Capítulo 9 De volta

Ponto de vista de Nova

O sol estava baixo, pintando a fazenda com uma luz laranja silenciosa. Daquelas que fazem tudo parecer mais suave, mais calmo, quase pacífico. As vacas estavam quietas, meio adormecidas no celeiro, e o único som era o roçar macio da vassoura contra o assoalho de madeira. Eu gostava assim. Silêncio. Previsibilidade. Meu pequeno refúgio de paz depois de um dia que já parecia longo demais.

Tentei me concentrar em varrer, no ritmo constante do movimento, mas algo dentro de mim não sossegava. Havia um zumbido estranho sob a minha pele, como se o próprio mundo estivesse prendendo a respiração. Parei, a vassoura no meio do gesto. Meu coração acelerou, batendo forte uma vez. Duas.

Então eu senti.

Aquela presença.

Era impossível descrever, mas eu conhecia. O ar mudou. O silêncio engrossou. Minha loba se agitou antes mesmo de eu me virar.

Quando finalmente me virei, ele estava lá — encostado na porta do celeiro como se pertencesse àquele lugar. As mangas arregaçadas, a camisa grudando o suficiente para mostrar as linhas de músculo por baixo. Os olhos dele captaram a luz que se apagava, dourados por um segundo antes de se assentarem em algo mais escuro, mais afiado.

— Você de novo? — perguntei, tentando soar irritada em vez de pega de surpresa.

Ele sorriu, devagar, divertido.

— Eu disse que ia retribuir.

— Retribuir? — repeti, apertando o cabo da vassoura com mais força.

Ele deu um passo à frente, segurando alguma coisa atrás das costas.

— Uma oferta de paz.

Estreitei os olhos.

— Se for problema, eu não quero.

Ele inclinou a cabeça, ainda sorrindo. Então trouxe o que estava escondendo para a frente — uma pequena caixa de madeira cheia de cortes de carne fresca.

— Relaxa. É só jantar. E, antes que você pergunte, eu não matei o primo do Anthony pra conseguir isso.

Pisquei.

— Isso não tem graça.

— Eu não disse que tinha. — O sorriso dele se alargou, e eu odiei o quanto aquilo quase me fez rir.

Ele ficou ali por mais um segundo, como se estivesse esperando que eu agradecesse. Eu não agradeci.

— Você não pode simplesmente entrar no celeiro dos outros como se fosse dono — eu disse, em vez disso.

— Velho hábito — ele respondeu, olhando ao redor como se estivesse absorvendo o lugar. — Eu geralmente entro.

— Bom, você não é dono deste.

— Não — murmurou, e os olhos dele voltaram a mim, demorados. — Mas eu gosto da vista.

Lancei um olhar fulminante.

— Você é impossível.

— Já me disseram isso.

O canto da boca dele tremeu. Ele estava se divertindo com aquilo. Eu não. Pelo menos era o que eu dizia para mim mesma.

Ele entrou mais, sem pedir, as botas ecoando baixo na madeira. Tocou nas coisas — o cabo de uma forquilha, uma pilha de feno — como se precisasse sentir tudo para entender. A presença dele preenchia o espaço com facilidade demais, por completo demais.

Dei um passo à frente, bloqueando o caminho.

— Eu disse que você não devia estar aqui.

Ele olhou para mim de cima, quieto por um momento, os olhos firmes.

— Então me manda embora.

As palavras travaram na minha garganta. Minha loba se agitou de novo, inquieta. O ar entre nós estava pesado e quente, e eu odiei o quanto eu estava consciente de cada centímetro de distância entre a gente.

Ele deve ter percebido. O olhar dele desceu num lampejo — para meus lábios, para minhas mãos. Então alguma coisa mudou no rosto dele, a provocação amolecendo só um pouco.

— Eu vim dizer obrigado — ele disse, baixo.

— Pelo quê?

— Por não me deixar morrer congelado.

Dei de ombros, tentando soar indiferente.

— Você estava respirando. Eu não queria um cadáver fedendo no meu celeiro.

Isso arrancou dele outro sorriso. Menor dessa vez, quase genuíno.

— Sei. Você é um poço de bondade, querida.

Não respondi. Por um momento, nenhum de nós falou. O celeiro voltou a ficar em silêncio, exceto pelo rangido fraco das vigas e a batida lenta do meu pulso nos ouvidos. Ele me observava do jeito que as pessoas encaram o fogo, como se não soubesse se aquilo ia aquecê-lo ou queimá-lo.

Antes que eu conseguisse desviar o olhar, um som alto e agudo quebrou o silêncio: uma das vacas mugiu, num chamado. Virei na hora, o peito apertando. O bezerro menor tremia, os olhos arregalados, como se tivesse visto algo que eu não via.

— O que foi com ela? — perguntei, ajoelhando ao lado do cercado.

A expressão de Lazarus mudou num instante. O sorriso preguiçoso sumiu. Os olhos dele escureceram, afiados e atentos.

— Tem alguma coisa lá fora — ele disse, a voz baixa.

Olhei para a porta aberta. Os campos estavam imóveis, sombras longas se esticando.

— Renegados? — perguntei.

— Talvez. — O tom dele mudou — mais frio, mandão. Ele se colocou na minha frente, bloqueando minha visão. — Fica atrás de mim.

Franzi a testa.

— Eu sei me virar.

— Você discute depois — ele disse, sem olhar para trás.

Havia algo no jeito como ele falava — o tom, a autoridade silenciosa — que fez minha loba aquietar.

Por alguns momentos tensos, ficamos ali, os dois escutando. O ar lá fora se mexia, sussurrando entre as árvores. O bezerro soltou outro som fraco. Mas, fosse o que fosse, passou. Nenhum movimento. Nenhum cheiro. Nada.

Lazarus virou um pouco, os olhos varrendo a linha das árvores uma última vez antes de relaxar.

— Alarme falso.

Soltei o ar devagar, percebendo o quão perto estávamos agora. Eu sentia o calor do corpo dele, a linha sólida do ombro quase roçando no meu.

— Você ainda está aqui — eu disse, baixinho.

— Você percebeu — ele murmurou e, quando ergui o olhar, os olhos dele já estavam em mim.

Por um segundo, achei que ele fosse estender a mão. O ar entre nós engrossou de novo, e meu coração deu um tranco forte contra as costelas. O olhar dele demorou, traçando meu rosto num estudo silencioso.

Então ele sorriu — o mesmo sorriso enlouquecedor, cheio de certeza.

— Fica com a carne.

Pisquei, perdida.

— Só isso?

Ele deu um passo para trás, na direção da porta.

— Por enquanto.

E então ele se foi. Indo embora.

O celeiro pareceu quieto demais depois que ele saiu. Fiquei encarando a porta por um bom tempo, antes de me obrigar a respirar de novo.

Mais tarde naquela noite, quando enfim me deitei, a fazenda silenciosa ao meu redor, fechei os olhos e tentei esquecer o jeito como ele tinha me olhado — firme, inabalável, como se enxergasse cada muralha que eu já tinha construído.

Mas quanto mais eu tentava não pensar nele, mais alto minha loba sussurrava uma palavra dentro da minha cabeça.

Par.

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