Capítulo 9 Esta mulher é feroz, implacável e vingativa
Depois de uma manhã agitada, quando as três crianças finalmente pegaram no sono, Kathie teve que fazer o tratamento de acupuntura no Jonathan e, claro, fazê‑lo tomar o remédio.
Dessa vez, ela colocou um doce ao lado da tigela de remédio.
— Aqui, toma tudo — disse, colocando o doce na frente dele.
Jonathan olhou para o doce e perguntou:
— Por quanto tempo eu ainda vou ter que tomar esse remédio?
Kathie pensou por um instante.
— Pelo menos duas semanas. Se você não começar a melhorar, pode passar de um mês.
Jonathan a encarou, sem esperanças. Ele já tinha tomado uma tigela daquele remédio de manhã, o que deixou o almoço com gosto amargo. Se tivesse que beber aquilo por um mês inteiro, como é que ia aguentar?
Kathie tinha pouca paciência com quem não aguentava um pouco de dificuldade, então deu uma bronca.
— Tá reclamando do quê? Você sabe o trabalho que dá encontrar e preparar esses remédios? Tem gente que me oferece uma fortuna por essas ervas, e mesmo assim eu não vendo. Eu tô te tratando por bondade, então agradece — disse ela.
Kathie decidiu que naquela noite ia misturar uma erva ainda mais amarga, pra ele entender de verdade o que era amargor.
Jonathan ficou quieto, sentindo o peso da bronca.
Depois de hesitar um pouco, cedeu:
— Tá bom, eu tomo.
Dessa vez, ele virou tudo de uma vez, sem reclamar. Só um leve franzir de sobrancelha entregou o incômodo.
— Assim é melhor. Agora vou fazer a acupuntura. Pode doer um pouco, então aguenta firme.
As pernas dele ainda estavam dormentes naquela manhã e, mesmo sabendo da fama milagrosa dela, ele duvidava que fosse se recuperar tão rápido. Não levou muito a sério o que ela falou.
Vendo a expressão desconfiada de Jonathan, Kathie não perdeu tempo discutindo. Pegou as agulhas de prata e as inseriu em pontos específicos. Conforme os dedos dela giravam levemente, as agulhas iam entrando mais fundo.
No começo, Jonathan não sentiu nada e chegou a duvidar da habilidade de Kathie.
Mas, quando a nona agulha entrou, ele sentiu uma corrente percorrendo as pernas. Justo quando começou a se animar, a corrente se transformou numa dor aguda, como facadas.
Era como se incontáveis martelos estivessem esmurrando seus ossos, fazendo o rosto dele se contorcer de dor.
— O que você tá fazendo?
— Eu te avisei que ia doer. Você que não levou a sério.
— Mas você não falou que ia doer desse jeito. Parece até que você tá se vingando de mim.
— Se continuar falando assim, aí é que eu me vingar mesmo.
Apesar das palavras, Kathie não tinha a menor intenção de desperdiçar energia com vingancinha.
Ela era dura, implacável, não aliviava pra ninguém.
Jonathan logo se acalmou; apesar da dor, o retorno da sensibilidade era sinal de que as pernas estavam melhorando.
Quinze minutos depois, Kathie tirou as agulhas. As pernas de Jonathan tremiam, e a sensação o deixou empolgado.
— Eu tô sentindo de verdade… você é um milagre! — exclamou.
— Agora você devia acreditar em mim: se cooperar com o tratamento, não vai demorar pra você ficar em pé.
Ao ver o suor na testa dela, Jonathan sentiu uma onda de gratidão pela dedicação de Kathie.
— Valeu.
— Raro ouvir isso de você. Descansa bem, porque hoje à noite tem outra sessão.
Kathie guardou o material e saiu. Jonathan ficou olhando ela se afastar, pensativo.
Com as tarefas finalmente concluídas, Kathie voltou para o quarto e se jogou no sofá para tirar um cochilo.
O silêncio do bairro afastado, longe do barulho da cidade, era reconfortante, quebrado apenas pelo sussurro do vento e por um ou outro canto de pássaro.
Meio adormecida, ela teve a sensação de estar de volta à noite de núpcias, enroscada com um homem cujo rosto continuava oculto.
A sensação era tão vívida que o corpo dela esquentou, como se estivesse outra vez envolvida por um peito largo.
Kathie apertou as pernas uma contra a outra; ela sonhava com aquela noite com frequência, um lembrete de como aquilo a tinha marcado profundamente.
Quem poderia ser aquele homem?
Há quatro anos, essa figura perseguia a mente de Kathie; ela estava desesperada para ver o rosto dele. Quando o homem se virou para ir embora, ela instintivamente agarrou algo sólido.
— Não vai embora! — Kathie se levantou num salto, olhos arregalados — só para dar de cara com o rosto bonito de Jonathan.
Como podia ser ele?
Os dois ficaram paralisados de choque.
Sem conseguir dormir no próprio quarto, Jonathan tinha vindo pegar alguns livros emprestados.
Ele a viu encolhida no sofá, com uma expressão desconfortável. Bateu na porta, não obteve resposta e, preocupado, entrou — apenas para ser agarrado por ela.
Kathie o soltou e tentou se recompor.
— Eu mandei você descansar. O que você está fazendo no meu quarto?
Jonathan se aproximou, notando o rosto corado dela e o pânico em seus olhos. Então entendeu na hora.
— Doutora Cavendish, sonhando safadeza em plena luz do dia? Tava sonhando comigo? — provocou.
Kathie entrou ainda mais em pânico e saltou de pé.
— Abre a boca mais uma vez e eu enfio agulha em você sem olhar onde!
— Pela sua reação deu pra ver tudo — você sonhou comigo mesmo, né? — disse Jonathan, com um leve sorriso nos lábios.
Era humilhante demais — Kathie jamais admitiria que tinha sonhado com ele.
— Como é que a ousada doutora Cavendish ficou sem palavras de repente?
— Quer que eu te deixe mudo? Sai do meu quarto antes que eu perca a paciência!
Jonathan achou aquilo divertido. Quando não conseguia ganhar na discussão, ela partia pra ameaça. Não era alguém com quem se devesse brincar.
Mas a curiosidade falou mais alto.
— Se não quer falar, só balança a cabeça pra sim ou pra não — me dá uma resposta direta.
Kathie pegou uma agulha de acupuntura prateada em cima da mesa, o olhar afiado e ameaçador.
Jonathan duvidava que ela realmente fosse machucá-lo por causa de uma bobagem daquelas.
Enquanto os dois batiam boca, as três crianças foram entrando no quarto, uma por uma.
— Mamãe! Ah, o moço bonito também tá aqui!
— Mamãe, a gente acordou.
— Mamãe, colo!
Eileen esticou os bracinhos pedindo colo, e Kathie lançou um olhar fulminante para Jonathan antes de pegá-la no colo.
Então sorriu.
— Dormiram bem?
Eileen assentiu, toda doce:
— Dormimos, sim.
O coração de Kathie se derreteu.
— Que bom! A mamãe preparou uns lanchinhos. Esperem aqui — eu já trago.
Ela aproveitou a chance para escapar, fugindo das perguntas de Jonathan.
Sozinhas com ele no quarto, as crianças ficaram olhando fixamente para Jonathan. Eileen escalou o colo dele.
— Tio Bonito, por que você tá no quarto da mamãe? Você também gosta dela?
Jonathan ficou completamente sem palavras.
Zachary deu um sorrisinho de lado.
— A mamãe tem cheiro bom. Quem é que não vai gostar dela?
Kyle colocou as mãos na cintura.
— Você não pode tirar a mamãe da gente.
Jonathan continuou mudo.
Ele não tinha dito nada, e mesmo assim já estavam acusando-o de gostar da mãe deles e de querer levá-la embora.
— Tio Bonito, por que você não fala nada? — Eileen abanou a mãozinha na frente do rosto dele.
O que Jonathan podia dizer? As crianças o tinham encurralado por completo.
— Eu sou só paciente da sua mãe. Quando eu melhorar, vou embora — respondeu Jonathan.
Eileen baixou a cabeça, desanimada.
— Mas você perdeu a memória — você não lembra da sua família. Vai pra onde? Fica com a gente.
Jonathan olhou para Kyle e Zachary, esperando que eles reagissem com hostilidade — mas, para sua surpresa, pareciam tranquilos com a ideia.
Para surpresa dele, Kyle assentiu:
— Mesmo que você não sirva pra muita coisa, ter um homem alto como segurança não é tão ruim.
Jonathan ficou absolutamente sem reação!
Zachary emendou:
— Sempre tem gente querendo namorar a mamãe, e ela odeia isso. Você parece forte, então pode ficar e ser o escudo dela.
Kyle e Zachary já tinham definido perfeitamente o papel que ele deveria ter.
Do lado de fora da porta, Kathie ouviu a conversa e não conseguiu segurar a risada. A presença de Jonathan dava trabalho, sim — mas também trazia uma diversão inesperada.
Durante anos, ela tinha criado as crianças sozinha, sentindo muitas vezes o peso da solidão e do isolamento.
