Capítulo 5 Ela o chama de sete

Apesar da tentativa de tranquilizar dele, Jonathan ainda se sentia inquieto.

Fora o médico particular da família, ele achava difícil acreditar que alguém tão jovem pudesse ser muito habilidoso em medicina.

Vendo a expressão de Jonathan, Kathie arqueou a sobrancelha.

— Você não acredita em mim? Tudo bem, então manda a sua família te levar pro hospital logo, antes que você acabe grudado em mim.

Jonathan franziu os lábios. Não era uma boa hora pra chamar alguém pra buscá‑lo.

— Quando é que meu braço e minha perna vão sarar? — ele perguntou.

— Não sei — respondeu Kathie.

Jonathan se irritou.

— Você não disse que sabia me tratar? Como é que não consegue me dar uma resposta certa?

Kathie tirou a mão com que o examinava.

— Abaixa o tom. Minha boa vontade não é infinita. Me dá o seu celular que eu ligo pra sua família vir te buscar.

Ela já sabia que ele ia dar trabalho e, dito e feito, tava mesmo. Era melhor se livrar logo dele.

— Eu não sei — disse Jonathan, sem graça.

Kathie ergueu a sobrancelha, cruzou os braços e ficou encarando ele.

Eileen empurrou a porta e entrou, falando toda empolgada:

— Mamãe! Você trouxe os cachorrinhos?

Kathie não respondeu, em vez disso perguntou:

— Qual é o seu nome e de onde você é? No noticiário falaram que o diretor‑presidente do Grupo Berkeley, o Jonathan, sumiu depois de um acidente de carro. É você?

Jonathan respondeu com calma:

— Não.

— É mesmo? — Kathie não acreditou.

— Mamãe, ele tá sem memória — Eileen se meteu.

— Sério? — Kathie encarou o rosto de Jonathan. — Vai bancar o sem memória agora?

Jonathan soltou uma das mãos e, de repente, percebeu que estava pelado. Franziu a testa:

— Cadê a minha roupa?

— Sua roupa tava toda rasgada. Veste isso aqui — disse Kathie, jogando duas sacolas pra ele.

A expressão de Jonathan ficou ainda mais carregada.

— Foi você que tirou a minha roupa?

— Quem mais seria? — Kathie pegou um conjunto de roupa de ficar em casa pra vestir nele.

Jonathan se sentiu meio desconfortável, mas não tinha escolha. Aquela mulher tinha um gênio forte e agia rápido.

Enquanto isso, Shirley tinha voltado correndo pra casa pra esperar Randy. Ela estava acalmando o filho enquanto algumas funcionárias da faxina arrumavam tudo.

Uma das faxineiras, Nola, resmungou:

— Você não vai acreditar. Hoje eu fui numa casa onde só tinham três crianças. Não me deixaram entrar e me fizeram esperar uma eternidade.

— Que saco. Se contratam alguém, tem que ter um adulto em casa. Qual é o sobrenome deles? Melhor a gente evitar pegar serviço com esse povo no futuro.

Nola pensou um pouco.

— Acho que o sobrenome era Cavendish.

Shirley ouviu e imediatamente perguntou:

— O que você disse?

As faxineiras trocaram olhares, pensando: “Ih, a gente esqueceu que essa família também é Cavendish.”

Alheia à fofoca, Kathie estava ocupada.

Dois dias arrumando a casa e cuidando do homem de perna quebrada tinham acabado com o tempo livre dela.

— Sete, toma o seu remédio — disse Kathie, colocando a tigela de remédio em cima da mesa. Já que ele estava acordado, não ia querer que ela desse na boca.

Jonathan fez uma careta ao engolir o remédio e logo tomou um gole grande de água.

— Por que você me chama de Sete?

Kathie enfiou um doce na boca dele.

— Você não quer me dizer seu nome nem seu endereço, vou te chamar de quê então?

Jonathan arregalou os olhos, sem poder fazer nada enquanto via Kathie ir embora. Aquela mulher mudava de atitude muito rápido.

Depois de um tempo, Kathie trouxe comida e colocou em cima da mesa antes de sair de novo.

Jonathan olhou a canja e os pratos desconhecidos, franzindo ainda mais a testa.

Naquele dia, Kathie comprou uma cadeira de rodas automática e botou Jonathan sentado nela. Como o tempo estava bom, empurrou ele pra fora pra pegar um pouco de sol.

Alguns dias antes, Jonathan tinha tido uma reação alérgica a conserva de legumes, enchendo-se de manchas que só agora tinham começado a sarar.

Kathie achou aquilo estranho. Kyle era alérgico a conserva de legumes, e agora Jonathan também era.

Então, às escondidas, Kathie tirou sangue de Jonathan e comparou com o DNA de Kyle. O resultado mostrou que Jonathan não era o pai biológico das crianças.

Isso a deixou tranquila.

— Kathie, sua descarada! Você tem um amante e ainda não quer se divorciar! — gritou Shirley.

A voz dela ecoou, e Kathie ergueu a sobrancelha.

Eles a encontraram tão rápido?

Jonathan ergueu a cabeça.

— Quem?

Kathie sorriu, ignorando a pergunta dele, e perguntou:

— Você quer ficar aqui ou entrar?

— Ficar aqui — ele respondeu.

Jonathan tinha finalmente saído um pouco para fora e não queria voltar pra dentro tão cedo.

As plantas escondiam a parte de cima do corpo dele, então quem estava do lado de fora não conseguia ver seu rosto.

As três crianças ouviram a gritaria e correram para fora.

— Mamãe, quem chegou?

— Gente vendendo coisa. Voltem pra dentro e não saiam. — Kathie os barrou e então foi até o portão.

Ela viu o rosto furioso de Shirley e, atrás dela, Randy.

Eles tinham descoberto onde Kathie morava, mas Randy estivera viajando a trabalho; se não fosse isso, já teriam aparecido antes.

Randy só viu a silhueta de um homem e, em seguida, reparou em como Kathie tinha ficado bonita, sentindo uma pontada de ciúme.

— Kathie, quem é aquele homem? — ele perguntou.

— Não te interessa — rebateu Kathie.

Shirley deu uma risada debochada:

— Kathie, sua vagabunda! Você já tem outro homem, por que não se divorcia logo do Randy e deixa a gente ficar junto?

Kathie respondeu friamente:

— Enquanto eu não me divorciar, você vai ser sempre a amante do Randy, uma qualquer sem respeito!

— Kathie! — Shirley socou o portão. — Sua sem-vergonha! Você dormiu com outro homem, teve filhos bastardos e agora ainda quer se agarrar ao Randy?

Os olhos de Kathie gelaram.

— Quem você tá chamando de bastardo?

Shirley sentiu um arrepio sob o olhar de Kathie, mas criou coragem e disse:

— Tô falando dos seus três bastardos!

Kathie estreitou os olhos, perigosamente, e abriu o portão.

Shirley levantou o queixo, pronta para entrar.

Mas Kathie levou os dedos à boca e assobiou. Três cachorros vieram correndo em disparada.

Shirley gritou:

— Aaah! Cachorro!

O rosto de Randy também mudou. Um dos cães mordeu a barra da calça dele, fazendo-o soltar um grito de dor enquanto tentava se soltar.

— Três! Morde! Morde os malvados! — Eileen bateu palminha, empolgada.

— Quatro, corre atrás! Cinco, corre mais rápido! — Zachary também torcia.

Ao ouvir esses nomes, a sobrancelha de Jonathan deu um espasmo.

Então era assim que ele tinha ganhado o próprio nome.

Randy, que naquele momento estava fugindo dos cachorros, tinha sido recentemente reconhecido pela família e, tecnicamente, tinha que chamar Jonathan de primo.

Quando Randy se casou, Jonathan compareceu ao casamento.

Jonathan chegou atrasado e não viu a noiva, mas soube que ela fugiu dois meses depois, e Randy se envolveu com a irmã postiça dela, tendo um filho.

O rosto de Jonathan escureceu ao pensar: “Será que a Kathie é a noiva fujona do Randy?”

Randy finalmente conseguiu entrar no carro e, ao olhar para o portão, viu as três crianças ali e ficou estarrecido com o quanto elas se pareciam com ele.

— Kathie, essas crianças... — chamou Randy.

Kathie bufou, cortando-o:

— Fica tranquilo. Com esses seus genes de quinta, você nunca teria filhos tão fofos e incríveis. Agora cai fora!

— Sai, cachorro desgraçado! — Shirley gritava de medo. — Kathie, sua desgraçada, tira esses cachorros daqui!

Randy abriu a porta do carro.

— Shirley, entra no carro!

— Kathie, você vai pagar por isso! Eu não vou te deixar em paz! Ai! Tá me mordendo! Randy, me ajuda! — Shirley xingava enquanto corria para o carro.

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