
BOX DESEJOS
Sandra Lima · Concluído · 124.5k Palavras
Introdução
Há ela: mulher de olhar afiado, rotina impecável e corpo que há tempos não se deixa tocar de verdade. E ele: homem de silêncios densos, mãos firmes e uma presença que invade o espaço como se sempre tivesse pertencido ali. Eles não se conheciam. Não deveriam se encontrar. Mas uma noite qualquer - um elevador travado, um bar quase vazio, um erro de endereço - coloca os dois no mesmo pedaço de escuridão.
O ar muda. Os olhares se cruzam e não soltam. Ele se aproxima sem pedir permissão, a voz baixa roçando a orelha dela:
Você também sente isso?
Ela não responde com palavras. Apenas gira o corpo, prende a gravata dele entre os dedos e o puxa até a boca colidir com a dela. O beijo é voraz, urgente, quase violento de tanta necessidade reprimida. As mãos dele sobem pela cintura dela, apertam, exploram. O corpo dela responde antes da razão, arqueando-se contra o dele, entregando-se ao calor que sobe rápido demais.
É só o começo.
Nas páginas que seguem, outros casais se encontram da mesma forma: de repente, sem aviso, com atração tão intensa que desafia lógica, orgulho e destino. Histórias curtas, densas e irresistíveis que prendem desde a primeira linha e não soltam até a última.
Permita-se mergulhar. Descubra até onde o desejo pode levar quando duas pessoas param de fingir que conseguem resistir.
Capítulo 1
▪︎Sinopse▪︎
Raika Dumont, dezoito anos, loira de olhos azuis, corpo de diabinha e boca afiada, quer conquistar de uma vez por todas o único homem que a faz tremer: Kevin Dumont, seu tio, irmão mais novo do pai, o homem que a família jurou proteger dela e que ela jurou ter. Desde os dezesseis anos ela provoca, mente, arrisca e se queima para chamar a atenção dele; agora, na véspera do aniversário que a transforma em mulher aos olhos da lei, ela decide parar de brincar e exigir o que deseja — mesmo sabendo que o preço pode ser o ódio da família, a rejeição dele e a destruição de tudo o que ainda a segura.
Até onde uma anjo de cabelos claros e alma rebelde é capaz de ir quando o desejo vira obsessão e o amor proibido vira a única coisa que ainda a faz respirar?
Leitura +18. Contém cenas de sexo explícito, violência, linguagem imprópria e um amor que não pede permissão.
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▪︎Prólogo▪︎
Meu nome é Raika Dumont. Tenho um metro e sessenta e cinco, cabelos loiros que caem até a cintura quando soltos, olhos azuis que aprendem rápido a mentir e um corpo que, segundo o próprio Kevin, “não combina com a cara de santinha”. Amanhã faço dezoito. E amanhã eu paro de fingir que sou só a sobrinha mimada que ele precisa manter à distância.
Desde os dezesseis eu o quero. Não foi um capricho de adolescente carente. Foi um golpe seco no peito a primeira vez que o vi de verdade, depois de anos de ausência. Kevin voltou da Europa mais alto, mais largo nos ombros, com a barba por fazer e aquela voz baixa que fazia as paredes do escritório do meu pai tremerem quando ele discutia negócios. Eu estava de short curto e blusa colada, cabelo preso num rabo de cavalo bagunçado, e ele olhou para mim como se eu tivesse aparecido do nada no meio da sala. O olhar durou três segundos a mais do que deveria. Foi o suficiente.
Eu senti o calor subir pelo pescoço. Sentí o estômago revirar. Sentí, pela primeira vez, o que era querer alguém de um jeito que doía.
Ele é irmão do meu pai. Onze anos mais velho. O “tio Kevin” que a família tratava com respeito e distância. O homem que nunca se casou, que viajava demais, que cheirava a madeira e a cigarro quando se aproximava. Eu me apaixonei como quem se joga de um prédio sem olhar para baixo.
No começo eu tentei esconder. Sorrisos educados, perguntas sobre a viagem, a mão trêmula quando ele me cumprimentava. Depois eu cansei de fingir. Comecei a inventar desculpas para ficar sozinha com ele. Esquecia o casaco no escritório dele só para voltar. Passava na frente da casa dele “por acaso”. Usava roupas cada vez mais curtas quando sabia que ele viria jantar. Uma vez, numa festa da família, empurrei uma prima que estava rindo alto demais perto dele. Outra vez, bebi demais de propósito e “caí” no colo dele no sofá da sala. Ele me segurou pelos braços, os dedos fortes demais, a respiração quente perto do meu ouvido, e sussurrou:
— Para com isso, Raika. Você não sabe o que está fazendo.
Eu sabia. Eu sabia exatamente.
Ele me empurrava com palavras e com o corpo. Me chamava de menina. De criança mimada. De sobrinha que ainda não entendia o mundo. Cada rejeição só aumentava a fome. Eu queria provar que ele estava errado. Que o corpo que ele olhava de soslaio quando achava que eu não via era de mulher. Que a boca que ele evitava não era mais a de uma adolescente ingênua.
Houve noites em que eu me trancava no quarto e chorava de raiva e desejo ao mesmo tempo. Houve manhãs em que eu me olhava no espelho e praticava o que diria se ele me beijasse. Houve dias em que eu odiava a mim mesma por querer tanto alguém que a sociedade e a família consideravam proibido. Mas o ódio nunca durava. O desejo voltava mais forte, mais sujo, mais teimoso.
Agora tenho quase dezoito. Amanhã a lei me considera adulta. Amanhã eu paro de pedir permissão para sentir o que sinto.
Eu planejei tudo. O jantar de aniversário vai ser na casa dos meus pais. Kevin vai aparecer, como sempre. Vai trazer o presente caro e a conversa educada. Vai me cumprimentar com um beijo seco na testa, como se eu ainda fosse a menina de saia plissada. Eu não vou aceitar.
Vou esperar todo mundo se distrair. Vou puxá-lo para o escritório do meu pai, o mesmo lugar onde ele me olhou pela primeira vez daquele jeito. Vou trancar a porta. Vou olhar nos olhos dele e dizer, sem rodeios, sem choro, sem o drama que ele tanto despreza:
— Eu te quero. Não como tio. Não como amigo da família. Eu te quero na minha cama, na minha vida, na minha boca. E se você continuar fingindo que não sente o mesmo, pelo menos tenha a coragem de me rejeitar olhando nos meus olhos.
Eu já ensaiiei as palavras tantas vezes que elas queimam na língua. Eu já imaginei a reação dele: o maxilar travando, os olhos escurecendo, a mão subindo para me afastar… ou para me puxar. Eu já preparei o corpo para qualquer resposta. Se ele me beijar, eu devolvo o beijo com tudo o que guardei. Se ele me empurrar, eu não vou chorar na frente dele. Vou sair dali de cabeça erguida e depois, sozinha, vou decidir se ainda vale a pena continuar existindo no mesmo mundo que ele.
Porque amar Kevin Dumont não é romance de livro. É sangue na boca. É medo de ser descoberta. É o peso constante de saber que, se alguém da família descobrir, o estrago será permanente. Meu pai odiaria. Minha mãe desmaiaria. Os primos fofocariam. E ele… ele poderia me odiar de verdade.
Ainda assim eu vou.
Eu não sou mais a menina que se jogava no colo dele só para sentir o cheiro. Não sou mais a adolescente que inventava brigas com outras garotas só para ele me olhar. Eu cresci. Aprendi a segurar a língua. Aprendi a sorrir quando queria gritar. Aprendi a guardar o desejo até ele ficar quase insuportável.
Amanhã eu libero.
Estou deitada na cama agora, olhando o teto do meu quarto. A luz da rua entra pela fresta da cortina e desenha uma faixa clara no chão. Meu coração bate forte demais. As mãos estão frias. Eu aperto o lençol entre os dedos e sinto o tecido rasgar um pouco sob a unha.
Eu fecho os olhos e vejo o rosto dele. A barba por fazer. A boca fechada. O olhar que sempre me avisava para parar antes que fosse tarde.
Amanhã eu não paro.
Eu me levanto da cama. Os pés descalços tocam o chão frio. Eu caminho até o espelho e me olho de frente. Cabelo solto. Olhos azuis. Boca fechada. O corpo que ele disse uma vez, bêbado, que era “perigo demais para uma sobrinha”.
Eu passo a mão pelo próprio pescoço, sentindo o pulso acelerado sob a pele. Depois desço a mão até o peito, até a cintura, até a curva do quadril. Eu me toco com a certeza de quem já decidiu.
Amanhã eu vou até ele.
Amanhã eu fecho a porta do escritório atrás de nós dois, olho nos olhos de Kevin Dumont e digo o que nunca disse em voz alta:
— Eu não sou mais a sua sobrinha. E você não vai mais fingir que não me quer.
O silêncio do quarto responde. Eu abro a gaveta da cômoda, pego o vestido curto e preto que comprei escondida, e o coloco sobre a cadeira. Depois me deito de novo, mas desta vez de lado, de frente para a porta, como se já estivesse esperando o dia nascer.
Meu coração bate tão forte que sinto o eco no ouvido. Eu aperto os dedos no travesseiro até as unhas doerem. E, pela primeira vez em dois anos, eu sorrio no escuro — um sorriso pequeno, afiado, de quem finalmente parou de pedir licença para desejar.
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