Capítulo 1

Ponto de vista de Emma

O aviso de afivelar os cintos apagou com um ding, mas eu continuei grudada no assento da janela, com o iPad apoiado na mesinha. Na tela, um filhote de golden retriever estava enfiando a cara na tigela de água, e eu não consegui evitar o sorriso idiota se espalhando pelo meu rosto. Meu Deus, eu precisava disso. Depois de três horas com as pernas espremidas e respirando ar reciclado, ver cachorros sendo idiotas era exatamente o tipo de conteúdo sem cérebro que me mantinha sã.

“Senhoras e senhores, iniciamos nossa descida para o Aeroporto Internacional de Denver.”

A voz do piloto chiou pelos alto-falantes. Eu mal registrei. Meu dedo já estava deslizando para o próximo vídeo, o piloto automático assumindo.

A tela mudou.

Ah, porra.

Dois homens preencheram meu iPad. Homens desenhados, com mandíbulas afiadas e abdominais absurdamente definidos, um empurrando o outro contra uma fileira de armários de metal. O estilo de arte era inconfundível — aquele tipo específico de mangá japonês que eu definitivamente não deveria estar vendo num avião. O cara prensado nos armários estava com a cabeça jogada para trás, a boca aberta, e o outro segurava a garganta dele com uma mão enquanto a outra desaparecia abaixo do enquadramento. O balão de fala tinha texto em japonês que eu nem precisava traduzir, porque a imagem me dizia tudo.

Meu cérebro deu curto.

Eu bati a palma da mão no botão de bloquear. O iPad bateu na mesinha, o barulho alto demais na cabine silenciosa. Meu rosto entrou em combustão. Eu senti o calor subindo do pescoço até a raiz do cabelo.

Merda merda merda. Eu devo ter tocado no aplicativo de leitura em vez do player de vídeo. Aquele que eu estava rolando às duas da manhã porque, aparentemente, jet lag e cérebro tarado formavam uma dupla e tanto.

“Nossa, que material de leitura… bem interessante.”

A voz veio da minha esquerda. Eu virei a cabeça como se estivesse me movendo através de concreto.

A mulher de meia-idade no 12B não estava olhando para mim. Ela encarava com muita força o assento à sua frente, mas os lábios estavam apertados numa linha fina e as bochechas tinham ficado rosadas. Não tão rosadas quanto as minhas provavelmente estavam, mas ainda assim.

“Eu—” Minha voz saiu num guincho. Eu pigarreei. “Foi um acidente. Eu estava tentando—”

Ela não respondeu. Nem se mexeu. Só continuou olhando reto, como se eu tivesse deixado de existir.

Eu queria morrer. Simplesmente deixar de existir. Evaporar no ar reciclado da cabine e nunca mais me materializar.

Minha primeira impressão no Colorado ia ser a garota que assiste pornô gay no avião. Fantástico. Perfeito. Exatamente como eu queria começar minha vida nova.

Encostei a testa na janela e observei a paisagem se erguer para nos encontrar. Terra marrom, manchas de verde, montanhas ao longe que pareciam falsas de tão enormes. Nada a ver com o pântano plano da Flórida.

As rodas tocaram o asfalto com um tranco que fez meus dentes baterem.

No segundo em que o aviso do cinto apagou com um ding, eu me levantei. Peguei minha mochila debaixo do assento e me esgueirei pelos joelhos do 12B sem fazer contato visual. Eu sentia ela ali, irradiando o que parecia julgamento, e só apressei o passo.

A ponte de embarque parecia se estender para sempre. Meu coração ainda martelava. Eu ficava revivendo aquele momento — a imagem ocupando a tela, os olhos dela pegando aquilo, o silêncio horrível que veio depois.

O Aeroporto Internacional de Denver se abriu à minha frente, todo de tetos brancos pontudos que faziam parecer que a gente tinha pousado dentro de uma tenda de circo. Eu segui a multidão em direção à retirada de bagagens, com o rosto ainda queimando.

Eu nunca mais ia ver aquela mulher. Isso só ia virar uma daquelas memórias vergonhosas que me emboscam às três da manhã quando eu estou tentando dormir. Eu conseguia viver com isso.

Meu celular vibrou no bolso quando cheguei à esteira de bagagens. Eu puxei, esperando que fosse o meu pai.

O nome de Victoria iluminou a tela. Uma mensagem de voz.

Apertei para reproduzir e encostei o telefone no ouvido, observando as malas passarem em círculo na esteira rolante.

—Emma, querida! —a voz de Victoria tinha aquela cordialidade lisa e profissional. Do tipo que vinha de anos lidando com clientes difíceis e fazendo-os acreditar que eram os preferidos dela. —Sinto muito, muito mesmo, mas seu pai foi puxado para uma reunião de emergência sobre o projeto de ampliação da I-25. Um desastre completo, pelo visto. E eu tenho um jantar com cliente que simplesmente não posso remarcar — você sabe como é. Mas não se preocupe! A gente combinou com o Caleb de te buscar. Ele disse que ia sair mais cedo do treino pra ir te pegar. Só manda mensagem quando estiver com as malas, tá? Te amo!

A mensagem terminou.

Fiquei encarando a tela do celular.

Caleb.

Claro que era o Caleb.

Meu meio-irmão. Tecnicamente. O cara que eu não via havia quatro anos, desde aquela viagem de pesadelo para Aspen em que eu, de algum jeito, consegui quebrar o precioso taco de hóquei dele e garantir um lugar permanente na lista de merdas dele. Papai tinha se casado com Victoria cinco anos antes, o que fazia de Caleb Claffey e eu uma família no sentido legal. No sentido de verdade, éramos duas pessoas que tinham aperfeiçoado a arte de evitar uma à outra nos jantares obrigatórios de feriado.

E agora ele era quem supostamente ia me buscar no aeroporto.

Ótimo. Maravilha.

Abri as mensagens e digitei: Oi, eu cheguei. Onde você está?

Apareceu como entregue. Depois, lida.

Esperei, observando a esteira de bagagens cuspir mala atrás de mala. Minhas duas malas gigantes apareceram — roxo-berrante, porque a mamãe insistiu que eu precisava de algo que desse para identificar fácil — e eu as arrastei para o chão. Eram ridiculamente pesadas. Eu tinha enfiado minha vida inteira ali dentro, incluindo minha coleção completa de livros de anatomia veterinária e uns quinze quilos de vestidos de verão que eu provavelmente nunca usaria no clima seco do Colorado.

Meu celular continuou mudo.

Nenhuma resposta do Caleb.

Tentei ligar. Chamou quatro vezes e caiu na caixa postal. A voz dele na gravação era seca e profissional:

—Você ligou para Caleb Claffey. Deixe seu recado.

—Oi, é a Emma. Eu estou na retirada de bagagens, na esteira três. Só... me avisa quando você chegar.

Desliguei e tentei mandar mensagem de novo. Depois abri o Instagram e mandei uma DM, mesmo aquilo me fazendo sentir patética.

Onde você está? A Victoria disse que você ia me buscar.

Nada. Silêncio total.

Ele estava fazendo isso de propósito. Tinha que estar. Quatro anos depois e ele ainda estava com raiva de mim.

Fiquei ali, no meio do Aeroporto Internacional de Denver, cercada por famílias se abraçando e viajantes a trabalho passando apressados, e me senti completamente sozinha.

Meu bem, o programa de pré-veterinária da Pinnacle State está entre os dez melhores do país. A voz da mamãe ecoou na minha cabeça. A gente estava sentada na nossa cozinha minúscula em Fort Lauderdale três semanas antes, e ela passava os dedos pelo meu cabelo do jeito que fazia quando eu era pequena. Morar com seu pai vai te economizar milhares em aluguel. Dezenas de milhares, na verdade. E além disso... Ela tinha feito uma pausa, escolhendo as palavras com cuidado. Você devia tentar construir uma relação com ele. Ele está tentando, Emma. Está mesmo.

Eu tinha prometido que ia tentar. Prometido que faria um esforço com a nova família do meu pai, mesmo que a ideia de morar com o Caleb — que estudava na mesma faculdade que eu ia começar — me desse um aperto no estômago.

Que ótimo esforço.

Abri o contato da Victoria e digitei: O Caleb não está respondendo. Vou pegar um Uber até a casa.

A resposta veio quase na hora: Ah, querida, não tem ninguém em casa agora — você ficaria presa do lado de fora no calor! O Caleb deve ter ido direto para o treino e não olhou o celular. Por que você não vai para o campus? A pista fica logo na entrada principal — é fácil de deixar lá. Você pode guardar as malas na Segurança do Campus (é bem ao lado da arena!) e pegar a chave com ele. E ainda dá pra conhecer a faculdade antes das aulas começarem! Vou te mandar o endereço.

Li a mensagem três vezes, depois olhei para minhas duas malas enormes.

Tudo bem. Estava tudo bem. Eu era uma adulta capaz, que conseguia lidar com um pequeno inconveniente logístico sem ter um colapso no meio de um aeroporto.

Então abri o aplicativo do Uber.

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