Capítulo 4 Atrás da porta
Ponto de vista de Julian
Minhas costas estavam pressionadas contra a porta. Cada músculo, travado, tenso.
A voz de Arthur atravessou a madeira, fria e precisa. “Julian. Você está com a Eleanor?”
Elle estava bem ali. A menos de sessenta centímetros. Balançando sobre os próprios pés naquele vestido preto de paetês. O olhar desfocado. Os lábios inchados de tanto me beijar.
A jaqueta dela ainda estava do lado de fora. Couro preto. Bem em frente à minha porta, onde qualquer um podia ver.
Eu precisava responder. Tinha que dizer alguma coisa.
Mas a Elle escolheu exatamente aquele momento para se mexer.
Ela cambaleou para a frente. Passou os braços pela minha cintura, de lado. Encostou o rosto nas minhas costelas.
Eu fiquei completamente rígido. Minha mão subiu num reflexo para cobrir a boca dela antes que ela soltasse algum som.
Ela fez um barulhinho contra a minha palma. Aí — meu Deus — mordeu. De leve. Brincando.
Meu corpo inteiro deu um sobressalto. Um calor atravessou direto por mim, como se eu tivesse encostado num fio desencapado.
Eu sentia tudo. O hálito dela, quente, contra a minha mão. Os paetês, frios, através da minha camisa. Os dedos dela escorregando por baixo do meu suéter, tocando a pele nua na minha cintura.
Arthur bateu de novo. Mais forte. “Julian. Eu sei que você está aí. A jaqueta dela está bem do lado de fora da sua porta.”
As mãos de Elle continuaram se movendo. Uma subiu pelo meu peito. A outra foi até o meu cinto.
Foco. Resolve o Arthur primeiro.
Eu agarrei o pulso dela. Mantive a mão parada. Minha respiração vinha rápida demais.
Ela ergueu o olhar para mim. Aqueles olhos verdes completamente vidrados. Ela sorriu. Devagar, preguiçosa.
Então se inclinou e colocou a boca bem perto do meu ouvido.
“Não para”, ela sussurrou. Os lábios roçaram no meu lóbulo. “Continua.”
Todo pensamento coerente que ainda me restava evaporou.
Esqueci que Arthur estava do lado de fora. Esqueci onde estávamos. Esqueci de tudo, menos da sensação do hálito dela no meu pescoço e do corpo dela colado ao meu.
Minha mão deslizou para o cabelo dela. Inclinei a cabeça dela para trás.
Ela soltou um som baixinho. Os lábios se abriram.
Eu ia beijá-la de novo quando a voz de Arthur rasgou a névoa.
“Julian!” Agora afiada. Irritada. “Me responde!”
A realidade despencou de volta.
Eu estava no meu quarto trancado com uma garota que tinha uma queda pelo meu irmão colada em mim. Ela estava bêbada. Não sabia quem eu era. E Arthur estava a dez segundos de arrombar a porta.
Eu precisava pensar. Rápido.
As mãos de Elle ainda se mexiam. Ela desfez meu cinto. Começou a puxar meu suéter.
“Eu te falei”, eu disse, a voz áspera. Mal reconhecível. “Se comporta um pouco.”
Saiu num rouco. Não alto o bastante para Arthur ouvir. Só para ela.
Ela não respondeu. Só continuou me tocando. Os dedos dela escorregaram por baixo do cós da minha calça jeans.
Eu segurei a mão dela de novo. Meu aperto firme.
Ela me olhou. Confusa. Ferida.
Então mordeu o lábio. Se inclinou. Beijou minha mandíbula. Meu pescoço. Os dentes dela rasparam na minha clavícula.
“Não para”, ela disse de novo. “Eu quero você.”
Merda. Merda.
Arthur socou a porta. “Julian. Eu consigo ouvir respiração.”
Isso estalou alguma coisa dentro de mim.
Tá. Ele queria saber quem estava aqui? Eu ia contar.
Soltei a mão de Elle. Envolvi a cintura dela com os dois braços. Puxei ela para bem junto de mim.
Então eu a beijei.
Com força. Deliberado. Alto o bastante para ele ouvir.
Elle arfou contra a minha boca. As mãos dela se agarraram aos meus ombros. Aprofundei o beijo. Fiz questão de que cada som — a respiração dela, a minha respiração, o roçar do tecido — atravessasse aquela porta fina.
Deixa ele ouvir. Deixa ele ficar na dúvida.
Quando enfim me afastei, Elle estava ofegante. As pupilas dilatadas ao máximo. Ela tentou se inclinar para mim de novo, mas eu a mantive imóvel.
Mantive um braço ao redor da cintura dela. Pressionei a outra mão, espalmada, contra a porta atrás de mim.
Arthur ficou em silêncio por um longo momento.
Então: “Julian! Responda!”
Encostei a cabeça na madeira. Fechei os olhos.
Quando falei, minha voz saiu baixa. Zombeteira.
“Relaxa, mano.” Fiz uma pausa. Deixei o silêncio se esticar. “Só uma gata de rua que entrou no meu quarto. Bem grudenta.”
Acrescentei: “Eu coloquei a Eleanor no quarto ao lado do meu; ela... já deve estar dormindo a essa hora. Não se preocupe tanto com ela — quando apaga, dorme como uma pedra. Você não devia estar mais preocupado com a sua namorada?”
Eu senti Elle se mexer contra mim. As mãos dela deslizaram de novo até a minha cintura.
“Eu tenho uma gatinha que precisa de... atenção agora; Arthur, você devia ir embora”, eu disse, deixando a palavra demorar. Fazendo soar exatamente como era.
Silêncio mortal do outro lado da porta.
Esperei. Contei as batidas do meu coração. Dez. Vinte.
Então a voz de Arthur voltou. Mais fria do que eu já tinha ouvido.
“É melhor você saber o que está fazendo, Julian.”
Passos. Se afastando. Lentos e deliberados.
Fiquei paralisado contra a porta até o som desaparecer por completo.
Aí soltei um ar que eu nem sabia que estava prendendo.
Minhas pernas pareciam fracas. Minhas mãos estavam tremendo.
Elle fez um som baixinho. Os dedos dela encontraram de novo a barra do meu suéter. Começaram a puxá-lo para cima.
“Tira”, ela murmurou. “Eu quero te ver.”
Segurei os pulsos dela. Mantive-os juntos com uma mão.
“Elle.” Minha voz falhou. “Para.”
Ela levantou o olhar para mim. Piscou devagar.
“Por quê?” O lábio inferior dela fez bico. “Você não me quer?”
Te querer? Eu te quero desde os meus quatorze anos.
Mas não assim. Não quando ela nem conseguia me ver.
“Você está bêbada”, eu disse. Forcei as palavras para fora. “Você não sabe o que está dizendo.”
Ela balançou a cabeça. Forte. Perdeu o equilíbrio. Eu a segurei antes que caísse.
“Eu sei”, ela disse. Teimosa. “Eu sei o que eu quero.”
Então ela se ergueu na ponta dos pés. Me beijou de novo.
Dessa vez eu não a afastei rápido o bastante. Ela soltou as mãos. Deslizou-as por baixo do meu suéter. As palmas espalmadas contra o meu estômago.
Meus abdominais se contraíram. Puxei o ar.
Ela sorriu contra a minha boca. Tinha sentido claramente a minha reação.
As mãos dela subiram. Pelas minhas costelas. Meu peito. Os dedos traçaram as linhas de músculo ali. Explorando. Curiosa.
Agarrei os pulsos dela de novo. Afastei as mãos.
“Elle.” Mais duro agora. “Não.”
Ela fez um som frustrado. Tentou se soltar.
Eu a conduzi para trás. Em direção à cama. Ela tropeçou. Eu a segurei. Continuei até a parte de trás dos joelhos dela bater no colchão.
Ela sentou com força. Olhou para cima, para mim.
Por um segundo — só um segundo — os olhos dela clarearam. Ela realmente olhou para mim.
Prendi a respiração.
Diz meu nome. Por favor. Só diz.
A mão dela se ergueu. Tocou meu rosto. Deslizou ao longo da minha mandíbula.
“Você é...” Ela franziu a testa. Tentando se lembrar de alguma coisa. “Você é...”
Eu esperei. Meu coração parou.
