Capítulo 3

Ponto de vista de Emma

O corredor atrás da porta era estreito e mal iluminado, com tiras fluorescentes zumbindo no teto. Fotos do time cobriam as paredes — fileiras de caras com camisas azuis e brancas, todos com uma cara intimidadora pra caramba. Tabelas de jogos estavam presas em murais de cortiça. Tudo cheirava a borracha, produto de limpeza e aquele fedor inconfundível de vestiário que fazia meu nariz enrugar.

Encostei o ouvido na porta seguinte. Silêncio. Só o rugido abafado da arena atrás de mim, distante o bastante para parecer seguro.

Eles estão todos lá fora. No gelo. Isso vai levar dois minutos. Pega as chaves e cai fora.

Empurrei a porta e abri.

O vestiário era exatamente como eu esperava — armários de metal alinhados nas paredes, bancos parafusados no chão, o cheiro forte de suor pairando no ar. Vazio. Graças a Deus.

Passei os olhos pelas plaquinhas com nomes acima de cada armário. LANE. McRAE. PORTER. Meus olhos continuaram se movendo, procurando, até eu encontrar, no canto.

CLAFFEY.

Meu pulso disparou quando puxei a porta do armário. Tacos de hóquei encostados no fundo. Proteções e equipamentos pendurados em ganchos. Uma bolsa preta de viagem estava na prateleira de baixo e, acima dela, uma jaqueta que tinha um leve cheiro de madeira de cedro. O aroma me atingiu antes que eu conseguisse evitar notar — limpo, masculino, irritantemente agradável.

Certo. Pensa. A Victoria só disse “pega a chave com o Caleb”. Não disse onde ele guarda. Mas ele está no treino, então as roupas normais dele têm que estar em algum lugar aqui. As pessoas não deixam a chave de casa jogada por aí — elas deixam com a carteira, o celular, esse tipo de coisa. Provavelmente na bolsa.

Estendi a mão para o bolso externo da bolsa, os dedos atrapalhados no zíper.

Passos.

Meu coração parou. Parou mesmo. O som vinha do corredor, chegando mais perto, e eu tinha, no máximo, três segundos antes de quem quer que fosse entrar por aquela porta.

Bati a porta do armário e me virei num giro. O vestiário tinha uma área de chuveiros de um lado, algumas cabines de banheiro e, no canto —

Um cesto de roupa enorme.

Não. Não tem como. Eu não vou—

Os passos estavam bem do lado de fora.

Me joguei no cesto, arrancando a tampa e praticamente me atirando lá dentro. Camisas úmidas e equipamento de treino amorteceram minha queda. Puxei a tampa para baixo bem na hora em que a porta abriu; então peguei uma camiseta suada e joguei por cima da minha cabeça, me enfiando mais fundo no monte.

O cheiro me atingiu como uma parede física. Suor. Suor velho. Do tipo que ficou fermentando ali por dias. Meu estômago revirou, e eu pressionei a mão sobre o nariz e a boca, tentando não engasgar.

Só respira pela boca. Não pensa nisso. Ele vai embora em um minuto.

Ouvi passos atravessando o cômodo. Uma porta de armário se abrindo. O farfalhar de roupa.

Por uma fresta entre duas camisas, eu conseguia ver ele. Alto. Ombros largos. Ele foi até um armário algumas fileiras abaixo do do Caleb e começou a tirar a camisa de treino.

Ai, meu Deus. Ai, não. Eu estou vendo alguém se trocar. Um garoto. Um atlético.

Ele puxou a camisa pela cabeça, e eu tive uma visão completa do peito dele — peitorais definidos, abdômen que parecia esculpido em pedra, o suor brilhando na pele enquanto descia pelas linhas dos músculos. Ele jogou a camisa de lado e levou a mão ao cós.

Meu rosto entrou em combustão. Eu sentia o calor descendo pelo pescoço, e tive que morder a parte de dentro da bochecha para não fazer nenhum som.

Tudo bem. Isso é totalmente normal. Só um cara se trocando. Acontece todo dia. Não tem nada de estranho em estar escondida por acidente num cesto de roupa e assistir a isso.

Ele empurrou a calça de treino para baixo e, agora, estava ali parado com nada além de um short de compressão que não deixava absolutamente nada para a imaginação.

Tá, então talvez o material do sonho de hoje à noite tenha acabado de subir de nível de um jeito sério—

Eu me odiei imediatamente por pensar aquilo.

Mas então ele parou. Só ficou ali, encarando o próprio pulso direito. Tinha uma pulseira ali — verde, trançada, daquelas que alguém faz à mão. O polegar dele passou por cima, lento e deliberado, e a expressão inteira dele mudou. A pose de atleta metido desapareceu, substituída por algo que parecia quase... triste.

A garganta dele se mexeu. Uma vez. Duas. Como se ele estivesse tentando engolir alguma coisa.

Eu esqueci o cheiro. Esqueci o fato de que eu estava literalmente escondida num monte de roupa suja. Tudo o que eu conseguia ver era o jeito como ele tocava aquela pulseira, como se fosse a única coisa mantendo ele com os pés no chão.

Quem deu isso pra ele?

Minha perna deu cãibra. Aguda, repentina, o músculo travando por estar dobrado num ângulo estranho. Tentei me mexer, só um pouquinho, pra aliviar a pressão, e minha mão encostou em alguma coisa molhada.

Olhei pra baixo.

Uma meia. Encharcada. Com manchas brancas endurecidas no tecido.

Ah, não. Ah, não, não, não, não—

Meu estômago revirou. Eu não consegui impedir a reação. Não consegui segurar. Eu explodi pra fora do cesto como se alguém tivesse botado fogo nele, arfando por ar, as mãos apoiadas nos joelhos enquanto eu tentava não vomitar no chão.

Quando levantei o olhar, ele estava me encarando.

Ainda de shorts de compressão. Segurando uma camiseta limpa numa mão. A expressão dele foi de choque a desconfiança em mais ou menos meio segundo.

— Quem diabos é você? — A voz dele foi cortante. Exigente. — Como você entrou aqui?

— Eu— eu não— não é o que parece—

Os olhos dele se estreitaram. Aí a compreensão amanheceu no rosto dele e, de algum jeito, isso foi pior.

— Você é uma delas, não é? — Ele pegou a calça e enfiou de uma vez. — Uma Puck Bunny.

Eu não fazia a menor ideia do que aquilo significava, mas não soava nada bom.

— O quê? Não, eu—

— Nem tenta. — Ele me cortou, fechando o zíper do jeans. — Vocês são doidas. Invadindo o vestiário, roubando coisa, tirando foto... o que foi dessa vez? Queria a camisa do Caleb? O equipamento dele? Ou estava esperando pegar ele se trocando?

Tecnicamente sim, mas não pelo motivo que você está pensando—

— Eu não tava— eu não sou—

— Guarda isso. — Ele pegou a camisa e puxou pela cabeça. — Da próxima vez que eu te pegar aqui, eu vou direto falar com o técnico. Entendeu?

— Desculpa, eu só vou— — recuei em direção à porta, o rosto queimando tanto que eu achei que minha pele ia literalmente derreter. — Eu tô indo embora. Agora.

Eu saí correndo.

O corredor girava ao meu redor enquanto eu tropeçava pra fora, encostando as costas na parede e puxando ar que não cheirava a risco biológico. Minhas mãos tremiam. Minha blusa — olhei pra baixo e quis morrer. Tinha manchas nela. Manchas de suor. E outra coisa que eu não queria identificar.

Perfeito. Simplesmente perfeito. Agora eu não sou só a garota que invadiu o vestiário — eu sou a garota que invadiu o vestiário e rolou na roupa suja deles como uma superfã surtada.

Vozes ecoaram pelo corredor. Várias vozes. Se aproximando.

O treino tinha acabado.

— ...eu te falei que eu não vou — alguém dizia. Voz masculina. Confiante. — Tenho coisa pra fazer.

— Cara, você literalmente reclamou ontem de ter que buscar sua irmã no aeroporto hoje. — Outra voz, provocando. — O que aconteceu com isso?

Meu corpo inteiro gelou.

— Eu não tenho irmã.

A voz do Caleb. Eu reconheceria em qualquer lugar — aquele tom seco, duro, que ele sempre usava quando estava puto.

— Aquela pessoa não é minha irmã.

As palavras me atingiram como um soco no peito. Não como metáfora. Uma sensação física de verdade que fez meus pulmões pararem de funcionar.

Claro. Claro que ele ainda me odeia. Quatro anos e ele ainda guarda rancor.

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