Capítulo 1

Eu tinha acabado de tirar os biscoitos de ursinho do forno quando minha filha, Dora, entrou correndo na cozinha.

“Dora, meu amor! Os biscoitos especiais da mamãe ficaram prontos!”

Mas, no instante em que ela viu os biscoitos, o rosto dela ficou branco como papel. Ela gritou: “Sai de perto! Sai de perto!” e disparou para fora da cozinha.

Eu fiquei completamente sem reação. Nessa hora, meu marido, Herbert, entrou pela porta.

“Experimenta um e me diz o que tem de errado”, eu disse, apontando para os biscoitos.

Herbert ia me consolar, mas, quando soube que eu tinha feito aqueles biscoitos para a Dora, a expressão dele ficou absolutamente estranha. “Foi você que fez isso mesmo? Se foi, eu quero o divórcio. Agora!”

“O quê?”

Minha sogra, Athena, ouviu a confusão e veio me acalmar, mas, no momento em que soube que eram biscoitos que eu tinha feito para a minha filha, ela deu um tapa e derrubou a assadeira inteira das minhas mãos. “Que tipo de mãe você é?!”

Migalhas de biscoito se espalharam pelo chão. Eu fiquei ali, em choque, sem entender nada do que estava acontecendo.


Naquela noite, eles saíram para jantar, me deixando sozinha em casa.

Eu me ajoelhei no chão da cozinha, juntando pedacinhos de biscoito um por um, com as lágrimas escorrendo pelo meu rosto. Os biscoitos pareciam perfeitamente normais — douradinhos, com formatos fofos de ursinho, soltando aquele cheiro amanteigado que dava água na boca.

O que poderia estar errado? Por que até a minha filha, que eu tanto amo, fugiria de mim?

Eu guardei com cuidado os poucos biscoitos que ainda estavam inteiros numa caixinha, sentindo ao mesmo tempo raiva e mágoa. Eu estava ficando louca. Será que o problema era comigo, ou o problema era com o mundo?

Eu decidi ir até a minha melhor amiga, Karlie. Ela ia me ajudar a entender isso.

Andando pela rua, eu abri a caixa para conferir se os biscoitos tinham amassado. Mas as pessoas na calçada recuaram na mesma hora, como se tivessem visto um fantasma. Uma mulher empurrando um carrinho de bebê ainda me chamou de “aberração”.

Meu coração disparou. Eu fechei a caixa depressa e quase corri em direção à cafeteria da Karlie.

“Jacey?” A Karlie viu meu desespero e veio na hora. “Meu Deus, o que aconteceu? Você está péssima.”

Eu desabei em choro. “O Herbert e a minha sogra enlouqueceram, e até a minha filha...”

“Eles foram tão cruéis assim? Viraram contra você só por causa de biscoitos?” A voz da Karlie soou incrédula.

Eu estava com raiva e magoada, as lágrimas descendo sem parar. “Sim! E eu perguntei pra um monte de gente — todo mundo disse que os biscoitos pareciam normais no começo. Mas, no momento em que souberam que fui eu quem fez pra minha filha, tudo mudou.”

“Eu estou ficando louca. Ou tem alguma coisa errada comigo, ou tem alguma coisa errada com esse mundo.”

Karlie me tranquilizou rapidamente. “Não se preocupa, deixa eu ver o que está acontecendo.”

Eu abri a caixa com as mãos tremendo.

Karlie examinou os biscoitos com cuidado, chegando até a se inclinar para cheirar. “Eu olhei tudo — não tem absolutamente nada de errado! São só biscoitinhos comuns, em formato de ursinho.”

Ao ouvir aquilo, finalmente senti um alívio. “Exato! Eu faço isso há anos. Como é que eu ia conseguir estragar…”

Minha reclamação morreu no meio quando vi que Karlie tinha parado, de repente, como se tivesse virado uma estátua.

“Esses biscoitos… foi você que fez pra sua filha mesmo?”

Ao ouvir essa pergunta, meu sangue gelou.

Porque a atitude de todo mundo mudava completamente depois de fazer exatamente essa pergunta.

O sorriso de Karlie sumiu por inteiro. Ela pegou um pano de prato e jogou na minha cara. “Eu nunca imaginei que você fosse esse tipo de pessoa! Trazendo essa nojeira pra dentro da minha cafeteria? Sai daqui!”

Os olhos dela se encheram de repulsa e medo. “Eu queria nunca ter te conhecido!”

“Como pode existir alguém como você, um monstro capaz de fazer isso com a própria filha! Vai embora! Vai embora agora!”

Eu fiquei sem reação. A pessoa que tinha me consolado segundos antes agora me amaldiçoava com as piores palavras.

“Karlie, eu não tô entendendo…”

“Vai embora! Não quero te ver nunca mais!” Ela apontou pra porta, a voz tremendo.

Eu tropecei pra fora da cafeteria e fui andando pelas ruas como um zumbi. As palavras de todo mundo ecoavam na minha cabeça — “aberração”, “monstro”, “nojenta”…

O que eu tinha feito? Por que até as pessoas mais próximas estavam me tratando assim?

Já tarde da noite, eu voltei pra casa e encontrei a sala entulhada de malas. Herbert, Athena e Dora estavam arrumando tudo pra ir embora.

Ao ver aquilo, o meu mundo desabou de vez. Eu corri e segurei o braço de Herbert. “Pra onde vocês vão?”

Ele sacudiu meu braço, se livrando de mim como se eu fosse uma doença.

Eu tentei me aproximar da minha filha, mas Dora se escondeu atrás de Athena, assustada demais até pra olhar pra mim.

Desesperada, eu caí de joelhos. “Por favor, alguém me diz o que tá acontecendo? Por que vocês estão indo embora por causa de biscoitos?”

Os três me encararam de cima, frios. Ninguém respondeu.

“Eu sou sua esposa, sou a mãe de vocês! Mesmo que eu tenha feito alguma coisa errada, pelo menos me digam o que foi!” eu gritei, sufocada de angústia.

Herbert finalmente falou. Ele me olhou ali, ajoelhada no chão, com a voz carregada de raiva e nojo. “Você trouxe aquela coisa doentia pra dentro da nossa casa? Você não tem vergonha na cara?”

“Mas são só biscoitos…”

TAPA! Uma mão acertou meu rosto.

Herbert me encarou como se eu fosse a coisa mais repugnante do mundo. “Você é assim tão tapada, ou tá fingindo esse tempo todo?”

“Eu acho que você é podre por dentro. Até animal não machuca a própria cria.”

A voz dele ficou ainda mais gelada, cada palavra cortando como uma lâmina. “Mas você? Você foi lá e fez isso com a sua própria filha—”

“Eu cansei de você. Acabou. Acabou nós dois. E você nunca mais vai ver a Dora.”

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