Capítulo 7 Desejos despertados

Kathie estava preocupada que Jonathan pudesse estar se sentindo mal, mas ele parecia ocupado com outra coisa.

Ela pousou a mão no ombro dele e provocou:

— Precisa de uma ajudinha aí?

O rosto de Jonathan se abriu num sorriso autossatisfeito.

— Eu não gostaria de incomodar, doutora Cavendish… mas se a senhora insiste...

Kathie puxou uma agulha prateada, com um sorriso travesso.

— Não é trabalho nenhum. Uma picadinha disso aqui e você vai pensar duas vezes antes de ter esse tipo de pensamento.

Jonathan rapidamente se cobriu, de repente bem consciente de que Kathie — habilidosa e de temperamento forte — não era alguém com quem se devesse brincar.

— Eu só tava brincando! Você não levou a sério, levou? — ele perguntou, aflito.

— Tem certeza de que estava brincando? Se você realmente estiver desconfortável, eu posso ajudar a aliviar sua dor — disse Kathie, com um sorriso doce que não chegava aos olhos.

— Não precisa. Já é tarde, e não é apropriado a gente ficar sozinho aqui. É melhor você voltar.

— Esperto da sua parte.

Kathie revirou os olhos e saiu. A voz suave dela ecoou na mente de Jonathan, mantendo‑o acordado muito tempo depois que ela se foi.

Quando o dia amanheceu e os pássaros começaram a cantar lá fora, Jonathan abriu os olhos e tentou se sentar, só para descobrir que não conseguia mexer as pernas. Será que ela tinha mentido sobre poder curá‑lo?

Ele deu murros nas próprias pernas, frustrado, sem sentir nada, e arremessou com raiva um copo do criado‑mudo, que se espatifou no chão.

O barulho fez Kathie ir até lá às pressas, encontrando‑o fervendo de raiva.

— Quebrar copo quer dizer que você vai pagar por ele. E lembra que esse tipo de coisa incomoda os outros e pode assustar meus filhos. Se fizer isso de novo, eu ponho você pra fora — disse Kathie, a voz cortante de irritação.

Jonathan pensou: “Essa mulher é rígida e brava, e ainda tá me ameaçando jogar na rua.”

— Você disse que podia me curar. Por que eu não consigo mexer as pernas? — ele perguntou.

— Meu senhor, eu sou médica, não faço milagre. Cura leva tempo, principalmente em um ferimento grave como o seu. O fato de você já conseguir se sentar e mexer os braços já é um milagre. Se não confia em mim, posso mandar você embora agora mesmo — retrucou Kathie.

Ela cruzou os braços, claramente impaciente com aquele paciente difícil.

Jonathan percebeu que estava sendo impaciente.

— Como médica, você não podia ser um pouco mais delicada? — ele disse.

— Se você quer médico fazendo carinho, tenta uma ala VIP de hospital de luxo, com enfermeira cheia de conversa. Caso contrário, se comporta — rebateu Kathie.

Jonathan fervia de raiva, mas Kathie não conseguiu segurar uma risada diante da frustração dele.

— Tá bom, a sua condição precisa de tempo pra melhorar. Eu cumpro o que prometo. Se eu disse que vou curar você, eu vou. Agora relaxa e colabora com o tratamento — acrescentou.

Ele não tinha escolha a não ser aguentar por enquanto.

Kathie puxou o cobertor para examiná‑lo e percebeu a ereção matinal dele, o que a fez desviar o olhar, constrangida.

Ela já tinha visto aquilo antes, como médica — então por que, de repente, estava tão desconcertada?

Respirou fundo e se virou de volta, só para encontrar Jonathan observando‑a, com um brilho divertido nos olhos.

— Doutora Cavendish, ereção matinal é normal em homem. Não tô te provocando — ele disse.

Como ela não respondeu, a voz grave de Jonathan cortou o silêncio:

— Você pode trazer minha cadeira de rodas e me ajudar a ir até o banheiro? Eu sou paciente, afinal.

Irritada, mas eficiente, Kathie trouxe a cadeira de rodas, ajudou‑o a se sentar com cuidado e o acompanhou até o banheiro.

Ela disse:

— Só pra avisar: meus honorários de cuidadora não são baratos, viu?

— Fica tranquila — respondeu ele, à vontade. — É só dizer quanto quer.

Ela vivia falando de dinheiro, mas ele não hesitava em pagar o que quer que ela pedisse.

Kathie gostou do som disso. Depois de arrumar o quarto dele, foi preparar o café da manhã.

Assim que ela saiu, uma menininha fofa espiou pela porta.

— Bom dia, senhor Bonitão!

O coração de Jonathan derreteu ao vê‑la, e um calor inesperado por aquelas três crianças tomou conta dele.

— Bom dia, Eileen — ele respondeu.

— Quer leite? A mamãe diz que ajuda a crescer.

Já com quase um metro e oitenta, Jonathan não precisava crescer mais, mas ainda assim assentiu diante da preocupação de Eileen.

Eileen trouxe uma garrafinha de leite e se enfiou na cama, decidida a alimentá‑lo ela mesma.

Kathie entrou e deu de cara com a filha, normalmente tão reservada, sorrindo enquanto o alimentava com um canudinho.

— Eileen, desce daí! O que a mamãe falou sobre ficar longe de estranhos?

Eileen balançou a cabeça, ainda com um sorriso radiante.

— Ele é uma boa pessoa. Ele não vai me enganar.

Kathie suspirou, percebendo que seus avisos anteriores tinham entrado por um ouvido e saído pelo outro.

— Se você der o leite pra ele, o que a mamãe vai beber? — Kathie perguntou.

Eileen abriu um sorriso arteiro.

— Você divide com ele, mamãe!

Kathie não suportava beber depois de outra pessoa. Lançou a Jonathan um olhar de aviso, pegou a filha no colo e a levou para fora para uma bronca séria.

Depois do café da manhã, Kathie começou a preparar o remédio do dia. Assim que terminou, o telefone tocou.

Ao ver o número conhecido, uma onda de emoções a invadiu. Ela atendeu:

— Vó.

— Kathie, é você mesmo? Onde você se meteu todos esses anos? Sumiu sem deixar rastro e não deu mais notícia. Esqueceu da sua família?

A voz da avó tinha um leve tom de repreensão, mas a alegria transparecia.

— Desculpa, vó. A culpa é minha. Como é que eu ia esquecer da senhora? Eu senti tanta saudade.

Kathie já nutria havia muito tempo um ressentimento pelo pai parcial e pela madrasta hipócrita, mas a avó sempre a amara de verdade. Ela tinha a intenção de visitar assim que estivesse estabilizada, mas as circunstâncias sempre atrapalhavam.

— Se tá com saudade, volta. Me conta se alguém tá te tratando mal. Enquanto eu estiver aqui, não vou deixar ninguém pisar em você.

— Tá bom, vou ver a senhora assim que terminar o que tenho pra fazer aqui. Vó, se cuida.

Kathie já esperava que a família a procurasse depois de ver Shirley ontem. Sabendo que os pais não conseguiriam convencê‑la, mandaram a avó querida em seu lugar.

Queriam que Kathie voltasse, se divorciasse de Randy e abrisse caminho para Shirley se casar com ele.

Kathie desligou e percebeu Jonathan observando‑a com atenção.

— Cadê a sua educação? Como é que você fica ouvindo a ligação dos outros? — ela disse, indignada.

Imperturbável, Jonathan aproximou a cadeira de rodas.

— Conta como escuta se foi tudo às claras? Você disse que tava na hora do meu remédio, e como você não apareceu, tive que vir te procurar… e simplesmente te peguei no telefone.

Kathie lembrou e lhe entregou a tigela com o remédio.

— Já que você veio, toma sozinho.

O cheiro ruim subiu, e o líquido escuro fez Jonathan se retrair.

— Esse remédio é muito amargo. Você não pode me dar uma coisa mais normal? — ele reclamou.

— Não, você tem que tomar agora. Se esfriar, perde o efeito. — Vendo a hesitação dele, Kathie provocou: — E eu pensando que você era durão. Tá mesmo com medo de um remedinho? Meus três filhos são mais corajosos que você.

Jonathan suspirou e pegou a tigela, sabendo que não tinha escolha a não ser beber tudo.

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