Capítulo 10
Ponto de vista de Caleb
Para. Para de pensar nisso.
Provavelmente não é nada. O Tyler fica com garotas aleatórias o tempo todo. As chances de ser a Emma são—
Mas eu não conseguia parar. Porque agora tudo o que eu via era a Emma embaixo do Tyler. As mãos da Emma no cabelo do Tyler.
Talvez eu esteja errado. Talvez eu esteja perdendo a porra da cabeça.
Não importava. As imagens continuavam vindo.
“Alô, Caleb.”
Tyler estalava os dedos na frente do meu rosto. Eu nem tinha percebido que ele tinha chegado tão perto.
“Tá tudo bem, cara? Você tá com aquela cara. A que você faz bem antes de mandar alguém pro hospital.”
“Eu tô bem.”
“Ah, vai se foder.” Tyler abriu um sorriso. “Você tá com cara de quem quer matar alguém. Qual é? Estresse do draft? Ou é—”
Ele não terminou.
Porque foi aí que aconteceu.
Tyler ainda estava brincando com o Alex, dando socos de mentira, rindo feito um idiota. Alex revidava, sorrindo, entrando na onda.
Então o cotovelo do Tyler acertou o pulso do Alex.
Houve um estalo baixo.
Alguma coisa verde caiu no gelo.
O sorriso do Alex morreu na hora.
Ele caiu de joelho, estendendo a mão para a pulseira quebrada como se fosse de diamantes, e não de linha barata. Os dedos dele se fecharam em volta dela com cuidado, quase com reverência.
“Porra, cara, foi mal mesmo!” Tyler se abaixou também, o sorriso finalmente vacilando. “Mas é só uma pulseira, né? Eu conheço um lugar aqui no centro que faz conserto. Eles são incríveis, juro. A gente deixa ela nova em folha—”
“Não.” A voz do Alex estava fria. Reta. Nada parecida com o calor fácil de trinta segundos atrás.
Ele juntou os pedaços e se levantou, fechando o punho em volta deles.
Tyler estendeu a mão. “Alex, qual é, deixa eu—”
“Não encosta.”
As palavras saíram cortantes. Definitivas.
Tyler congelou, mãos erguidas, como se o Alex tivesse puxado uma arma. “Tá. Tá, cara. Eu não quis—”
“Eu sei.” A mandíbula do Alex estava tensa. “Só... não.”
Ele enfiou a pulseira quebrada no bolso e se virou.
Tyler pareceu perceber também. Recuou, esfregando a nuca. “Não é da sua namorada misteriosa, é? Aquela com quem você vive trocando mensagem?”
Eu vi a mão do Alex dar um tranco na direção do bolso. Protetora. Possessiva.
“O técnico não deixa a gente namorar”, Alex disse, num tom controlado. “Você sabe disso.”
“É, mas regra foi feita pra ser quebrada.” Tyler tentou puxar o sorriso convencido de sempre, mas saiu fraco. “Quer dizer, desde que você não seja pego—”
“Eu não sou como você, Tyler.”
As palavras não foram maldosas. Só honestas.
Tyler deu de ombros, aceitando. Aí se virou para mim, desesperado para passar por cima do constrangimento.
“Qual foi, Caleb. Me ajuda aqui. Você vai me dizer que o Capitão América aqui nunca deu uma burlada numa regra? Nunca enfiou uma garota escondida no quarto?” Ele abriu os braços. “Vocês dois são bonitos demais pra serem monges. Principalmente você, Cap. Você tem esse lance de bad boy sombrio. As garotas adoram essa porra.”
Eu encarei ele.
Pensei no perfume da Emma nas roupas dele.
Pensei nele tocando nela.
“Deixa pra lá”, eu disse, baixo.
Alguma coisa na minha voz fez o sorriso do Tyler morrer. “Uau. Tá. Assunto delicado. Entendi.”
Ele resmungou algo sobre precisar de um banho e patinou em direção ao túnel, me deixando sozinho com o Alex no gelo.
Alex ainda encarava o bolso. A pulseira quebrada escondida lá dentro.
O silêncio se esticou.
“É de alguém importante”, ele disse por fim. Baixo. “Alguém com quem eu estraguei tudo.”
Eu não disse nada. Só esperei.
Alex nunca foi de falar demais. Ele guardava as cartas junto ao peito, a vida pessoal trancada ainda mais do que a minha. Mas havia algo no jeito como ele estava ali — ombros curvados, a mão pressionada contra o bolso — que me fez pensar que ele precisava conversar.
Ele patinou para longe antes que eu pudesse responder.
Fiquei ali sozinho no gelo, taco na mão, encarando o lugar onde Alex estava.
Alguém com quem eu estraguei tudo.
As palavras ecoaram na minha cabeça.
Pensei no jeito como Alex tinha agarrado aquela pulseira quebrada. Como se fosse uma prova. Evidência de algo que ele não conseguia largar.
Eu sabia como era aquilo. Se apegar a coisas quebradas. Usá-las como desculpa.
Como um maldito taco de hóquei.
Travei o maxilar.
Eu tinha encontrado a GoPro seis meses atrás.
A prova.
Eu a conectei por impulso. Rolei as filmagens antigas. Treinos de patinação. Treino de arremesso. Um monte de clipes aleatórios de que eu não lembrava de ter gravado.
Aí eu encontrei.
A viagem para Aspen. Quatro anos atrás. O depósito.
A filmagem me mostrava entrando no depósito. Emma já estava lá dentro, tentando alcançar os esquis na prateleira de cima. Ela tinha subido em uma caixa de madeira, esticando-se na ponta dos pés.
Eu me vi indo em direção ao suporte de equipamentos. Vi meu patim — o que eu estava carregando, não usando — balançar para fora quando eu virei. Vi ele bater no suporte da prateleira de baixo. A prateleira chacoalhou. Só um pouco.
No mesmo instante, Emma escorregou da caixa, os braços se debatendo para se equilibrar. O ombro dela bateu na estante.
Foi isso. A estrutura inteira tombou para a frente. Em câmera lenta. Inevável.
O taco de hóquei — já trincado desde quando eu tinha batido a porta da garagem nele no dia anterior — estava encostado na parede, bem embaixo. A prateleira que caiu aterrissou bem em cima dele.
Crac.
Quebrou limpo. Bem na parte enfraquecida.
A mão de Emma disparou para a frente enquanto ela caía, os dedos roçando nos pedaços quebrados.
Mas não tinha sido ela que quebrou. Foi a prateleira. A prateleira que eu tinha desestabilizado quando esbarrei.
Ela só estava ali. Lugar errado, hora errada.
E eu culpei ela mesmo assim. Gritei com ela. Fiz ela chorar. Passei quatro anos tratando-a como se ela tivesse destruído alguma coisa preciosa de propósito.
Por quê?
Eu sabia por quê.
Porque, no momento em que eu vi Emma Hart — aqueles olhos enormes e aquela energia nervosa — eu senti uma coisa que eu não tinha o direito de sentir.
Atração. Desejo. Um puxão tão forte que me apavorou pra caralho.
Ela devia ser minha irmã. Minha família. Proibida de todas as formas que importavam.
Mas meu corpo não estava nem aí para o que ela devia ser.
Então eu a afastei. Fiz ela me odiar. Porque ódio era mais seguro do que qualquer alternativa.
Ódio significava distância. Distância significava controle.
E eu precisava de controle. Porque, sem ele, eu faria algo imperdoável.
Como entrar no quarto dela. Como contar a verdade. Como tocar nela do jeito que eu vinha fantasiando desde que eu tinha dezesseis anos e ela apareceu na nossa casa usando um vestido de verão que me fazia querer—
Para.
Enterrei o taco no gelo. Com força. A lâmina raspou a superfície com um som de unhas num quadro-negro.
Ela é sua meia-irmã. Filha do David. Família.
Você não pode tê-la.
Você não pode desejá-la.
Você não pode—
“Caleb?”
Ergui a cabeça num tranco. Alex tinha patinado de volta, a preocupação estampada no rosto.
“Tá tudo bem, cara?”
Não. Não estava tudo bem. Eu era o oposto de estar bem.
Eu era um cara que tinha passado quatro anos punindo uma garota por algo que ela não fez. Um cara que deixou ela achar que ela era o problema quando, na verdade, eu era o problema.
Eu era quem não conseguia olhar para a própria meia-irmã sem querer ultrapassar todas as linhas que existiam.
“Tudo”, eu disse. “Vamos de novo.”
