Capítulo 4 Eu posso curar você
Durante os anos em que morou no exterior, Kathie trabalhou incansavelmente para sustentar os filhos. No começo, a colega de quarto ajudava a cuidar deles, mas, depois que ela voltou para a própria casa, as crianças foram aprendendo, aos poucos, a se virar sozinhas.
Isso deixou a vida de Kathie bem mais fácil.
Kathie foi ao shopping mais próximo para comprar itens de casa e coisas para as crianças. Também escolheu algumas roupas para elas e, em seguida, foi para a seção masculina.
As roupas do homem estavam todas rasgadas. Por bondade, ela decidiu comprar umas peças para ele.
Ele não podia ficar nu para sempre.
Enquanto ela escolhia, a TV acima dela transmitia as últimas notícias: “Recentemente, Jonathan, o novo presidente do Grupo Berkeley, sofreu um acidente de carro. Segundo informações, o veículo perdeu o controle por excesso de velocidade, caiu de um penhasco e explodiu. No entanto, Jonathan não foi encontrado no local. Se houver alguma testemunha, por favor entre em contato com a família. Está sendo oferecida uma recompensa.”
Kathie ergueu o olhar, mas a imagem passou rápido demais e ela não conseguiu ver direito.
Ela queria saber como era o rosto de Jonathan, mas perdeu a chance.
Esperou mais alguns blocos de notícias, mas não falaram mais nada sobre Jonathan.
Vendo que já estava tarde, Kathie decidiu voltar para casa.
Do outro lado da loja, Shirley também estava na seção masculina. De relance, ela notou uma figura familiar e fez uma pausa. Olhou com mais atenção.
Era uma mulher deslumbrante, com um corpo perfeito, escolhendo roupas masculinas com elegância.
Shirley achou aquela mulher estranhamente familiar.
Ela franziu a testa e, a contragosto, arriscou um palpite: aquela mulher linda era a meia-irmã dela!
Kathie!
Ela tinha reaparecido?
Quando viu que Kathie estava prestes a ir embora, Shirley correu atrás dela, mas a multidão bloqueou seu caminho, e Kathie sumiu rapidamente.
Por que aquela vadia estava andando tão rápido?!
Praguejando, Shirley fez uma ligação: “Randy, acabei de ver a Kathie. Não tem como eu ter me enganado. Descobre onde ela está morando. Desta vez, a gente não pode deixar ela escapar!”
Naquela época, Kathie tinha fugido sem nem terminar o processo de divórcio, deixando Shirley em uma situação constrangedora com Randy. Mesmo tendo um filho com ele, ela ainda era alvo de fofoca entre as madames ricas.
Depois de quatro anos, ela precisava fazer Kathie e Randy concluírem aquele divórcio!
As três crianças estavam se comportando bem, sem arrumar confusão. Zachary jogava xadrez com Eileen, enquanto Kyle lia um livro e, de vez em quando, ajudava Eileen nas jogadas.
Não demorou para Eileen ficar inquieta. Ela entregou as peças de xadrez para Kyle.
“Vou lá ver se o moço bonito acordou!”
Antes que Kyle e Zachary pudessem reagir, Eileen já tinha disparado na frente, obrigando os dois a irem atrás dela.
“O moço bonito ainda tá dormindo? Será que ele morreu?” Eileen apoiou as bochechas gordinhas com as mãos, os olhinhos inocentes fixos em Jonathan, deitado na cama.
Zachary disse:
“Impossível. As habilidades médicas da mamãe são de primeira. Ela com certeza vai salvar ele.”
Kyle verificou a respiração do homem e falou com calma:
“Ele ainda tá vivo.”
Eileen soltou um suspiro aliviado.
“Que bom. Ele é alto e forte. Pode ajudar a mamãe em um monte de coisa, tipo colocar as ervas pra secar.”
Jonathan continuou em silêncio.
Do que eles estavam falando?
Por que tinha tanto barulho ao redor dele?
Parecia um bando de pardais piando sem parar.
Jonathan franziu a testa e abriu os olhos lentamente.
“Ele acordou!” Eileen gritou.
A primeira coisa que Jonathan viu foi uma garotinha delicada, parecendo uma boneca linda. Ele ficou sem reação por um instante.
Zachary falou depressa:
“Kyle, ele acordou!”
Kyle se inclinou, encarando Jonathan, e disse num tom maduro:
“Você acordou. A mamãe disse que, se você acordasse, ia ficar tudo bem.”
Como pequenos cogumelos, três crianças idênticas apareceram uma depois da outra. A voz de Jonathan saiu rouca quando ele perguntou:
— Onde é que eu tô?
Kyle respondeu:
— Aqui é na periferia de Eldoria, na casa da nossa bisavó.
Jonathan perguntou:
— Foi a família de vocês que me salvou?
Eileen deu uma risadinha.
— Foi a minha mamãe que salvou você. Como é que você caiu de um lugar tão alto?
Os olhos de Jonathan ficaram frios na mesma hora.
Naquela hora, alguém tinha mexido no carro dele. Enquanto dirigia pela estrada da serra, o carro saiu do controle e despencou do penhasco.
Por sorte, ele conseguiu pular do carro antes da batida, rolou pela encosta e acabou sendo segurado por uma árvore, que diminuiu a queda. Depois disso, não lembrava de mais nada.
Tinha sido a mãe delas que o salvara?
Jonathan perguntou de novo:
— Onde está a mamãe de vocês?
— Ela foi fazer compras.
— E a avó de vocês?
— Tá no céu. Aqui é só nós três e a mamãe.
Jonathan perguntou, como quem não quer nada:
— E o pai de vocês?
As três crianças ficaram em silêncio.
Zachary fez biquinho.
— Moço, você faz pergunta demais.
Jonathan ficou sem palavras.
Era a primeira vez na vida que ele levava um fora de uma criança.
— Moço, toma água — disse Eileen, estendendo um copo para ele. — Qual é o seu nome? Você é de onde?
Jonathan olhou para a menininha fofa e não conseguiu deixar de se enternecer. Pegou o copo e tomou uns goles.
Como ele não respondeu, Zachary franziu a testa.
— Será que ele tá sofrendo de amnésia?
Eileen ficou espantada.
— Amnésia?
Zachary confirmou com a cabeça.
— Você nunca viu na TV? A maioria das pessoas que sofre acidente de carro perde a memória. Aposto que ele também perdeu. Se não, por que ele não responde?
Jonathan ficou entre divertido e irritado com aquelas crianças espertinhas.
Nesse momento, a campainha tocou.
Os olhos de Eileen brilharam.
— A mamãe deve ter voltado!
Os três correram ao mesmo tempo.
— Mamãe!
Eileen já ia abrir a porta quando Kyle a segurou.
Os três pararam e espiaram pela fresta, vendo uma estranha do lado de fora.
— Quem é você? — perguntaram em coro.
— Oi, pequeninos. Cadê os pais de vocês? Eu sou a faxineira que a família de vocês contratou... — Nola Rivera, a faxineira, ficou toda contente ao ver os trigêmeos idênticos.
— Ah, a gente não sabe. Volta depois! — disseram, e saíram correndo para dentro de casa.
Nola ficou sem entender.
O que estava acontecendo ali?
Eileen se virou para Kyle.
— Não era pra gente deixar ela entrar?
Kyle respondeu:
— Se não for a mamãe, a gente não abre a porta pra ninguém.
Kathie voltou pra casa às pressas, depois de várias ligações da Nola. Quando chegou, Nola já tinha ido embora, irritada.
Kathie ia ter que arrumar outra pessoa.
Assim que Kathie entrou, Eileen correu até ela.
— Mamãe, o homem bonito acordou!
— Sério? Quando foi que ele acordou? Ele falou alguma coisa? — perguntou Kathie.
Ela então largou as coisas e entrou no quarto de hóspedes.
Kyle e Zachary estavam lá, enquanto Eileen contava o que tinha acontecido e fuçava dentro de um pacote de salgadinhos. Kyle e Zachary também estavam de olho nos petiscos.
Kathie se aproximou da cama e pousou delicadamente a mão na testa de Jonathan para conferir a temperatura.
A proximidade repentina fez Jonathan prender o fôlego.
Ele não esperava que a pessoa que o tinha salvado fosse uma mulher tão jovem e bonita.
— Foi você que me salvou? — Jonathan perguntou.
— Fui, sim. Você ainda tá com um pouco de febre. Vou preparar um remédio pra você tomar. — Kathie continuou examinando Jonathan. Vendo que ele tentava se mexer, falou com firmeza: — Não se mexe. Sua perna direita e seu braço esquerdo estão quebrados. Você não pode levantar ainda.
— O quê? — Jonathan ficou chocado. Ele nem tinha percebido que o braço e a perna estavam dormentes. Tinha escapado por pouco da morte, pra acabar aleijado?
Kathie olhou para o rosto frio de Jonathan e suavizou a voz.
— Calma. Eu consigo te curar.
