machuca as pessoas.”
“Eu corro o risco.”
As palavras ficam ali entre nós — mais pesadas do que deveriam ser. Ele dá um passo para trás, me deixando ir, mas quando olho pelo retrovisor lateral alguns minutos depois, juro que vejo ele na beira da rua, observando.
O caminho de casa parece mais longo do que o normal. Cada farfalhar nas árvores, cada sombra atravessando a estrada, faz meu pulso disparar. Talvez não seja nada. Talvez seja só a minha imaginação de novo.
Mas quando entro na fazenda e desço, o ar parece parado demais. Quieto demais.
Descarrego a última das caixas, tentando afastar a sensação, mas alguma coisa se move perto da linha das árvores — um lampejo de movimento, rápido e baixo.
“Lazarus?”, chamo, meio irritada, meio na esperança.
Nenhuma resposta.
Então eu vejo — dois olhos vermelhos brilhando de leve no escuro, sem piscar.
E, dessa vez, eu sei que não é ele.
