Capítulo 5 Apenas um beijo

Ponto de vista de Julian

Então o olhar dela voltou a ficar perdido. A mão caiu.

— Arthur — ela sussurrou.

Tudo dentro de mim gelou.

Dei um passo para trás. Criei distância entre nós.

Ela disse de novo. Mais baixo.

— Arthur.

Claro. Claro que ela confundiu—

— Chega. — Minha voz saiu chapada. Morta. — Isso não tá certo.

Puxei o cobertor para cima. Cobri ela.

Ela tentou se sentar.

— Por quê? Por que você parou?

— Porque você não sabe o que está fazendo. — Eu não conseguia olhar para ela. — Você nem sabe quem eu sou.

Ela piscou para mim, confusa.

— Eu sei... Você é... Você é...

Ela não conseguiu terminar. Não sabia.

Virei de costas. Fui até a janela. Encostei a testa no vidro frio.

Atrás de mim, ouvi ela se mexendo. O farfalhar dos lençóis.

— Eu sei — ela disse, a voz ficando mais baixa. Sonolenta. — Você é... quente. E você cheira bem. E...

A frase morreu ali.

Eu me virei.

Ela estava encolhida de lado, os olhos já se fechando. O álcool e o cansaço finalmente cobrando o preço.

Vi a respiração dela desacelerar. Vi o rosto relaxar.

Ela ficava muito mais suave assim. Vulnerável. Nada parecida com a garota que estava agarrando minhas roupas com unhas e dentes cinco minutos atrás.

Sentei no chão. Encostei as costas na estrutura da cama.

Minhas mãos ainda tremiam. Eu ainda sentia o gosto dela. Ainda sentia onde ela tinha me tocado.

As marcas no meu pescoço começavam a arder. Arranhões das unhas dela. Uma marca de mordida na minha clavícula.

Eu não toquei nelas. Não queria apagar a prova de que isso tinha acontecido de verdade.

Mesmo que ela nunca se lembrasse.

Mesmo que ela tivesse pensado nele o tempo todo.

Inclinei a cabeça para trás. Encarei o teto.

— Você nunca vai me enxergar, vai? — eu disse em voz alta. Para o quarto escuro. Para o corpo dela dormindo. Para ninguém.

Nenhuma resposta. Só a respiração constante dela.

Eu fiquei ali. Sentado no chão. Com as costas apoiadas na cama.

Não dormi. Não dava.

Só fiquei ali até o céu lá fora começar a ficar cinza.


Ponto de vista de Arthur

Eu estava no corredor. Encarando a jaqueta de couro preta no chão.

A jaqueta da Eleanor. A que ela tinha usado a noite inteira.

Bem do lado de fora da porta do Julian.

Minha mão ainda estava levantada. Ainda fechada em punho de tanto bater.

Lá dentro, eu tinha ouvido—

Gata de rua. A voz do Julian. Aquele tom de deboche. A pausa calculada.

Meu maxilar apertou tanto que meus dentes doeram.

Eu sabia o que ele estava insinuando. Sabia exatamente o que ele queria dizer.

Mas não podia ser a Eleanor. Não podia.

Ela estava bêbada. Abalada. Ela nunca—

Os sons voltaram. Respiração. Movimento. Aquele suspiro.

Empurrei o pensamento para longe.

Julian e Eleanor se odiavam. Desde crianças. Toda vez que ficavam no mesmo ambiente, acabavam brigando.

No verão passado, ela despejou uma jarra inteira de limonada na cabeça dele. Ele revidou colocando sal no café dela.

No verão anterior, eles tiveram uma discussão aos berros por causa de um jogo de tênis que terminou com os dois saindo furiosos em direções opostas.

Eles não se suportavam.

Então, qualquer que fosse a coisa acontecendo naquele quarto — quem quer que estivesse naquele quarto — não era ela.

Era alguma garota da festa. Uma ficada qualquer que o Julian tinha trazido.

Isso fazia sentido. Isso encaixava.

Eu peguei a jaqueta da Eleanor. O couro estava frio.

Ela devia ter deixado cair. Largado aqui por engano quando foi para o quarto dela.

Só isso.

Eu me virei e voltei pelo corredor. Em direção ao meu próprio quarto.

Vivienne provavelmente já estava dormindo. Eu devia voltar. Tentar descansar um pouco.

Mas eu parei do lado de fora da porta da Eleanor.

Encostei a orelha nela. Escutei.

Nada. Nenhum som.

Ela estava lá dentro. Dormindo para passar a bebedeira.

Soltei um fôlego que eu nem sabia que estava prendendo.

Minha mão foi ao bolso. Encontrou o relógio de bolso que ela tinha me dado.

Passei o polegar pelo vidro.

Ela tinha sido como uma irmãzinha. Era assim que eu sempre tinha visto ela.

Eu tinha feito minha escolha. Aceitado o que a família queria. Vivienne era—

Interrompi esse pensamento. Me afastei da porta da Eleanor.

Voltei para o meu quarto.

Vivienne estava encolhida de lado, respirando baixo e regular.

Entrei na cama. Não toquei nela. Só fiquei lá, encarando o teto.

Pensando numa jaqueta preta no chão.

E no som da voz do meu irmão dizendo gato de rua.


Ponto de vista de Eleanor

Acordei com a luz do sol atravessando minhas pálpebras como uma facada.

Minha cabeça parecia que ia se partir ao meio. Minha boca tinha gosto de alguma coisa que tinha morrido lá dentro.

Gemei. Tentei me sentar.

O quarto girou. Caí de volta no travesseiro.

Onde eu estou?

Forcei os olhos a se abrirem. Semicerrei contra a claridade.

Este não era o meu quarto.

As paredes eram de madeira escura. Havia um pôster vintage de esqui na parede. Uma jaqueta de couro jogada sobre uma cadeira.

Uma jaqueta de couro masculina.

Meu coração começou a disparar.

Olhei para mim mesma. Eu ainda estava com o vestido preto de paetês da noite passada. Amassado e torcido, mas inteiro.

Tá. Tá. Vestido ainda no corpo. Isso era bom.

Sentei devagar. O quarto inclinou, mas ficou no lugar.

Tinha alguém no chão.

Me inclinei para a beirada da cama.

Julian.

Ele estava sentado com as costas apoiadas na estrutura da cama. Cabeça tombada para trás. Olhos fechados. O cabelo uma bagunça. Havia olheiras fundas sob os olhos.

E o pescoço dele—

Meu Deus. O pescoço dele.

Arranhões. Marcas vermelhas. Uma marca de mordida na clavícula, visível acima da gola do suéter.

Meu estômago despencou.

Não. Não, não, não.

Toquei meu próprio pescoço. Meus lábios. Estavam inchados.

As coisas começaram a voltar. Em pedaços. Embaçadas. Desconexas.

A festa. Tequila. Tequila demais.

As mãos de Julian na minha cintura. A boca dele—

Meu Deus do céu.

—Julian? —Minha voz saiu rouca.

Os olhos dele se abriram. Ele ergueu o olhar para mim. A expressão, cuidadosamente neutra.

—Você acordou —ele disse. Seco. Sem emoção.

Puxei o cobertor até o queixo. —Por que eu estou no seu quarto?

Ele se levantou devagar. Se espreguiçou. Ouvi a coluna dele estalar.

—Você estava bêbada demais ontem à noite —ele disse, ainda naquele tom plano. —Eu trouxe você pra cá.

Olhei para o vestido. Para o cobertor. Para ele.

—A gente... —não consegui terminar a frase. Não consegui me obrigar a dizer.

Ele me observou por um longo momento. Algo tremeluziu nos olhos dele. Depois sumiu.

—A gente se beijou —ele disse. —Só isso.

O quarto inclinou de novo. E dessa vez não tinha nada a ver com a ressaca.

—A gente... se beijou?

Ele assentiu. —Não lembra? Você me beijou primeiro.

Fitei ele. Tentei puxar a lembrança. Não veio nada além de fragmentos.

A boca dele. As mãos. A sensação de estar quente. Segura.

Arthur.

Eu estava pensando no Arthur?

—Aí as coisas saíram um pouco do controle —Julian continuou. A voz ainda plana. Distante. —Mas eu parei antes que qualquer outra coisa acontecesse.

Cobri o rosto com as mãos. —Meu Deus. Não. Isso não pode ser—

—Toma. —Algo encostou na minha mão. Levantei a cabeça. Julian estendia um copo d’água e dois comprimidos. —Isso vai ajudar.

Peguei. Minhas mãos tremiam tanto que a água derramou pela borda.

Os comprimidos eram amargos na língua. Engoli a seco. Depois bebi o copo inteiro.

Julian se sentou na cadeira em frente à cama. Me observando.

—Então a gente... —tive que forçar as palavras para sair. —Só se beijou? Nada mais?

—Nada mais. —Os olhos dele ficaram firmes nos meus. —Eu não me aproveitaria de você desse jeito.

Soltei o ar. Senti meus ombros relaxarem.

Tá. Tá. Só beijo. Isso era—

Ainda horrível. Ainda humilhante. Mas não tão ruim quanto poderia ter sido.

Olhei para ele de novo. Para as marcas no pescoço.

—Eu fiz isso? —apontei.

Ele olhou para baixo. Tocou a clavícula. —Fez.

—Desculpa. Eu não— eu não lembro—

—Tudo bem. —Ele me cortou, recostando na cadeira. —Você estava bêbada. As pessoas fazem coisas idiotas quando estão bêbadas.

Coisas idiotas. É.

Apertei o cobertor mais contra mim.

Julian ficou em silêncio por um momento. Aí disse:

—Mas, sabe... você pegou meu primeiro beijo.

Eu congelei. —O quê?

Ele ergueu uma sobrancelha, e aquele meio sorriso familiar começou a aparecer. —Ontem à noite. Foi meu primeiro beijo.

Encarei ele. —Você tá mentindo.

—Não tô. —Ele cruzou os braços. —Então... você não deveria assumir a responsabilidade?

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