Capítulo 3
— Parecem muito bem-feitos. — A reação inicial do policial Rodriguez às fotos foi bem normal, até admirada.
Eu expliquei, esperançosa: — Eu mesma fiz. Era um presente de aniversário pra minha filha.
No instante em que essas palavras saíram da minha boca, eu vi os rostos dos dois policiais mudarem por completo. O olhar de Torres ficou gelado e afiado, como se ela estivesse encarando algo nojento.
— Senhora, a senhora acha que não tem nada de errado no seu comportamento? — Rodriguez perguntou, frio.
— E-eu... eu não entendo — gaguejei. — São só cookies comuns de aniversário.
Torres fechou o bloquinho com um estalo. — Precisamos fazer uma verificação do bem-estar da sua filha. Temos preocupações com um possível risco à criança.
Um arrepio desceu pela minha coluna. — Como assim? Eu nunca machuquei minha filha!
— Precisamos ver sua filha imediatamente — disse Rodriguez, grave. — Vamos pra sua casa agora.
Meu coração afundou. — Mas... minha filha não está em casa.
Os dois ficaram em alerta na hora. Torres exigiu, cortante: — Onde ela está?
— Meu marido... levou ela embora ontem à noite — sussurrei.
— O quê? — Rodriguez se levantou de supetão da cadeira. — Por que o seu marido levou a criança?
Eu me embolando, tentei explicar: — Por causa de... por causa do que aconteceu com os cookies, ele quer se divorciar de mim...
Os dois trocaram um olhar extremamente sério. Torres pegou o telefone. — Precisamos falar com seu marido agora, pra confirmar a segurança da criança.
— Por favor, me passe o contato dele e o endereço atual — disse Rodriguez, tirando o bloquinho.
Com as mãos tremendo, eu passei o número do Herbert e o endereço da Athena.
Eu conseguia ouvir a voz do Herbert pelo telefone: — O quê? A Jacey foi na delegacia de novo? Meu Deus... Sim, eu levei nossa filha embora ontem à noite. O comportamento dela ultimamente tá me deixando muito preocupado com a segurança da criança...
Depois de desligar, Torres me encarou com frieza. — Seu marido confirmou que a criança está segura, mas disse que não vai deixar a senhora chegar perto da sua filha até a senhora fazer tratamento psicológico.
— Diante da situação atual, a gente vai ficar de olho na senhora — anunciou Rodriguez. — Qualquer problema envolvendo sua filha, a senhora vai ser a nossa primeira suspeita.
Aquelas palavras me acertaram como um tijolo. Eu fiquei olhando pra eles, sem reação, como se tivesse ouvido errado. — Ficar de olho em mim? Suspeita? — repeti, com a voz tremendo.
Eu agarrei o braço do policial, desesperada. — Que crime eu cometi? Por favor, só me digam!
— Isso é loucura! Eu só queria dar pra minha filha um doce especial de aniversário! — eu gritei.
Rodriguez olhou pro meu estado, e o tom dele amoleceu um pouco. — Escuta, talvez seja melhor a senhora procurar um psicólogo. Um profissional pode ajudar a senhora a entender o que tá acontecendo de verdade.
— A senhora já pode ir — disse Torres, gelada. — E lembre-se: a gente vai estar de olho. Qualquer problema, a gente vai atrás da senhora primeiro.
Por fim, eu saí cambaleando da delegacia, sentindo como se minhas pernas não fossem minhas.
Andando sem rumo pela rua, as reações de todo mundo continuavam ecoando na minha cabeça. O nojo do Herbert, a decepção da Athena, a hostilidade dos vizinhos, a raiva dos estranhos, a desconfiança da polícia...
Se fosse só uma ou duas pessoas, eu ainda podia me convencer de que os loucos eram eles. Mas tanta gente... podia ser coincidência?
Talvez... talvez o problema seja eu mesma?
Eu me lembrava de ter me sentido exausto com frequência nos últimos meses, às vezes ficando “no mundo da lua” por longos períodos, sem nem lembrar o que eu tinha feito. Será que eu maltratei a Dora enquanto estava apagado?
Tentei desesperadamente puxar pela memória cada detalhe do tempo que passei com Dora, mas quanto mais eu pensava, mais certos fragmentos pareciam borrados, confusos.
Eu me lembrava de ter ficado ocupado na cozinha por horas naquele dia, mas o que exatamente eu fiz? Tirando sovar a massa e cortar os formatos, todo o resto parecia nebuloso. Aquelas poucas horas pareciam ter sido engolidas por alguma coisa.
A Dora chorou naquele dia? Ela ficou com medo? Eu tentei com todas as forças me lembrar, mas essas imagens eram como olhar através de uma neblina. Eu só lembrava do rosto dela empalidecendo quando viu os biscoitos — mas o que aconteceu no meio? Por que eu não conseguia lembrar?
Será que eu tenho transtorno dissociativo de identidade? Será que a minha outra personalidade estava machucando a minha filha?
Esse pensamento me fez estremecer. Se fosse verdade, então as atitudes do Herbert, a hostilidade de todo mundo — tudo aquilo estaria justificado.
Eu não aguentava pensar mais. A sugestão da polícia continuava ecoando na minha cabeça — procurar um psicólogo. Talvez essa fosse mesmo a única opção que me restava.
Agora já estava completamente escuro. Peguei o celular para procurar clínicas de psicologia por perto e, por fim, encontrei uma no Upper East Side que ainda estava aberta, oferecendo atendimento de emergência fora do horário. Eu praticamente fui cambaleando até lá.
O consultório do Dr. Tobias Aris era simples, com algumas pinturas abstratas nas paredes. Ele era um homem de meia-idade, de óculos de armação fina, com um jeito tranquilo e profissional.
— Por favor, me conte em detalhes os problemas que você está enfrentando — disse ele, pegando a caneta para fazer anotações.
Eu, tremendo, relatei todos os encontros anormais, com a minha voz ficando cada vez mais baixa. Cada vez que eu mencionava as reações dos outros, eu sentia aquele desespero de estar sendo abandonado pelo mundo inteiro.
— Eu acho... eu acho que talvez o problema seja eu — falei, quase chorando. — Talvez eu tenha machucado a minha filha mesmo, só que eu não me lembro.
O Dr. Aris pousou a caneta e me encarou diretamente.
— Eu preciso ver as fotos dos biscoitos que causaram toda essa confusão. Isso é importante para a minha avaliação.
Minha mão apertou o celular com força. Ele era a última pessoa que talvez me entendesse. Se nem ele...
Mas eu não tinha escolha. Com a mão trêmula, entreguei o celular.
O Dr. Aris examinou com cuidado as fotos dos biscoitos na tela, com uma expressão concentrada e serena. Eu prendi a respiração, esperando aquele olhar familiar de nojo aparecer.
Mas os minutos passaram, e ele ainda não mostrou nenhuma reação estranha.
— Esses biscoitos estão lindamente feitos — disse ele, erguendo o olhar para mim. — Foi você que fez, não foi?
Meu coração quase parou. Esse era o momento decisivo. Eu abri a boca, mas nenhum som saiu.
— Não tenha medo — a voz dele foi surpreendentemente suave. — Eu sei que foi você que fez esses biscoitos. E eu também sei que contar isso para as pessoas foi o começo do seu pesadelo.
Ao ouvir aquilo, eu quase escorreguei da cadeira. Ele sabia! Ele realmente sabia! E não mudou a expressão, não gritou, não me tratou como um monstro!
— Por favor, me diga! — eu estava praticamente implorando. — Por que isso está acontecendo? Por que todo mundo me odeia?
O Dr. Aris se levantou devagar e foi até a janela, ficando de costas para mim.
Ele não disse nada por um bom tempo; então, por fim, se virou.
— A verdade é bem simples — disse ele. — É porque...
