Capítulo 10 Ele a confundiu com a mulher de quatro anos atrás
A presença de Jonathan, de certa forma, preenchia uma parte do vazio no coração de Kathie.
Ela pigarreou.
— Vem pra fora comer uns doces.
Eileen a seguiu imediatamente. Na porta, virou-se e acenou, toda doce:
— Ei, vem logo! Os doces da mamãe são os melhores!
Quando Jonathan saiu, viu os três pequenos disputando para dar comida na boca de Kathie.
Ele percebeu que eles também estavam morrendo de vontade de comer, mas mesmo assim deram a primeira bocada para a mãe.
Era a primeira vez que ele via uma cena tão calorosa, e não conseguiu evitar um sorriso.
Para ele, por mais que Kathie fosse brava, ela tinha educado bem os filhos — eram espertos e adoráveis.
O sol foi se pondo aos poucos.
À noite, sempre parecia escurecer um pouco mais cedo no subúrbio.
Depois do jantar, Kathie deu banho nos três pequenos e, depois de uma correria, foi colocando cada um na cama. Em seguida, foi até a cozinha pegar o remédio de Jonathan.
Já tendo aprendido com as últimas vezes, Jonathan prendeu a respiração e engoliu rápido para não sentir o cheiro.
Mas, dessa vez, o remédio estava tão amargo que ele quase engasgou.
Ele franziu a testa.
— Como assim? Esse remédio é diferente do que eu tomei de dia.
Kathie deu um sorrisinho de lado.
— Esse vai te fazer melhorar mais rápido. Só acrescentei mais um ingrediente.
Jonathan a encarou.
— O que exatamente você colocou?
Kathie respondeu sem rodeios:
— Uma erva um pouquinho mais amarga que o normal.
Como ele já esperava, ela estava aprontando com ele.
— Você passa dos limites. Ainda tá de birra por causa de hoje de manhã.
— E se eu tô? Ainda tem coragem de mexer comigo? — ela retrucou, na maior calma.
Jonathan pensou: “Eu realmente não devia ter provocado essa mulher! Ainda mais sendo médica — ela pode inventar mil jeitos de se vingar de mim.”
Ele sempre foi o lado que mandava, mas agora o jogo tinha virado, e ele estava totalmente nas mãos de Kathie.
— Não, doutora Cavendish, métodos é o que não te falta — ele respondeu.
Kathie tirou um docinho do bolso como recompensa. Os olhos de Jonathan brilharam, e ele o colocou na boca na mesma hora. O sabor doce fez tudo parecer menos pior.
Essa mulher era fogo — primeiro o tapa, depois o doce. Sabia dosar castigo e recompensa.
Com o restinho de doçura na boca, Jonathan conseguiu terminar o resto do remédio.
Nunca tinha passado por tanto aperto na vida — e agora já estava mais do que suficiente.
Kathie caçoou:
— Nada mal, hein? Tá melhorando.
Jonathan rangeu os dentes. Ela ainda tinha coragem de tirar sarro dele. Limpou a boca:
— Faz dias que não tomo um banho de verdade. Tô me sentindo imundo.
Desde que Kathie o resgatara, ele não podia molhar os ferimentos, então só o limpavam com pano úmido.
À noite, no subúrbio, fazia fresco, mas de dia era bem quente. Ouvindo aquilo, Kathie percebeu que realmente havia um cheirinho estranho.
Ela cobriu o nariz de propósito e provocou:
— Tá mesmo com um cheirinho, viu.
A boca de Jonathan tremeu de irritação.
— Eu sou um ferido que não consegue se mexer. Se eu tô fedendo, a culpa não é sua, que é minha cuidadora?
Kathie empurrou a cadeira dele em direção ao banheiro.
— Você não falou nada, como é que eu ia adivinhar o que você tá sentindo? Se quiser tomar banho, é só falar.
Kathie tirou a jaqueta dele, revelando o abdômen trincado. As proporções do corpo eram perfeitas — o melhor que ela já tinha visto.
Ela engoliu em seco enquanto ajudava a tirar a calça dele e o guiava, com cuidado, para dentro da banheira.
A temperatura perfeita da água fez Jonathan relaxar completamente.
— Você ainda não pode se mexer demais, e não pode ficar de molho por muito tempo. Me chama quando terminar — disse Kathie.
Jonathan assentiu, e ela saiu para preparar outras coisas.
O cansaço dos últimos dias pareceu sumir naquele momento. Apesar do lugar pequeno, das crianças barulhentas e daquela mulher brava, Jonathan achou tudo aquilo surpreendentemente interessante.
Ele tinha planejado ir embora assim que se sentisse melhor, mas agora já não parecia ter essa intenção.
As pernas tinham voltado a ter um pouco de sensibilidade. Ele quis tentar levantá-las. Sentindo alguma resposta, apoiou as mãos na borda da banheira e tentou ficar de pé.
Mas, por mais que se esforçasse, os pés não firmavam, e ele escorregava de volta para a água, espirrando para todo lado.
Ouvindo o barulho, Kathie correu até a porta, preocupada.
— Ei, o que você está fazendo aí dentro? Já terminou?
Jonathan rangeu os dentes.
— Quase! — Ele se recusava a acreditar que não conseguiria ficar em pé.
Percebendo que havia algo errado, Kathie empurrou a porta e entrou, bem na hora em que o viu despencar para fora da banheira.
Sem pensar, seu primeiro instinto como médica foi avançar para segurar o corpo dele.
Mas seu corpo pequeno não suportou o peso de um homem tão alto e musculoso. Ela acabou amparando a queda, evitando que ele se estatelasse no chão.
Os dois caíram no piso, e Jonathan, por reflexo, protegeu a cabeça dela com as mãos, impedindo que batesse.
O corpo molhado de Jonathan estava por cima dela, e ele estava completamente nu. A intimidade daquela posição fez o rosto de Kathie corar.
— Sai de cima, seu idiota.
Jonathan ficou sem reação.
— Eu quero, mas não tô conseguindo me mexer agora.
Ele disse aquilo, mas, na verdade, não tinha tanta pressa em se levantar. O corpo dela era macio e tinha um cheiro gostoso. O coração dele disparou. Seria porque estava tanto tempo sem uma mulher?
Levando em conta os ferimentos dele, Kathie o empurrou com cuidado, fechou os olhos e tateou até achar uma toalha para cobri-lo.
— Você tá querendo morrer? Se eu não tivesse entrado agora, uma queda dessas teria jogado fora todo o tratamento dos últimos dias e piorado seus machucados.
Médico detesta paciente desobediente, e ele claramente era um deles.
Jonathan também se assustou.
— Desculpa, a culpa foi minha.
Kathie suspirou. Ela conseguia entender como uma pessoa ferida se sentia, mas aquele processo não podia ser apressado.
— Não quero que isso se repita. Você tem que seguir minhas instruções à risca, senão eu mando você embora na mesma hora. Se acontecer alguma coisa com você aqui, eu não vou ter como me explicar — ela disse.
— Tá bom. Valeu por antes.
O coração dele, normalmente frio, amoleceu um pouco quando lembrou de como ela tinha corrido para ajudá-lo sem hesitar.
A sensação de tê-la debaixo de si lhe pareceu estranhamente familiar, quase o fazendo se perguntar se Kathie era a mulher com quem ele tinha dormido quatro anos atrás.
Infelizmente, não era.
Kathie fez força para levá-lo de volta ao quarto, enxugou o corpo dele e aplicou acupuntura.
Por causa da queda, ela não se atreveu a inserir as agulhas muito fundo.
Na manhã seguinte, Kathie estava separando algumas ervas, se preparando para sair.
Eileen rodeava a mesa.
— Mamãe, você vai pra onde?
Kathie acariciou de leve o rostinho fofo de Kyle.
— A mamãe vai ver a bisa. Cuida dos seus irmãos pra mim, tá? — Ela lançou um olhar rápido para Jonathan na cadeira de rodas. Como ele não podia ajudar em nada mesmo, preferiu ficar calada.
Jonathan não entendeu nada.
Ela estava simplesmente o ignorando, e a expressão no rosto dela soava profundamente ofensiva.
— Mamãe, eu quero ir com você — disse Kyle.
— Eu também. Quero ver a bisa — Eileen emendou.
Kathie os acalmou com carinho:
— Se comportem. A mamãe tem outras coisas pra resolver hoje. Eu levo vocês da próxima vez.
Ela não queria que as crianças vissem o lado sem vergonha da família Cavendish. Além disso, tinha certeza de que daria de cara com Randy e a amante dele, e os filhos só atrapalhariam.
Kyle, o mais compreensivo, disse:
— Fica tranquila, mamãe. Eu cuido deles. Volta logo.
Jonathan franziu a testa e se aproximou.
— Você não tem nada pra me dizer?
Kathie pensou por um instante.
— Tenho.
Os olhos de Jonathan brilharam, só para ela completar:
— Só não arruma confusão.
Jonathan ficou sem palavras.
