Capítulo 2

Minha bochecha ainda ardia, e as palavras de Herbert ecoavam nos meus ouvidos como uma tempestade que não passava.

O relógio de pêndulo da sala bateu duas da manhã quando ele enfiou, de qualquer jeito, as roupas da Dora dentro da mala, cada movimento seco, carregado de um fim definitivo.

Eu me sacudi para sair do choque, e a raiva subiu de repente, correndo nas minhas veias como fogo em capim seco.

— Herbert, você enlouqueceu? — pressionei a mão contra a bochecha ardendo, a voz trêmula. — Você quer se divorciar de mim por causa de uns biscoitos?

— Que porra está acontecendo com vocês dois? O que tem de tão terrível eu fazer biscoitos pra minha filha?

Ele nem se virou; só continuou socando as coisas dentro da mala, os movimentos ficando mais agressivos a cada segundo.

— Herbert! Olha pra mim! — eu segurei o braço dele. — Tem outra pessoa? É por isso que você está procurando uma desculpa pra me largar?

Ele puxou o braço com tanta força que eu tropecei para trás. O nojo nos olhos dele fez meu sangue gelar.

— Não encosta em mim.

— Você acha que eu sou burra? Você anda chegando em casa cada vez mais tarde, não atende o celular...

— Chega! — ele finalmente se virou, me encarando como se eu fosse algo contaminado. — Jacey, você me dá nojo.

As palavras dele me acertaram como um golpe de verdade. Eu não conseguia acreditar que aquilo vinha do homem com quem eu tinha me casado, o homem que um dia prometeu me amar pra sempre.

Desesperada, eu me virei para a Athena, procurando qualquer migalha de apoio de alguém que me conhecia havia anos.

— Athena, por favor, fala alguma coisa! A gente se conhece há tanto tempo... você sabe que tipo de pessoa eu sou!

Athena colocou devagar o que estava segurando e se virou para mim. Havia lágrimas nos olhos dela, mas por baixo delas tinha algo muito pior — repulsa pura.

— Jacey, eu me arrependo de tanta coisa. — a voz dela era quase um sussurro, e cada palavra cortava mais do que a anterior. — Mas o meu maior arrependimento foi ter apoiado o Herbert quando ele decidiu se casar com você, lá no começo.

— Como assim? O que eu fiz? — eu estava praticamente de joelhos, implorando. — Por favor... só me diz!

Ela me olhou com a mesma pena que se tem de um animal morrendo, e a voz dela veio suave como uma sentença:

— Se eu fosse você, eu procurava um lugar pra acabar com tudo. O mundo seria melhor sem você.

Ela virou o rosto, pegou a mala dela e foi em direção à porta com o Herbert. A porta da frente bateu com tanta força que pareceu que a casa inteira tremeu ao meu redor.

Eu desabei no chão frio de madeira, a cabeça girando com pedaços do que tinha acabado de acontecer. Por quê? Por que todos eles me olhavam como se eu fosse algum tipo de monstro?

O que eu poderia ter feito de tão imperdoável?

Se eu tivesse feito alguma coisa errada, eu encararia qualquer consequência — até a morte. Mas eu me recusava a morrer na ignorância, sem saber de que crime, afinal, eu era supostamente culpada.

Custasse o que custasse, eu ia descobrir a verdade.


Na tarde seguinte, arrastei meu corpo exausto até a delegacia, determinada a conseguir respostas.

No caminho, resolvi testar uma coisa com uma mulher de meia-idade, simpática, que passeava com o cachorro.

Ela sorriu com doçura quando mostrei as fotos dos biscoitos, até comentou como as forminhas de ursinho estavam uma graça.

Mas, no instante em que eu disse: “Eu fiz esses biscoitos pra minha filha”, ela me empurrou no chão e começou a me chutar, me chamando de aberração.

Um homem que, a princípio, tentou intervir me ouviu soluçar: “Eu só fiz biscoitos pra minha filha”, e o rosto dele ficou duro como pedra. Ele me deu um chute violento nas costelas antes de ir embora.

Até um policial que passava disse que eu merecia e mandou eu parar de atrapalhar a ordem pública.

Apesar dos hematomas e da humilhação, eu tinha aprendido algo crucial: não eram os biscoitos em si que provocavam aquela reação. Era, especificamente, o fato de eu ter feito biscoitos pra minha filha.

Até pessoas que queriam me ajudar ficavam violentas na mesma hora assim que ouviam aquelas palavras.

Mas por quê? O que havia de tão errado naquela frase simples?

Os biscoitos eram só biscoitos comuns de manteiga. Eu não tinha colocado nada estranho, nada prejudicial. Eu tinha feito com amor, do jeito que qualquer mãe faria pra sua criança.

Confusa e toda machucada, manquei até a 19ª Delegacia, em Manhattan, torcendo para que a polícia finalmente me desse respostas.

As portas pesadas de vidro exigiram o resto das minhas forças para eu conseguir empurrar e entrar. O policial de plantão atrás do balcão percebeu na hora meu estado e veio depressa.

— Senhora, você precisa de atendimento médico. O que aconteceu com você? — o policial Torres, um rapaz com olhos gentis, me segurou para eu não cair enquanto eu cambaleava.

Na sala de interrogatório, sentei de frente para dois policiais e contei tudo o que tinha acontecido.

Eles ouviram com atenção, com choque e incredulidade estampados no rosto.

— Esse tipo de anomalia comportamental em massa é, sem dúvida, incomum — Torres franziu a testa. — Se tiver algum tipo de influência externa envolvida, isso pode ser muito grave.

O policial mais velho, Rodriguez, concordou com a cabeça.

— Precisamos ver as provas de verdade antes de abrir uma investigação.

Torres disse:

— Senhora, garantimos que vamos tratar esse caso com total objetividade e profissionalismo. Por favor, nos entregue as fotos dos biscoitos, e nós vamos analisá-las com cuidado.

Senti um alívio imediato, e meus olhos até se encheram de lágrimas.

Finalmente, alguém acreditava em mim! Alguém estava mesmo disposto a me ajudar a encontrar a verdade!

Com as mãos tremendo, entreguei meu celular, o coração cheio de esperança de que eles pudessem me ajudar a achar respostas.

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