Capítulo 7 Lillies
Ponto de vista de Novalyn
Acordei irritada.
Não confusa. Não sonhadora.
Irritada.
Daquelas que pesam no peito antes mesmo de você abrir os olhos, como se o corpo já soubesse que tem algo errado e o cérebro só estivesse chegando atrasado na reunião.
Fiquei encarando o teto por um bom tempo, a mandíbula travada; depois gemi e me virei de lado. “Juro”, murmurei, “se o dia começar estranho, eu vou morder alguém.”
Nenhuma resposta. Só o rangido suave do chalé se acomodando.
Ótimo.
Me arrastei para fora da cama, vesti a roupa e amarrei o avental com um puxão seco. O espelho pegou meu reflexo quando passei. Cabelo uma bagunça. Olhos cansados. Expressão presa num permanente mau humor que dizia: não fale comigo a menos que você esteja sangrando ou pegando fogo.
Aquele homem tinha estragado meu sono.
Só perceber isso já me deixou mais brava.
“Eu nem sei o nome dele”, falei em voz alta, apontando para o meu reflexo. “Isso é ridículo. Absolutamente ridículo.”
A porta rangeu ao abrir, e o ar frio da manhã me deu um tapa na cara, como se concordasse.
A fazenda me recebeu do jeito de sempre. Clover berrando de forma dramática como se não comesse havia semanas. As galinhas cacarejando e se espalhando. Marcus, o galo, estufando o peito como se fosse dono do lugar.
“Nem começa”, eu avisei.
Ele começou.
Marchando em direção ao celeiro, eu batia as botas no chão mais forte do que precisava. “Você é um pássaro”, eu disse ao Marcus. “Um pássaro barulhento e arrogante. Se acalma.”
Clover me seguiu para dentro, praticamente pisando nos meus calcanhares.
“Sim, sim, você está morrendo de fome”, eu disse. “Tenho certeza de que o mundo foi muito cruel com você nas últimas doze horas.”
Despejei ração no cocho dela. Maisey observava do cercado, tranquila, redonda e presunçosa.
“Não me olha assim”, eu disse a ela. “Você está grávida, não iluminada.”
Ela espirrou.
Eu funguei, apesar de mim mesma. “Grossa.”
Por alguns minutos, a rotina funcionou. Minhas mãos ficaram ocupadas. Meus pensamentos ficaram administráveis.
Aí meu peito apertou.
Não foi de repente. Foi se insinuando devagar, como um convidado indesejado puxando uma cadeira sem pedir licença. Um puxão. Uma pressão. Um lembrete.
Congelei no meio da varrida.
“Não”, eu disse na hora. “A gente não vai fazer isso.”
Minha loba se mexeu, curiosa e irritada.
“De jeito nenhum”, eu sibilei. “Ele não vai se enfiar na minha cabeça como se fosse dono dela.”
A vassoura escorregou da minha mão e bateu no chão com estrondo.
Clover se assustou.
Eu não.
Apoiei as palmas nas coxas e respirei por entre os dentes. A voz dele voltou sem ser chamada. Baixa. Segura. O jeito como ele tinha me olhado, como se medo fosse algo que ele pudesse catalogar e controlar.
Minha.
Eu soltei uma risada de desprezo. “Que audácia.”
Clover berrou.
“Ah, não fica do lado dele”, eu rosnei. “Você nem ouviu o tom.”
Ela mastigou mais alto.
Terminei as tarefas em silêncio e escapei para a horta antes que eu dissesse algo realmente desequilibrado para uma ovelha.
A terra estava fresca e úmida sob meus dedos. A lavanda roçou meu pulso, soltando seu perfume. Familiar. Seguro. Foquei nisso.
Ervas não te reivindicam.
Eles não olhavam para você como se estivessem decorando suas fraquezas.
Maisey rebolou mais para perto enquanto eu trabalhava. “Isso aqui é pra você”, eu disse a ela. “E se você reclamar, eu vou trocar pela coisa amarga.”
Ela bufou.
“Imaginei.”
Misturei as ervas, socando com mais força do que o necessário. Lavanda. Equinácea. Mil-folhas. Mel. Minha mandíbula doía de tão cerrada que eu a mantinha.
Quando voltei a sair, o sol já estava mais alto.
Foi então que eu vi.
Tinha alguma coisa nos degraus da varanda.
Meu estômago despencou com tanta força que pareceu que eu tinha perdido um degrau.
No começo, eu não me mexi. Só encarei.
Lírios brancos.
Arrumados com cuidado. Frescos. Intencionais.
O mundo pareceu se estreitar ao redor deles.
“Não”, eu sussurrei.
Meu pulso rugia nos ouvidos quando dei um passo cauteloso para mais perto. Depois outro. Cada instinto gritava para eu me virar, para eu correr, mas meus pés não obedeciam.
Agachei devagar.
Os lírios estavam úmidos do orvalho da manhã. Os caules cortados com precisão. Nenhum bilhete. Nenhum sinal de quem os tinha deixado ali.
Minhas mãos começaram a tremer.
Lírios brancos não eram só flores.
Eram uma mensagem.
Meu peito se apertou, dolorido, enquanto a memória abria caminho de algum lugar onde eu a tinha enterrado. Um lugar diferente. Paredes diferentes. Uma porta que nunca ficava trancada por tempo suficiente.
Engoli em seco. “Você não está aqui”, sussurrei. “Você não sabe onde eu estou.”
Mas a dúvida se infiltrou mesmo assim.
Como alguém saberia deste lugar?
Olhei ao redor da clareira, de repente consciente do quanto ela era aberta. A linha das árvores parecia mais próxima do que nunca. Observando.
Minha loba rosnou baixo, com os pelos eriçados.
Bom. Pelo menos uma de nós estava pronta para lutar.
Peguei as flores com cuidado, como se pudessem me queimar. Meus dedos roçaram as pétalas e um arrepio me atravessou.
Elas tinham um cheiro limpo. Neutro.
Não reconfortante.
Não familiar.
Desconhecido.
Isso me assustou mais do que qualquer outra coisa.
Levantei de supetão e enfiei os lírios no lixo ao lado da porta, batendo a tampa com força, como se aquilo pudesse apagá-los.
“Não”, eu disse, firme. “Você não vai me encontrar.”
Clover estava por perto, estranhamente quieta.
“Não me olha assim”, eu disse, com a voz mais cortante do que eu pretendia. “Isso não é nada. Provavelmente não é nada.”
Ela não berrou.
Isso não ajudou.
Dentro do chalé, tranquei a porta. Depois conferi de novo. Minhas mãos tremiam quando me apoiei no balcão, respirando apesar do aperto no peito.
Pensa. Seja lógica.
Alguém podia ter passado por aqui.
Alguém podia ter confundido o lugar.
Mas os lírios...
Meus dedos se fecharam no avental. “Isso não quer dizer que te encontraram”, eu disse a mim mesma. “Não quer.”
Mesmo assim, eu não abri as janelas.
Naquela noite, o sono não veio fácil.
Qualquer som me deixava tensa. Qualquer estalo da madeira fazia meu coração disparar. Fiquei acordada, encarando o escuro, escutando passos que nunca vinham.
Em algum lugar, bem longe, um uivo atravessou a noite.
Desta vez, não me confortou.
Me lembrou que o mundo era maior do que esta fazenda.
E que se esconder nunca durava para sempre.
Eu não estou fugindo... não de novo.
