Capítulo 3 Atrás de portas fechadas
Ponto de vista de Julian
O corredor do terceiro andar se estendia à nossa frente sob uma luz dourada e suave, e as arandelas lançavam sombras compridas sobre o lambril de madeira escura.
Os canos do aquecimento zumbiam em algum lugar atrás das paredes, e nossos passos — os meus, deliberados; os dela, cambaleantes — eram os únicos outros sons.
O peso de Elle pressionava meu lado, a cabeça dela tombando no meu ombro enquanto eu praticamente a carregava pelo corredor.
As lantejoulas frias do vestido dela cutucavam através da minha camisa, mesmo com o calor do corpo dela queimando por baixo. O perfume dela me envolvia a cada passo instável — aquele cheiro suave de pêssego, agora intensificado pelo champanhe e pela proximidade.
Parei diante da porta dela, tentando mantê-la de pé com um braço enquanto estendia a mão para a maçaneta. Ela estava um peso morto contra mim, os dedos agarrando meu paletó com uma força surpreendente.
O vestido de lantejoulas captava a luz fraca, espalhando pequenos reflexos pelo lambril. Eu já tinha a mão na maçaneta, estava prestes a girá-la, quando Elle levantou a cabeça e piscou para mim com os olhos desfocados.
— Eu queria te beijar — ela disse, as palavras saindo emboladas.
Então ela ficou na ponta dos pés e me beijou.
Assim, do nada. As mãos dela agarrando minha gola, me puxando para baixo, a boca dela pressionando a minha.
Eu congelei.
Os lábios dela eram macios, quentes, com gosto de champanhe e de alguma coisa doce. O perfume dela tomou meus sentidos e, por uns três segundos, meu cérebro ficou completamente em branco.
Depois o instinto assumiu e eu a puxei para mais perto. Minha mão deslizou para o cabelo dela enquanto eu a beijava de volta com um desespero que eu vinha segurando havia meses.
Minha outra mão foi para a cintura dela, os dedos se abrindo sobre lantejoulas frias e pele quente. Ela soltou um som baixo e se apertou contra mim até não sobrar nenhum espaço entre nós.
Elle. Elle está me beijando.
Ela empurrou meu peito de repente. Ofegou, buscando ar.
Os olhos dela ainda estavam desfocados, as pupilas enormes na luz fraca. Ela disse alguma coisa que eu não consegui entender, palavras que talvez fossem meu nome ou coisa nenhuma. Meu coração estava a ponto de explodir e eu não conseguia respirar, não conseguia fazer nada além de esperar que ela dissesse de novo, que confirmasse que sabia.
Mas quando eu realmente olhei para ela — foquei nos olhos, não na boca — eu vi.
O brilho vítreo. O jeito como o olhar dela passava pelo meu rosto para se fixar em nada. O leve balanço, mesmo eu a mantendo firme.
Ela não estava olhando para mim. Ela estava olhando através de mim.
Ela não fazia ideia de quem eu era.
Eu a soltei como se ela tivesse me queimado, recuando embora meu corpo gritasse em protesto. Meu peito subia e descia enquanto eu tentava recuperar o fôlego, tentava ignorar o quanto minhas mãos tremiam.
— Você sabe quem eu sou? — As palavras saíram cruas. — Elle. Você sabe quem eu sou?
Ela não respondeu.
Só piscou para mim, inclinando levemente a cabeça. A boca dela se abriu, fechou, abriu de novo. Não saiu palavra alguma. Ela balançou sobre os pés, e eu, por instinto, estendi a mão para segurá-la — e então me contive.
Pergunta de novo. Faz ela dizer seu nome.
Mas minha garganta se fechou. Porque, se ela dissesse “Arthur”, se dissesse qualquer nome que não fosse o meu, eu teria que parar. E uma parte terrível de mim não queria saber.
Ela tropeçou para a frente antes que eu pudesse decidir.
Os braços dela envolveram minha cintura, o rosto dela se apertando contra o meu peito. Eu fiquei rígido, incapaz de afastá-la mesmo sabendo que eu devia.
— Não me deixa sozinha — ela disse, a voz falhando. — Por favor.
As palavras me atingiram como um golpe físico. Ela não estava pedindo a mim, especificamente. Estava pedindo a qualquer um.
Aquilo doeu pior do que qualquer coisa.
Eu puxei um ar que não chegou a encher os pulmões, tentando pensar com clareza através da névoa de desejo e culpa. Eu precisava colocá-la lá dentro. No quarto dela, em algum lugar seguro.
— Tá bom — eu disse, em voz baixa. — Eu tô aqui. Mas a gente precisa te levar pra dentro.
Tentei virá-la em direção à porta dela. Com cuidado. Com delicadeza.
Mas ela não soltava. Quando tentei descolar as mãos dela, ela fez um som pequeno de protesto que me paralisou.
Tudo bem. Só um minuto, até ela se acalmar.
Recuei até a minha própria porta e me deixei encostar na madeira sólida. Talvez, se ela descansasse um pouco, ficasse mais cooperativa.
Ela se mexeu de repente.
As mãos dela deslizaram da minha cintura para os meus ombros enquanto ela se deslocava para trás de mim, pressionando todo o peso contra as minhas costas.
“Quentinho”, ela murmurou. “Você é quentinho. Não vai.”
Cada músculo do meu corpo travou.
A sensação dela prensada em mim — curvas macias, lantejoulas frias, calor por baixo — subiu pela minha espinha como eletricidade. Fechei as mãos em punhos, as unhas cravando nas palmas, porque a dor era a única coisa que talvez cortasse o desejo que ameaçava me consumir.
Ela não fazia ideia de quem estava segurando ela. Só precisava de alguém. Qualquer um.
Não era sobre mim. Nunca tinha sido sobre mim.
Tentei me concentrar na respiração, mas tudo em que eu conseguia pensar era nela. O peso dela. O calor dela. O jeito como ela se encaixava em mim como se tivesse sido feita para isso.
Se controla. Só coloca ela lá dentro e vai embora.
Ela soltou meus ombros.
Por meio segundo, achei que talvez estivesse voltando a si.
Mas então ela se moveu para ficar de frente para mim de novo.
A mão dela subiu. Tocou meu rosto.
Devagar. Desajeitada. Traçando a linha do meu maxilar.
Eu prendi o ar, cada átomo focado naquele toque. Meu coração batia contra as costelas com tanta força que eu tinha certeza de que ela podia ouvir.
Diz meu nome. Por favor.
O casaco dela escorregou dos ombros. Caiu no chão com um baque suave. Ela não percebeu. Só continuou encarando minha boca, o dedo contornando meu lábio inferior.
“Seus lábios”, ela disse, com a voz sonhadora e arrastada. “Bonitos. Mais cedo… foi bom.”
Ela se inclinou de novo. Erguendo-se na ponta dos pés.
Alguma coisa em mim se rompeu.
Antes que eu pudesse me impedir, eu a beijei outra vez.
Mas, dessa vez, eu não congelei. Dessa vez, eu não hesitei.
Eu a agarrei e puxei contra mim, beijando-a como se eu estivesse tentando me queimar na memória dela. Minha mão deslizou para o cabelo dela, inclinando a cabeça para trás. A outra foi para a cintura, depois para as costas, depois para baixo do vestido.
Ela era tão macia. Tão quente.
Ela gemeu baixinho contra a minha boca. As mãos dela se agarraram aos meus ombros. Senti os joelhos dela fraquejarem.
Eu a segurei. Fui guiando-a para trás até as costas dela baterem na parede.
Continuei beijando. Continuei tocando. Continuei fingindo que aquilo era real.
Minha mão subiu pela coluna dela. Encontrei o fecho do sutiã por cima do tecido, senti os pequenos ganchos de metal sob as pontas dos dedos.
Uma parte distante do meu cérebro estava gritando comigo para parar. Mas eu não conseguia.
Porque, quando ela ficasse sóbria, nunca mais ia olhar para mim. Era isso. Minha única chance de saber como era senti-la me querer, mesmo que ela não me quisesse de verdade.
Só desta vez. Deixa eu fingir que ela é minha.
Meus dedos se encaixaram sob o fecho. Eu conseguia sentir o quanto seria fácil simplesmente—
Passos.
Subindo a escada.
Eu congelei.
Os passos se aproximaram.
Arthur.
Merda.
Se ele nos visse assim — Elle pressionada contra a parede, minha mão por baixo do vestido, o casaco dela no chão — não teria como explicar.
Eu puxei a mão. Agarrei o pulso dela. Empurrei minha porta.
Puxei ela para dentro.
Bati a porta com força. Tacteei a fechadura.
Quatro segundos para tomar possivelmente a pior decisão da minha vida.
Os passos pararam.
Bem do lado de fora da minha porta.
Encostei as costas na porta, o peito arfando. O quarto estava escuro e eu mal conseguia distinguir a silhueta da Elle, só o brilho do vestido na fresta de luz sob a porta.
O casaco dela. Meu Deus, o casaco dela ainda está lá fora.
Bem na frente da minha porta. Bem onde Arthur ia ver.
Ele ia saber.
O quarto ficou silencioso, exceto pelo martelar do meu pulso e a respiração suave de Elle. Ela piscou para mim, confusa, tentando se ajustar à escuridão. As lantejoulas cintilavam a cada respiração.
“Julian.” A voz de Arthur ecoou. Fria. Plana. “Você está com a Eleanor?”
