Capítulo 2 Eu quero te beijar

Ponto de vista de Eleanor

A mão de Julian cobriu meus olhos. O outro braço se fechou em torno da minha cintura, e a pressão era a única coisa impedindo meus joelhos de cederem.

— Escuta bem. — O hálito dele estava quente na minha orelha. — Eu vou soltar. Você respira. Sorri. Nem pense em chorar.

Do lado de fora, a voz de Arthur atravessou a porta. — Vamos, está congelando. Entrem logo.

Minhas unhas cravaram nas palmas das mãos. A ardência aguda ajudou.

A mão de Julian se ergueu. A luz do fogo inundou minha visão. Chloe estava junto ao arco da cozinha, a taça de champanhe suspensa no meio do caminho até os lábios. Blake e Zach surgiram da sala de jogos, os passos diminuindo até parar.

A porta se abriu.

Arthur entrou, flocos de neve derretendo no cabelo escuro. O braço dele envolvia a cintura de uma mulher — alta, elegante, cabelos castanhos longos caindo sobre um casaco bordô.

— Desculpem o atraso, pessoal!

Ela desenrolou o cachecol. Uma pulseira da Cartier pegou a luz.

A mão de Arthur se acomodou na curva da lombar dela. O gesto foi fácil. Familiar. O jeito como você toca alguém que é seu.

— Esta é Vivienne Ashford. — O sorriso dele chegou aos olhos. — Minha namorada.

Atrás de mim, o fôlego de Chloe falhou.

Estiquei os lábios. O mesmo sorriso que eu aperfeiçoei nos jantares da família Sterling — todos os dentes, nada por trás.

A garrafa de cerveja de Blake escorregou na mão dele. Ele a segurou a tempo. — Ah… oi. Bem-vinda.

Julian não disse nada. Encostou-se à lareira, as mãos nos bolsos, os olhos fixos no irmão.

Vivienne deslizou para a frente, a mão estendida. O perfume chegou primeiro — algo francês, caro, do tipo que fica. — É um prazer conhecer vocês. O Arthur fala de vocês o tempo todo.

Ela se movia pela sala como se tivesse ensaiado. Cada aperto de mão firme. Cada sorriso calibrado.

— Você deve ser a Chloe. Biologia Marinha com a Elle?

O sorriso de Chloe parecia pintado. — Sim. A gente mora juntas.

— E o Blake — rúgbi, né? E o Zach na Goldman Sachs?

Então ela se virou para mim.

— E a Elle! — A voz dela aqueceu, como se já fôssemos amigas. — O Arthur me contou tanta coisa sobre você. Você é como uma irmãzinha para ele.

A taça de champanhe tremeu na minha mão. Travei o cotovelo.

— Prazer em conhecer você. — As palavras vieram de um lugar bem distante.

Eu apertei a mão dela. O aperto era seguro. A pele, macia.

Julian fez um som — meio risada, meio algo mais afiado.

A cabeça de Arthur virou num estalo para ele. — Alguma coisa engraçada?

O ombro de Julian subiu num dar de ombros preguiçoso. Aquele sorrisinho. — Nada. Parabéns, mano. Ela é perfeita.

Arthur atravessou a sala. A mão dele bagunçou meu cabelo — o mesmo gesto que ele fazia havia mil anos. — Elle, você está linda hoje.

O olhar dele desceu para o meu vestido. Um vinco apareceu entre as sobrancelhas. — Mas você não está com frio? Lá fora está dez graus negativos.

Minha garganta fechou. Eu engoli em seco. — Estou bem. Tem uma festa mais tarde.

— Ah, é, a coisa do clube. — O rosto dele se iluminou. Ele puxou Vivienne para mais perto. — Perfeito. A Viv pode conhecer todo mundo—

O resto das palavras virou ruído branco.

Julian riu de novo. O som tinha pontas.

Arthur se virou. — Sério, qual é o seu problema?

— Problema nenhum. — Julian se endireitou. Os olhos dele brilharam na luz da lareira. — Só admirando como você é desligado.

— Onde é o nosso quarto? — O olhar de Arthur vacilou até mim, e então fugiu.

— No fim do corredor. Segundo andar. — Eu encarei o chão.

Os passos deles subiram a escada. A risada dela ecoou pelo corredor.

Chloe correu até mim. — Elle—

— Não. — Eu me afastei num tranco. O champanhe chacoalhou e passou da borda. — Eu estou bem.

Julian ficou junto à lareira. Observando.

— Ainda vai naquela festa? — O tom dele era casual.

Eu ergui o queixo. — Por que não? Eu estou ótima. Eu devia me divertir.

— Má ideia.

— Não me importa.

Julian balançou a cabeça. — Você vai se arrepender disso.

— Provavelmente. — Eu virei meu champanhe. As bolhas arderam. — Mas agora? Eu realmente não tô nem aí.


A festa já tinha engolido metade do resort. Fogueiras enormes lançavam luz laranja sobre a neve. A cabine do DJ pulsava com um grave que vibrava no chão. Aquecedores industriais brilhavam em vermelho, criando ilhas de calor na noite congelada.

Eu tinha me trocado. Vestido preto curto de paetês. Jaqueta de couro. Maquiagem escura que deixava meus olhos com um ar vazio.

— Amiga, talvez você devesse— — a mão de Chloe alcançou meu braço.

— Hoje eu vou viver a melhor noite da minha vida. — Fui direto para o bar de gelo mais próximo.

Wyatt já estava lá. Ele se virou, deu uma olhada no meu rosto. — Caramba, Elle—

— Dose de tequila. Três. Agora.

O bartender alinhou as doses. Sal. Limão. Um líquido transparente que capturava as luzes coloridas.

Joguei a primeira dose para dentro. Bati o copo com força o bastante para trincar. A segunda queimou até o fim. A terceira desceu mais fácil.

Peguei uma taça de champanhe de uma bandeja que passava e me afastei.

Atrás de mim, a voz de Wyatt baixou. “Cadê o Julian?”

A música era alta o suficiente para eu sentir no peito. Fechei os olhos e inclinei a cabeça para trás. Flocos de neve pousaram no meu rosto, derretendo na hora.

Alguém segurou meu cotovelo.

“Calma aí, Ruiva.”

Julian.

Meus olhos se abriram de repente. “O que você quer?”

“Impedir você de fazer alguma besteira sob a minha guarda.” Ele pegou meu champanhe e o colocou numa bandeja que passava.

“Ei!”

“Dança comigo primeiro.” Aquele sorriso de canto de novo. “Vamos. Me mostra que você ainda consegue ficar em pé.”

“Você é um babaca.”

“Sou, mas um babaca útil.” Ele me puxou em direção à pista de dança.

O grave vibrava nos meus ossos. Eu estava bêbada o suficiente para não brigar.

A mão dele pousou na minha cintura. A outra pegou a minha. A palma dele era quente, calejada.

“Tá feliz agora?” Minhas palavras saíram um pouco emboladas. “Me vendo me humilhar?”

“Eu tô vendo um desastre ao vivo.” A voz dele era seca. “Não é exatamente divertido.”

“Você tinha razão.” Eu ri. O som saiu errado — agudo, quebradiço. “Ele só me vê como a irmãzinha dele.”

A música mudou. Mais lenta. Julian ajustou nosso movimento, me puxando para mais perto.

“Ele salvou a minha vida, Julian.” Minha garganta apertou. A neve se misturou com algo mais quente nas minhas bochechas. “Quando eu tinha oito anos. No píer de Greenwich. A água estava tão gelada e eu não conseguia respirar e ele pulou. Como é que eu simplesmente... esqueço isso?”

“Eu sei. Eu estava lá.” A mandíbula dele se mexeu. “Doze anos. Inútil pra caralho enquanto meu irmão perfeito salvava o dia.”

Minha cabeça caiu no ombro dele. O suéter dele tinha cheiro de fumaça de lenha e de algo limpo.

“Por que você é sempre tão irritante?” As palavras saíram arrastadas.

A garganta dele se moveu contra a minha têmpora. “Porque eu gosto...”

Ele parou.

Eu levantei a cabeça. Mesmo através da névoa do álcool, alguma coisa na voz dele me fez focar.

O ar dele prendeu. Por três segundos, ele esqueceu de se mexer.

Aí—

“Elle!”

Nós dois viramos.

Arthur. Vivienne ao lado dele, num vestido vermelho-escuro. O rosto dele estava cheio de preocupação, mas havia algo nos olhos que parecia cansado. Ensaiado.

Vivienne tocou o braço dele. “Você está bem, querido?”

“Estou bem.” Arthur olhou para mim. “Você bebeu demais. Julian, leva ela de volta.”

Alguma coisa no rosto de Julian esfriou. Endureceu.

“Ela disse que está bem.”

Os olhos de Arthur se estreitaram. “Isso não é da sua conta.”

“Não é?” Julian deu um passo à frente, se colocando entre Arthur e eu. “Você trouxe sua namorada pra viagem da Elle. Chamou ela de ‘irmãzinha’ na frente de todo mundo. E tá surpreso que ela ficou chateada?”

“Não.” Eu empurrei Julian e passei. O mundo inclinou. “Não briguem por minha causa. Eu não valho a pena.”

“Elle—” Arthur estendeu a mão.

Eu me afastei num solavanco. “Eu vou voltar. Sozinha.”

“Não vai, não.” Julian segurou meu pulso. “Você mal consegue andar.”

“Então eu engatinho.” Eu encarei os olhos dele. “Solta.”

“Nunca.”

Meus ombros cederam. Eu deixei ele me puxar para longe.


A caminhada de volta foi silenciosa. Só a neve rangendo sob nossos pés. Meu tropeço ocasional. O braço de Julian ao redor da minha cintura, sustentando a maior parte do meu peso.

No meio da trilha, eu parei. Neve prendeu no meu cabelo, derretendo contra o couro cabeludo.

“Julian.” Minha respiração virou vapor no frio. “Eu seria mais feliz se nunca tivesse conhecido ele?”

Ele ficou em silêncio por um bom tempo. Quando falou, a voz estava pouco acima de um sussurro. “Talvez. Por que você não... por que você não consegue olhar pras pessoas ao seu redor?”

Quando chegamos ao chalé, minhas pernas não colaboravam. Minha cabeça pendeu contra o ombro dele.

“Eu não quero ir pro meu quarto.”

Ele suspirou. Me conduziu até o terceiro andar. Longe deles.

Ele me encostou na parede do lado de fora de um quarto vazio ao lado do dele.

“Você precisa dormir.”

“Eu não quero ficar sozinha.”

Ele se agachou. Começou a desamarrar meus saltos. Os dedos dele eram cuidadosos, metódicos.

Minha mão foi até a cabeça dele. O cabelo dele era macio entre meus dedos.

“Você é muito legal.”

“Eu não sou.”

“É, sim.” Minha lógica bêbada deixava tudo simples. Claro. “Você é legal e você é—”

Eu inclinei o queixo dele para cima. A luz do corredor pegou o rosto dele. Olhos cinza-azulados. Maxilar marcado. Mesmo embaçado, mesmo girando, eu conseguia ver.

“Você é muito bonito.”

Ele ficou completamente imóvel. “Elle, você tá bêbada.”

“Eu sei.” Meu polegar traçou o maxilar dele. A barba por fazer ali era áspera. “Mas você ainda é... tão bonito.”

“Para—”

“Eu quero te beijar.”

A respiração dele parou. Eu senti — a imobilidade repentina no peito dele sob a minha palma, o jeito como o pulso dele saltou sob a ponta dos meus dedos no maxilar.

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