Capítulo 1 Não olhe
Ponto de vista de Eleanor
O som das rodinhas de uma mala no assoalho de madeira fez meu coração disparar.
Eu me levantei num salto da poltrona de veludo perto da lareira, quase derrubando o champanhe. Alisei o vestido suéter sem mangas, de cashmere creme, uma última vez.
Arthur finalmente tinha chegado.
—Amiga, você vai acabar abrindo um buraco nesse tapete —Chloe estava ao meu lado, me observando andar de um lado para o outro sem parar.
Minha melhor amiga vinha me vendo fazer isso havia duas horas. —Você está linda.
Wyatte apareceu vindo da sala de jogos e estalou os dedos para nós. —Senhoras, por quem vocês estão esperando com tanta ansiedade? A gente nunca recebeu esse tipo de recepção quando vinha aqui antes. Estão fazendo favoritismo, é?
Ele deu um tapinha no meu ombro. —Se você está esperando o Julian, nem precisa se preocupar —ele com certeza vem. Se soubesse, ia ficar comovido até as lágrimas.
Eu ia protestar que não estava esperando aquele idiota quando Chloe o puxou para longe e disse:
—Você não sabe de absolutamente nada.
Blake e Zach ainda estavam na sala de jogos; as vozes deles ecoavam pelo chalé. A risada estrondosa de Blake soava a cada poucos minutos.
A porta da frente se abriu de supetão.
Minha respiração travou.
Julian Vance entrou.
Não era o Arthur. Era o Julian.
Meu coração afundou.
Julian chutou a porta para fechar e arrastou a mala para dentro. Flocos de neve derretiam no cabelo castanho dele. Jeans escuro, suéter grafite. Ele avançou até a luz da lareira e aqueles olhos cinza-azulados me encontraram. Aquele sorrisinho irritante puxou o canto da boca, deixando a pequena pinta no canto do olho ainda mais visível.
—Ora, ora. —Ele soltou um assobio baixo. —Olha só pra você, toda produzida.
—Oi. Você chegou. Cadê o Arthur?
—Olá pra você também, Ruiva. —Ele jogou o casaco por cima do sofá.
—Não me chama assim. —Cruzei os braços. —Onde ele está?
—Atrasado. Ligação de negócios. —Os olhos de Julian passearam por mim devagar. —E esse vestido? Um pouco chique demais pra um chalé de esqui, não acha?
—Eu quis me arrumar. Mais tarde vai ter uma festa.
—Aham, quis. —Ele veio direto na minha direção, parando perto demais. —Você até enrolou o cabelo. Quando foi a última vez que fez isso? No dia da formatura, no último ano? Você queimou a mão tentando impressionar… ah, espera. —Ele parou, sorrindo. —Você estava tentando impressionar o Arthur naquela época também, não estava?
Eu dei um tapa no braço dele. —Cala a boca.
—Me faz calar, Ruiva.
Ele esticou a mão e puxou de leve um dos meus cachos, observando ele voltar a pular no lugar. Eu afastei a mão dele num tapa, mas ele só riu.
—Ainda fazendo aquela coisa de se posicionar perto da lareira pra pegar a melhor luz? —Ele inclinou a cabeça, me analisando. —Bem cinematográfico. O Arthur vai entrar e achar que está num filme do Hallmark.
—Você é um babaca.
—Isso eu já ouvi. —Ele arrancou a taça de champanhe da minha mão. —Coragem líquida?
—Ei! —Eu tentei pegar de volta, mas ele levantou acima da minha cabeça, sorrindo.
—Responde a pergunta primeiro.
—Julian, eu juro por Deus…
—Jura por Deus o quê? —Ele tomou um gole do meu champanhe, sem desviar o olhar. —Que vai dizer pro Arthur que está perdidamente apaixonada por ele? Hoje à noite?
Minha boca se abriu. —Como é que você…
—Meu Deus —Chloe soprou da cozinha. —Elle, você contou pra ele?
—Eu não contei nada!
—Ela não precisou. —Julian me devolveu a taça, os dedos roçando nos meus. —Ela está de perfume. Ruiva nunca usa perfume. Lembra daquela vez, na oitava série, quando você experimentou o Chanel da sua mãe e espirrou por três horas?
Eu empurrei ele. Com força. Ele cambaleou um passo para trás, rindo.
—Você é o pior.
—Mas eu sou sincero. —Ele recuperou o equilíbrio e voltou a invadir o meu espaço. —Elle, falando sério. Você pensou bem nisso?
—Claro que pensei.
—Pensou mesmo? —Ele segurou meu pulso antes que eu pudesse bater nele de novo. —Porque o Arthur nunca te deu qualquer indicação de que te vê como algo além da irmãzinha dele.
Eu puxei a mão, me soltando. —Você não sabe disso.
—Não sei? —A voz dele baixou. —Deixa eu adivinhar. Você tem mandado mensagens pra ele. Soltado indiretas. E ele tem feito o quê? Sido educado? Amigável? Te chamando de “pirralha”?
Eu abri a boca. Fechei.
—Foi o que eu pensei. —Ele pegou minha taça de champanhe de novo e esvaziou. —Você está prestes a emboscar a sua paixão de infância com uma declaração que ele com certeza não quer.
—E como você sabe o que ele quer?
—Porque eu sou irmão dele. —Algo passou pelo rosto dele, rápido. —E eu de fato presto atenção.
—Ah, você presta atenção? —Eu arranquei a taça vazia da mão dele. —No quê? Nos seus esportes radicais e nas suas fãs?
—Ai. —Ele apertou uma mão contra o peito. —Essa doeu.
—Bom.
—Sabe o que dói? —Ele se encostou na lareira. —Ver você suspirando por alguém que nunca vai enxergar você do jeito que você quer que ele enxergue.
—Você não sabe disso.
—Ele disse sim pra essa viagem na hora —insisti. —Isso tem que significar alguma coisa.
—Ou significa que ele quis umas férias de esqui de graça. —O maxilar de Julian se contraiu. —Ele te mandou mensagem desde que entrou no carro?
Puxei o celular. Nenhuma mensagem nova. —Ele tá dirigindo.
—Tá. Claro. —A voz dele ficou sem emoção. —E você vai ficar aqui esperando o Príncipe Encantado atravessar aquela porta e perceber que esteve apaixonado por você esse tempo todo.
—Por que você se importa tanto?
A pergunta ficou no ar.
A expressão de Julian mudou —algo cru passando pelo rosto antes de ele cobrir com aquele sorrisinho preguiçoso. —Eu não me importo. Só não quero ter que lidar com o choro depois.
—Eu não vou chorar.
—Você chorou quando queimou a mão com o modelador de cachos, Ruiva. Você com certeza vai chorar quando o meu irmão—
—Elle! —A voz de Blake trovejou quando ele e Zach saíram da sala de jogos. —Caramba, você tá um arraso!
—Não tá? —Julian disse, alegre demais. —Ela tá planejando contar pro Arthur que tá apaixonada por ele hoje à noite.
—Julian! —Dei um soco no braço dele.
—Ai! Meu Deus, você fica violenta quando tá nervosa.
—Eu fico violenta quando você tá sendo um babaca.
—Então, sempre? —Ele esfregou o braço, sorrindo.
—Esse é o seu momento! —Chloe bateu palmas, encorajando.
—Isso vai ser incrível —disse Blake.
—Ou um desastre completo —murmurou Julian.
Virei na direção dele. —Sabe qual é o seu problema?
—Eu tenho vários. Você vai ter que ser mais específica.
—Você não suporta a ideia de eu ser feliz.
O sorriso dele vacilou. —Não é—
—Você é assim desde que a gente era criança. Toda vez que eu ficava animada com alguma coisa, você tinha que estragar. —Dei um toque no peito dele com o dedo. —Lembra do meu aniversário de dez anos? Eu tava tão empolgada com aquele colar de golfinho que o Arthur me deu, e você disse que parecia coisa de máquina de chiclete.
—Mas parecia mes—
Apertei o dedo com mais força. —Então me desculpa se eu não aceito conselho amoroso de alguém que nunca teve um relacionamento que durasse mais do que um fim de semana.
O maxilar dele se contraiu, algo se fechando atrás dos olhos.
—Justo. —A voz dele ficou plana. —Faz o que você quiser. O enterro é seu.
Ele pegou a mala e foi pelo corredor.
Fiquei ali, o coração disparado, as mãos tremendo.
—Isso foi pesado —disse Chloe, baixo.
—Ele que começou.
—Começou mesmo? —Ela me entregou champanhe novo. —Ou tava tentando te proteger?
—Ele não sabe do que tá falando. —Dei um gole longo. —Eu e o Arthur temos algo de verdade.
Mas a dúvida se infiltrou.
No Dia de Ação de Graças, quando eu tinha dito pro Arthur que estava com saudade, ele respondeu: “Eu também sinto sua falta, garotinha.” Quando mencionei essa viagem, ele pareceu feliz. “Eu adoraria. Obrigado por lembrar de mim, Elle.”
Isso tinha que significar alguma coisa.
Os minutos se arrastaram. Eu andei de um lado pro outro. Conferi o celular. Alisei o vestido.
Blake, Zach e Wyatte voltaram pra sala de jogos. Chloe se ocupou na cozinha.
Então —vozes lá fora. Portas de carro batendo.
Meu coração entrou em sobrecarga.
Julian apareceu no corredor, o cabelo úmido do banho, vestindo um suéter preto limpo. Ele devia ter ouvido também.
Ele parou quando me viu. Nossos olhares se encontraram.
Por um segundo, a expressão dele ficou completamente desarmada. Preocupada.
Então ele desviou o olhar.
Eu me movi em direção à porta, o coração martelando.
Através do vidro fosco, dava pra ver vultos do lado de fora. Ouvir a voz do Arthur.
Abri a porta só uma fresta —e congelei.
Pela abertura estreita, Arthur estava do lado de fora sob a neve que caía, sua figura emoldurada por flocos rodopiando.
Ele não estava sozinho.
Uma mulher num casaco bordô. Cabelo castanho longo. Ela se ergueu na ponta dos pés, a mão deslizando até o peito do Arthur.
E então ela o beijou.
O braço dele envolveu a cintura dela. Automático. Fácil.
Como se já tivessem feito aquilo mil vezes.
O mundo parou.
Um som escapou de mim.
Minha mão voou à boca. Minhas pernas cederam. Eu me agarrei ao batente da porta, mas meus joelhos estavam falhando, a visão afunilando—
Passos atrás de mim. Rápidos.
—Elle, não—
A voz de Julian, afiada de pânico.
Então os braços dele estavam ao meu redor, uma mão segurando minha cintura pra eu não cair. A outra subiu, a palma cobrindo suavemente meus olhos, bloqueando a cena que estava queimando nas minhas retinas.
—Não olha. —A voz dele falhou quando ele olhou pra fora, áspera e quebrada. —Meu Deus, Elle, não olha.
