Capítulo 6 O segredo

Ponto de vista de Eleanor

Meu rosto estava em chamas. — Aquele também foi meu primeiro beijo! E só aconteceu porque a gente estava bêbado!

— Eu não estava bêbado. — O sorriso de canto dele se alargou. — Você estava. Eu estava completamente sóbrio.

Joguei um travesseiro nele. Ele pegou com facilidade.

— Então que tal isso — disse ele. Inclinou-se para a frente. Os olhos presos nos meus. — Seja minha namorada. Assim, a gente fica quites.

Minha boca se abriu. — Você está falando sério?

Ele deu de ombros. — Meio sério. Mas, ei, não é uma má ideia, é?

Eu me levantei. Rápido demais. O quarto girou de novo. Agarrei a coluna da cama.

— Julian, não força a barra. — Tentei soar firme. — Isso foi um erro. Não vai acontecer de novo.

O sorriso dele sumiu. Alguma coisa mudou na expressão dele. Mas desapareceu antes que eu conseguisse entender.

— Tá — ele disse, agora baixo. — Se você diz.

Eu me virei para a porta. Precisava sair daqui. Precisava—

— Elle.

Parei. Olhei para trás.

Ele estava de pé agora. As mãos nos bolsos. Me olhando com uma expressão que eu não sabia bem nomear.

— Ontem à noite — ele disse devagar. — Você ficou repetindo um nome. Você sabe de quem era esse nome?

Meu coração parou. — Que nome?

Ele sustentou meu olhar por um longo momento.

Então balançou a cabeça. — Nada. Esquece.

Eu queria perguntar. Queria saber.

Mas estava com medo demais da resposta.

Virei de novo para a porta. Estendi a mão para a maçaneta.

Foi quando eu ouvi.

Passos no corredor. Se aproximando.

Depois uma batida. Alta e seca.

— Julian? Você tá aí?

A voz de Blake.

Eu congelei. A mão na maçaneta.

Blake continuou: — Arthur disse que ela não tá no quarto dela. Ele comentou que você talvez tivesse colocado ela no quarto ao lado ontem à noite? Ela ainda tá lá? A gente tá muito preocupado com ela.

Olhei para Julian. Olhos arregalados. O pânico subindo no meu peito.

Ele se mexeu rápido, me puxou para trás dele e abriu a porta só uma fresta.

— Não — ele articulou sem som.

Ele esfregou o nariz. — É, a gente voltou junto. Ela tava bem bêbada e não queria ir pro próprio quarto, então eu deixei ela no quarto ao lado do meu. Provavelmente ainda tá apagada. Eu vou checar ela daqui a pouco. Você desce primeiro.

— Beleza. Mas se apressa.

Os passos se afastaram.

Soltei o ar. Minhas pernas pareciam fracas.

A mão de Julian ainda estava na minha. Quente. Firme.

Eu me soltei. Dei um passo para trás.

— Julian, você não pode contar isso pra ninguém. — Minha voz saiu dura. — Tá me ouvindo? Pra ninguém.

Ele inclinou a cabeça. — E se eu contar?

Eu fuzilei ele com o olhar. — Então eu... eu...

— Vai o quê? — Ele chegou mais perto. A voz baixando.

Eu levantei o queixo. — Vou fazer você se arrepender.

Ele riu. Curto e seco. — Tá bom, Ruiva. Vou guardar seu segredo.

Ele fez uma pausa. Se inclinou só um pouquinho.

— Por enquanto.

Eu queria bater nele. Queria gritar com ele.

Mas eu não podia. Porque eu precisava que ele ficasse calado.

Respirei fundo. Alisei meu vestido. Passei os dedos no cabelo.

— Como eu tô? — perguntei.

Ele me avaliou. Devagar. — Como se tivesse sido atropelada por um caminhão.

— Obrigada. — Eu encarei ele feio.

— Mas por um caminhão bem bonito. — Ele deu um sorriso torto. — Aqui.

Ele pegou um moletom no armário e jogou pra mim.

— Veste isso. Cobre as... evidências.

Olhei para baixo. Havia marcas vermelhas bem suaves nos meus braços, onde ele tinha me segurado.

Vesti o moletom. Era enorme. Tinha o cheiro dele — um leve toque de limão.

— Melhor? — perguntei.

Ele me estudou e assentiu. — Melhor.

Caminhei até a porta. Encostei o ouvido nela.

Silêncio.

Abri só uma fresta. Espiei.

O corredor estava vazio.

Minha jaqueta tinha sumido. Alguém deve ter pegado.

Saí de fininho. Andei rápido em direção ao meu quarto.

Atrás de mim, ouvi a porta do quarto do Julian se fechar.

Cheguei ao meu quarto. Tranquei a porta. Me encostei nela.

Meu coração estava disparado. Minhas mãos tremiam.

Me olhei no espelho.

Cabelo bagunçado. Lábios inchados. O moletom do Julian caindo pelos meus ombros.

E, por baixo de tudo — a lembrança das mãos dele. Da boca dele. Do jeito que ele tinha me olhado.

Você ficou repetindo um nome.

Eu tinha? Eu tinha dito o nome do Arthur?

Eu não sabia. Não conseguia me lembrar.

Tirei o vestido. Joguei no canto. Vesti roupas limpas.

Suéter de cashmere branco. Jeans. Prendi o cabelo num rabo de cavalo.

Pronto. Normal. Como se nada tivesse acontecido.

Respirei fundo. Abri a porta.

Quando cheguei à sala, ela estava cheia de gente.

Wyatt e Blake estavam largados em um sofá. Zach fazia café na cozinha. Chloe estava encolhida numa poltrona, com uma expressão preocupada.

Todos se viraram quando eu entrei.

— Elle! — Chloe se levantou num pulo. — Você está bem? Por que você não dormiu no seu quarto original no segundo andar? — ela se inclinou mais perto. — Não era esse o lugar que você escolheu com tanto cuidado?

Forcei um sorriso. — Eu fiquei bêbada ontem à noite. — Imagens de mim puxando as roupas do Julian atravessaram minha mente, e uma onda de calor subiu pelo meu rosto.

Desviei o olhar depressa, tentando me recompor. — O Julian me ajudou a ir para o quarto ao lado do dele.

Chloe me analisou. Eu via as perguntas nos olhos dela.

Mas ela não insistiu. Só apertou minha mão.

— O Arthur e a namorada dele estão lá em cima — disse ela, baixinho. — Eles ficaram bancando os preocupados com você, mas, sinceramente, eu não suporto nenhum dos dois. Foi ele que te levou a beber daquele jeito ontem à noite. O Arthur só fingiu que se importava quando já era tarde demais.

Ela acrescentou: — Eu acho... que está na hora de você seguir em frente. E, fala sério? O Julian é muito mais bonito e bem mais interessante do que o Arthur chato de sempre.

Arthur... ele realmente só me via como uma irmãzinha. — Eu... entendi. Mas o Julian e eu... Jesus, como é que você sequer pensou que ele e eu... É completamente impossível.

— Elle.

Eu me virei. Julian estava descendo as escadas.

Ele tinha trocado de roupa. Gola alta preta. Jeans. O cabelo ainda estava úmido do banho.

As marcas no pescoço dele estavam cobertas.

Nossos olhos se encontraram. E ficaram.

De repente, Blake falou: — Ei, Julian. O que rolou com o seu pescoço hoje de manhã? Eu vi uns arranhões.

Todo mundo olhou para Julian.

Ele nem piscou. Só foi até o sofá. Sentou.

— Me arranhei — disse, casual. — Nada demais.

— Se arranhou? — Zach abriu um sorriso. — Ou alguém te arranhou?

Senti meu rosto esquentar.

Julian deu de ombros. — Não é da sua conta.

Wyatt se inclinou para a frente. — Ah, qual é, cara. Conta. Quem é a sortuda?

Julian fechou os olhos. Encostou a cabeça no encosto do sofá.

Blake de repente se endireitou e insistiu: — Peraí. Julian, hoje de manhã, quando eu bati... tinha alguém no seu quarto?

Meu coração parou.

Julian abriu um olho.

A boca dele se curvou de leve, e ele apoiou uma perna, dizendo com naturalidade: — Ninguém especial. Só uma gata selvagem que entrou no meu quarto ontem à noite.

E completou: — Eu tentei carregar ela para fora, mas ela era bem temperamental e... me arranhou. — Então ele voltou o olhar para mim, sustentando-o por um instante antes de desviar.

Engasguei com o próprio ar.

Chloe bateu nas minhas costas. — Você tá bem?

— Tô. — Tossí. — Só... a água desceu errado.

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