Capítulo 5 Sombras
Ponto de vista de Novalyn
Os tambores batiam suavemente ao longe. O som deles atravessava a clareira como um batimento cardíaco, constante e vivo. Risadas e vozes enchiam o ar, misturando-se ao cheiro de pinho, terra e sálvia queimando. A lua estava cheia naquela noite, pesada e prateada sobre as terras da alcateia, lançando sua luz sobre cada rosto voltado para mim.
Eu estava no centro, vestida de branco. O tecido cintilava de leve a cada movimento. Minhas mãos tremiam, embora eu as mantivesse bem entrelaçadas à frente do corpo. Ao meu redor estava todo mundo que eu já tinha conhecido — minha família, minha alcateia, meu Alfa. Eles sorriam, os olhos brilhando de orgulho e alegria. Eu tinha esperado por esse dia a vida inteira.
O dia em que eu seria marcada.
Meu companheiro estava ao meu lado. A mão dele roçou a minha com delicadeza, uma promessa silenciosa de que estava tudo bem. O sorriso dele era suave, quente o bastante para acalmar a tempestade que vinha rugindo dentro de mim a semana inteira. Quando o polegar dele deslizou sobre meus nós dos dedos, a multidão desapareceu. Só existia ele. O cheiro dele, esfumaçado e doce, como cedro queimado. Os olhos dele, verde-vivos sob o luar.
Quando ele se inclinou, os lábios dele tocaram primeiro meu pescoço, quentes e gentis. Então veio a mordida. Afiada. Profunda. Dor e prazer se enroscaram até eu não conseguir mais distinguir um do outro. Minhas pernas fraquejaram. O vínculo se encaixou dentro de mim, brilhando, se espalhando por cada parte do meu corpo como fogo e luz. Eu ofeguei, o ar travando na garganta. O som dos gritos de comemoração da alcateia se ergueu ao nosso redor, vozes levantadas em celebração.
Era para ser perfeito. Sagrado. Para sempre.
Então tudo mudou.
O calor no ar sumiu. Os tambores desaceleraram até parar. Os aplausos viraram sussurros, ásperos e cortantes, rasgando o silêncio. Pisquei, tentando me firmar, mas o mundo tombou para o lado. A mão do meu companheiro escorregou da minha. A luz enfraqueceu. O ar ficou frio.
E, quando olhei de novo, os rostos ao meu redor estavam distorcidos.
Os olhos já não estavam cheios de alegria. Eles me encaravam como se eu fosse algo imundo. Perigoso. Um murmúrio baixo se espalhou pela multidão, crescendo até virar algo mais alto, mais feio.
“Traidora.”
“Perigo para a alcateia.”
“Instável.”
“Um risco.”
As palavras me atingiram como pedras. Cambaleei para trás, confusa. Meu peito apertou quando tentei falar, mas minha voz saiu em ofegos quebrados. “Não”, sussurrei. “Não, por favor. O que vocês estão dizendo?”
O Alfa deu um passo à frente. A expressão dele era talhada em pedra, a voz grave e definitiva. “Você traiu sua alcateia, Novalyn. Você não é mais uma de nós.”
Balancei a cabeça. “Não! Eu não fiz nada. Por favor, eu não—”
Meus joelhos bateram no chão. A terra estava fria sob mim. Estendi a mão para o meu companheiro, desesperada para que ele dissesse alguma coisa, para que os impedisse. Ele estava a alguns passos, encarando. Os olhos dele — os mesmos olhos dourados que tinham me olhado com calor momentos antes — agora estavam vazios.
E então, devagar, ele puxou alguém para mais perto do seu lado.
Minha irmã.
A mão dela repousou no braço dele como se pertencesse ali. O olhar dela estava cheio de pena, não de amor. Pena de mim.
Meu coração se partiu. “Não”, eu disse de novo, sacudindo a cabeça, fraca. “Não. Por favor, não façam isso.”
Algo frio roçou minha perna. Olhei para baixo. O chão estava se mexendo. Cipós se enrolavam nos meus tornozelos, subindo, apertando meus pulsos. Estavam vivos, respirando, pulsando com uma energia estranha. Eu gritei, tentando me soltar, mas a própria terra estava me engolindo. A alcateia assistiu em silêncio enquanto os cipós me arrastavam para baixo, cada vez mais fundo.
“Por favor!”, eu gritei, estendendo a mão para ele, para qualquer um. “Me ajudem!”
Mas ninguém se mexeu.
O mundo ficou preto.
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Acordei com um grito agudo, o coração martelando contra as costelas. Minhas costas bateram com força na porta de madeira. A arma ainda estava na minha mão, meu dedo tremendo perto do gatilho. O suor encharcava a nuca. Minha respiração vinha rápida, irregular. O som do meu próprio coração preenchia meus ouvidos.
A casa de fazenda estava silenciosa. Só o relógio velho lá embaixo fazia um tique-taque fraco, marcando cada segundo como um lembrete distante de que o tempo não tinha parado, mesmo que eu desejasse que tivesse.
Eu me forcei a me mexer, conferindo as trancas de novo. Todos os ferrolhos ainda estavam no lugar. Ainda estava seguro. Minha mão tremia quando girei a maçaneta só para ter certeza. Então me afastei da porta e subi as escadas. Cada degrau rangeu sob meus pés, a madeira suspirando baixo com o meu peso. Minhas pernas tremiam um pouco.
No meu quarto, larguei a arma na mesa e me sentei na beirada da cama. Minha cabeça latejava — uma dor surda e ao mesmo tempo aguda florescendo atrás dos meus olhos. O mesmo tipo de dor que sempre vinha depois dos sonhos. Eles nunca iam embora em silêncio. Sempre faziam questão de que eu me lembrasse.
Isso sempre acontece. Toda noite. Cenas diferentes, o mesmo final. Traição. Vergonha. Perda.
Alcancei a gaveta ao lado da cama e puxei o pequeno recipiente de metal. Dentro estava a mistura de ervas que eu mesma fazia — raízes esmagadas, casca em pó, pétalas secas. O cheiro era forte e terroso. Abri devagar, tentando ignorar a dor pulsante atrás dos olhos. Ao lado do abajur havia uma garrafa de vidro cheia de água. Coloquei uma colherinha do pó, sacudi até a água ficar turva e bebi tudo de uma vez.
O gosto era amargo, quase metálico, mas familiar. Acalmou minhas mãos trêmulas, desacelerou minha respiração. O mundo se firmou de novo.
Quando me recostei na cama, meus pés estavam gelados. Foi quando eu vi. Listras brancas começaram a brilhar de leve sobre a minha pele, partindo dos dedos dos pés e se enrolando para cima em linhas finas e ramificadas. Pulsavam como veias de luz, suaves e vivas, e então foram se apagando devagar até desaparecerem outra vez. A visão sempre deixava um vazio dolorido no meu peito.
Apertei as palmas sobre os olhos e sussurrei para mim mesma:
— Eles não estão aqui. É só um sonho.
Mas minha voz tremeu. Nem eu acreditava.
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O quarto parecia pequeno demais, então me levantei e fui até o banheiro. O espelho capturou meu reflexo. Meu cabelo branco grudava no rosto, um lembrete de que eu não era como todo mundo — quem mais teria uma cabeça inteira de cabelo platinado aos vinte e cinco anos? Mais uma marca do meu suposto dom. E as sombras sob meus olhos me faziam parecer outra pessoa. Alguém assombrada. Liguei o chuveiro e entrei debaixo d’água.
A primeira onda de calor contra a minha pele foi um alívio. Deixei que caísse sobre mim, lavando o sal e o medo grudados no meu corpo. Tentei esvaziar a mente, mas o rosto dele apareceu mesmo assim.
Aquele homem.
Aqueles olhos.
O jeito que a voz dele soou quando disse: “Você é minha.”
Meu peito apertou, e encostei a testa na parede, deixando a água escorrer pelas minhas costas. Que tipo de piada cruel era aquela? Depois de tudo que a Deusa da Lua tinha tirado de mim, depois de tudo que eu tinha perdido, por que ela me mandaria outro companheiro? Não podia haver dois. O vínculo não deveria acontecer duas vezes.
Mas eu tinha sentido. Aquele puxão. Aquele estalo nas minhas veias. O mesmo que eu tinha jurado que nunca mais sentiria.
O mesmo que arruinou a minha vida.
Balancei a cabeça com força e fechei o chuveiro. Não. Eu não ia pensar nisso. Não agora. Nunca. O passado estava morto. Eu mesma enterrei.
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Troquei de roupa e vesti meu pijama macio, o tecido fresco contra a pele. A casa de fazenda estava quieta de novo, o ar com um leve cheiro de lavanda e chuva. A arma na minha mesa de cabeceira pegou a luz da lua. Eu a peguei, conferi o tambor e a coloquei de volta onde eu pudesse alcançá-la com facilidade.
Aquele lobo voltaria. Eu sentia nos ossos. Eles sempre voltavam. Vinham com promessas, com destino, com a ilusão do para sempre. Mas eu não era mais uma garota indefesa esperando ser reivindicada. Eu não era de ninguém para ser tomada.
Se a Deusa da Lua não fosse me proteger, eu me protegeria.
Olhei para a janela. A lua estava baixa, brilhando direto no meu quarto, banhando tudo numa luz prateada e fria. Parecia quase presunçosa.
— Muito engraçado — murmurei, erguendo o dedo do meio para ela. — Vai rir em outro lugar.
Então me virei, puxando o cobertor mais para cima. A luz ainda tocava meu rosto, brilhante demais, consciente demais, mas mantive os olhos fechados.
O sono veio devagar. E, quando veio, a última coisa que eu senti foi o cheiro de fumaça e pinho.
Como se ele nunca tivesse ido embora de verdade.
