Capítulo 6 Sete, seus ouvidos estão muito vermelhos

Vendo os dois se jogarem dentro do carro, Kathie ficou de mãos na cintura, gritando, furiosa:

– Gente feito vocês tinha era que soltar os cachorros em cima. Se tiverem a ousadia de voltar aqui pra arrumar confusão, eu solto os cachorros pra cima de vocês.

Shirley, revoltada e com dor, chorava de raiva, lágrimas escorrendo pelo rosto.

– Randy, olha como ela tá humilhando a gente. Você tem que fazer ela pagar por isso.

Randy gritou de volta:

– Kathie, não se acha, não. Machucar os outros é contra a lei. Eu não vou deixar isso barato.

Kathie nem se abalou.

– Cai fora. Se continuar latindo, eu jogo os cachorros aí dentro do carro pra ver se você é macho mesmo.

Ao ouvir isso, o pessoal dentro do carro não se atreveu a provocar mais. Os dois estavam machucados e precisavam de atendimento médico urgente.

– Kathie, me espera. Essa história não acaba aqui – rosnou Randy.

Kathie deu um sorriso de desprezo:

– Aí você falou a única verdade até agora.

Vendo que ela ia chamar os cachorros de novo, Randy pisou fundo no acelerador e saiu em disparada.

Jonathan se inclinou um pouco pra frente, surpreso por presenciar aquela cena.

– Ele é seu marido? – perguntou.

Kathie rebateu na hora:

– Claro que não. Um cara daqueles é um zero à esquerda.

Ela definitivamente tinha fogo nas veias. Do jeito que ela enfrentava todo mundo, parecia que tinha um exército inteiro atrás dela.

– Você parece odiar ele. Esses filhos são de quem?

– As crianças não têm nada a ver com ele. Não vou dizer que eu odeio, mas não suporto aquele cara.

Percebendo a confusão dele, Kathie falou friamente:

– A gente não é íntimo, então não enfia o nariz onde não é chamado. Melhora logo e vai embora. Aliás, eu tô anotando tudo que tô gastando pra cuidar de você. Não vem me dar calote, não.

Jonathan já tinha sentido na pele o quanto ela era mão de vaca.

As três crianças bateram palminha, felizes.

– Mamãe, você é demais! Você acabou com os vilões!

Mas Kathie não estava nada contente. O aparecimento de Shirley e Randy significava que os dias tranquilos dela com as crianças tinham acabado. Se acharam ela hoje, iam continuar voltando.

Antes, ela sabia se virar sozinha. Agora, com três filhos e um homem ferido e sem memória em casa, ela precisava de um plano pra proteger todo mundo.

– Lembrem: se aparecer alguém estranho, não abram a porta – disse Kathie.

Kyle estufou o peito.

– Fica tranquila, mamãe. Da outra vez a gente nem deixou a empregada entrar.

Kathie ficou em silêncio, pensando: “Bom, melhor prevenir do que remediar.”

Zachary falou:

– Mamãe, se você estiver em perigo, não enfrenta sozinha. Eu e o Kyle vamos ser seus heróis. A gente pode te proteger.

Eileen, fazendo carinho no cachorro Três, disse toda meiga:

– Eu também posso ajudar, mamãe. Vou dar bastante comida pro Três, pra ele ficar bem grandão e proteger você.

Kathie abriu os braços e abraçou os três pequenos. Não importava a dificuldade, eles sempre passavam por tudo juntos. Dessa vez não seria diferente.

Jonathan estava intrigado. Tinha ouvido dizer que Randy e a esposa estavam juntos há anos e eram muito próximos. Então como Kathie acabou grávida de outro homem? E por que ela tinha sumido todos aqueles anos?

Quem era o pai daquelas crianças?

Ele tinha visto a expressão dura dela mais cedo, claramente escondendo algum segredo.

A noite caiu rápido no subúrbio. O que aconteceu naquele dia não abalou muito Kathie e os filhos. Ela colocou todos pra dormir cedo.

Sob o céu escuro, uma figura se aproximou da casa, mas foi espantada pelos latidos dos cachorros, acordando Jonathan lá dentro.

Jonathan fez força pra se ajeitar na cadeira de rodas, espiou o cômodo ao lado pra ter certeza de que não havia movimento nenhum e então saiu em silêncio.

Os cachorros já tinham se acostumado com o cheiro dele nos últimos dias, então não latiram.

Jonathan viu uma luzinha tremeluzir debaixo de uma árvore e foi até lá com a cadeira de rodas.

Ben Cooper apareceu, com cara de culpado.

— Foi mal, não consegui entrar.

O combinado era ele encontrar Jonathan lá dentro, mas, com aqueles cachorros por perto, ele estaria morto se tentasse entrar escondido.

Jonathan entendia as precauções de Kathie. Morando sozinha com crianças no subúrbio, ela precisava ser cuidadosa.

Cachorros eram mais leais do que gente e nunca trairiam ela.

— Que alívio que você tá bem. A gente achou que você tinha morrido — disse Ben, com os olhos vermelhos.

Jonathan reparou em como ele estava preocupado.

— Fica tranquilo, eu não vou morrer. Como estão as coisas em casa?

— Seu avô desmaiou quando soube da notícia. Já acordou, mas não tá nada bem. Seu pai e seus irmãos estão se revezando pra cuidar dele — respondeu Ben.

Como ele já imaginava, o avô não aguentou o choque.

— Volta lá e dá um jeito de contar pro meu avô que eu tô vivo. Ele não precisa ficar preocupado — disse Jonathan.

Ben assentiu.

— Você não vai voltar comigo? Você tá gravemente ferido. Devia receber um tratamento médico de verdade.

Jonathan balançou a cabeça.

— Não posso voltar agora. No dia do acidente, mudaram o meu trajeto e mexeram no meu carro. Alguém queria me ver morto. Eu preciso ficar afastado pra ver qual vai ser o próximo passo dessa pessoa.

Jonathan sabia que não era algo simples. Como jovem chefe da Família Berkeley, ele tinha muitos inimigos.

Quem mais tivesse a ganhar com o desaparecimento dele era o culpado.

Ben ficou apreensivo:

— E os seus ferimentos? Quer que eu entre em contato com o seu médico particular, em segredo?

Jonathan lembrou da expressão feroz de Kathie e deu uma risada baixa.

— A pessoa que me salvou é médica. Se ela conseguiu me deixar sentado, vai conseguir me fazer andar.

Era a primeira vez que Ben via Jonathan falar tão bem de alguém. Ele ia responder, quando viu uma luz se acender dentro da casa.

— Seven? É você aí fora? — perguntou Kathie.

Assim que Kathie falou, Ben se escondeu rápido atrás da árvore. Jonathan fez sinal pra ele ficar quieto ali.

— Seven, o que você tá fazendo aí fora? — Kathie perguntou de novo.

Desde que Jonathan descobriu a origem daquele nome, ele passou a se sentir estranho. Precisava dar um jeito de mudar isso.

Vendo que ela tinha saído, ele inventou uma desculpa:

— Eu ouvi os cachorros latindo e fiquei com medo daqueles dois voltarem, então vim conferir.

O coração de Kathie se aqueceu.

— Não imaginei que você fosse tão precavido. Mas fica tranquilo, esses cachorros são treinados. Se aparecer algum bandido, não vai sobrar nem os ossos.

Ben, ali perto, gelou de medo. Se tivesse tentado entrar escondido, ia ter um fim horrível.

Essa mulher era assustadora. Jonathan que se cuidasse.

— Vou te levar de volta pra dentro. Você tá machucado, não devia ficar se mexendo. Se precisar de alguma coisa, é só me chamar — ela disse.

As mãos macias de Kathie empurraram a cadeira de rodas, e a brisa leve trouxe o perfume doce dela, aguçando os sentidos dele.

Jonathan teve a impressão de já ter sentido aquele perfume em algum outro lugar, e o coração disparou.

Kathie o ajudou a voltar para o quarto. A luz suave batia nela, deixando-a ainda mais bonita, fazendo Jonathan se lembrar da noite de quatro anos atrás, da mulher tão macia debaixo dele.

Só de lembrar, o corpo dele esquentou. Aquela noite tinha sido perfeita.

— Seven, suas orelhas estão vermelhas. Você tá se sentindo mal? — perguntou Kathie.

Ela achou que ele podia ter pegado um resfriado por ter ficado lá fora.

Jonathan sorriu.

— Um homem sozinho com uma mulher bonita... Isso é uma reação normal em qualquer homem.

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo