Capítulo 4
Ponto de vista de Emma
Os passos estavam se aproximando. Mais altos. Várias vozes ecoando por aquele corredor estreito, e eu já conseguia distinguir palavras soltas — algo sobre shakes de proteína, a namorada de alguém, a típica conversa de vestiário que fazia meu estômago se contrair ainda mais.
Empurrei a porta da saída de emergência com tanta força que ela bateu com estrondo na parede de concreto. A escadaria me engoliu inteira — estreita, mal iluminada, cheirando a poeira e tinta velha. Minha respiração ecoou nas paredes de blocos de concreto enquanto eu encostava as costas na superfície fria.
Tá. Tá. Respira fundo. Você tá bem. Você conseguiu sair.
Só que eu não estava bem. Olhei para a minha camiseta — minha camiseta vintage favorita do Fleetwood Mac, que eu tinha comprado num brechó em Tampa — e deu vontade de gritar. Manchas escuras manchavam o tecido. Marcas de suor. E outras coisas que eu definitivamente não queria identificar. O cheiro vinha em ondas toda vez que eu me mexia. Forte. Azedo. Aquele tipo de fedor que gruda nas narinas e se recusa a ir embora.
Levantei o braço e me arrependi na hora.
Meu Deus. Eu tô fedendo a porão de fraternidade. Não — pior. Eu tô fedendo a seja lá que experimento de risco biológico tava acontecendo naquele cesto de roupa suja.
Minhas mãos tremiam enquanto eu começava a descer as escadas. Cada degrau parecia mecânico. Automático. Meu cérebro estava ocupado demais reprisando os últimos cinco minutos num looping infinito.
Invadir o vestiário. Mergulhar num cesto cheio de sabe-se-lá-o-quê. Ver um jogador de hóquei aleatório se despir até ficar só de shorts de compressão. Ser pega. Ser chamada de Puck Bunny.
Ótimo. Maravilhoso. A cota de humilhação de hoje oficialmente estourou. Morte social, ok. Rotulada como uma perseguidora esquisita, ok. Eu compro uma passagem de volta pra Flórida agora ou espero isso ficar ainda pior?
Cheguei ao patamar entre os andares e parei. Encostei na parede. O concreto estava gelado através da minha camiseta arruinada, mas eu não liguei. Eu precisava de algo sólido. Algo real. Porque todo o resto parecia estar saindo do controle.
E então a voz dele ecoou na minha cabeça de novo.
"Eu não tenho irmã."
As palavras soaram diferente agora. No caos da fuga, eu estava apavorada demais para realmente processar. Mas agora, sozinha nessa escadaria que cheirava a produto de limpeza industrial e arrependimento, elas afundaram fundo.
"Aquela pessoa não é minha irmã."
Meu peito apertou. Não aquela dor aguda de um ataque de pânico — eu sabia como era. Isso era mais opaco. Mais pesado. Como se alguém tivesse enfiado a mão e apertado meus pulmões só o suficiente para dificultar a respiração.
Claro que ele ainda me odeia.
Me afastei da parede e continuei descendo. Meus tênis rangeram no concreto dos degraus. Cada rangido parecia alto demais no silêncio.
Ele não consegue nem me chamar de irmã. Nem pros colegas de time. Nem de brincadeira.
Eu me lembrei da ligação. Quatro anos atrás. Eu estava sentada na cozinha da minha mãe em Clearwater, fazendo tarefa de verão, quando o pai ligou. A voz dele estava tão animada. Quase eufórica.
— Querida! Tenho uma notícia. Uma notícia enorme.
Eu larguei o lápis.
— O que foi?
— Eu me casei.
O mundo inclinou para o lado. Não de um jeito ruim — só inesperado. O pai estava saindo com a Victoria havia quase um ano, mas eu não achava que fosse tão sério assim.
— Casou? Quando?
— No fim de semana passado. Uma cerimônia pequena. Só nós e alguns amigos. — Ele fez uma pausa. — Eu queria te contar pessoalmente, mas... bem, estou te contando agora. E aqui vai a parte realmente legal: você tem um irmão agora.
Irmão. A palavra soou estranha. Estrangeira. Eu tinha sido filha única a vida inteira.
— O nome dele é Caleb — o pai continuou, o entusiasmo transbordando pelo telefone. — Ele tem a sua idade. Joga hóquei. Um garoto muito talentoso. Acho que vocês dois vão se dar muito bem.
Eu tinha tentado imaginar como seria. Ter um irmão. Alguém com quem dividir os feriados. Alguém que entendesse como era ter pais divorciados e uma dinâmica familiar complicada.
Talvez isso não seja tão ruim, eu tinha pensado.
Aquele foi o dia em que Caleb virou meu irmão no papel. Aspen foi a semana em que ele fez questão de que eu entendesse que, na vida real, nunca seria.
A lembrança mudou. Me puxou de volta quatro anos, para aquele inverno—
Nós estávamos em Aspen. Um resort de esqui chique que Victoria tinha reservado para as nossas “primeiras férias em família”. O tipo de lugar onde tudo era madeira e pedra e um rústico de grife. Onde o chocolate quente custava doze dólares e vinha com marshmallow artesanal.
A cabana tinha janelas do chão ao teto com vista para montanhas cobertas de neve. Uma lareira que estalava e crepitava. Móveis de couro que provavelmente custavam mais do que o carro da minha mãe.
Victoria estava no modo madrasta total. Sorrindo. Sugerindo atividades. Tentando tanto deixar todo mundo à vontade que aquilo deixava tudo ainda mais constrangedor.
“Por que vocês dois não vão pegar o equipamento de esqui no depósito?” ela disse naquela primeira manhã. “O Caleb pode te mostrar como escolher o tamanho certo.”
Meu pai assentiu, empolgado. “Ótima ideia! Vocês dois podem se aproximar.”
Caleb olhou para mim pela primeira vez desde que tínhamos chegado. Os olhos azul-gelo dele estavam completamente vazios. “Tá. Vamos.”
O depósito ficava no porão. No fim de um corredor estreito que cheirava a cedro e naftalina. Caleb destrancou a porta e acendeu a luz — uma única lâmpada nua pendurada no teto, balançando, projetando sombras estranhas pelas paredes forradas de equipamento.
Esquis. Pranchas de snowboard. Capacetes. Bastões. Tudo empilhado e enfiado num espaço mal maior do que o armário do meu quarto.
“As pranchas ficam lá no fundo”, Caleb disse. A voz dele era neutra. Entediada. Como se ele preferisse estar literalmente em qualquer outro lugar.
Eu o segui para dentro. Tentei puxar conversa. “Então... você esquia muito?”
“Às vezes.”
“Legal. Eu nunca fui. É difícil?”
“Não muito.”
Cada resposta era uma parede. Uma porta batendo na minha cara.
Ele foi até o canto do fundo, onde as pranchas de snowboard estavam empilhadas na vertical, encostadas na parede. Eram altas — mais altas do que nós dois — e ele teve que ficar na ponta dos pés para pegar a que queria.
Eu queria ajudar. Queria fazer alguma coisa útil. Então dei um passo à frente, subi numa caixa de madeira para ter um ângulo melhor—
E meu pé escorregou.
A caixa tombou. Eu joguei as mãos para a frente, tentando me segurar, e meu cotovelo bateu com força numa estante metálica de equipamentos. A estrutura inteira tremeu. Bastões de esqui tilintaram. E então eu ouvi — um estalo. Seco e definitivo.
Eu caí com força no chão de cimento. A dor explodiu pelo meu braço.
“Merda”, eu ofeguei. “Merda, merda, merda—”
Caleb se virou num giro. E foi aí que eu vi.
Um taco de hóquei. No chão, ao meu lado. Quebrado, limpo, ao meio.
A caixa de madeira em que eu estava tinha tombado contra a estante. A estante tinha batido numa prateleira. E a prateleira tinha derrubado o taco — que estava apoiado no canto — fazendo-o despencar.
Bem onde o meu joelho tinha aterrissado quando eu caí.
O veio da madeira estava exposto no ponto da quebra. Lasqueado. Cru. O cabo tinha partido bem acima da lâmina, e as duas partes ficaram ali, como uma acusação.
Meu coração parou. Parou de verdade.
“Eu não—” Eu me atrapalhei para ficar de pé. “Eu não quis— eu só estava tentando ajudar—”
Mas Caleb não estava olhando para mim. Ele encarava o taco quebrado. O rosto dele tinha ficado branco. Totalmente sem cor. Ele caiu de joelhos e pegou as duas partes com as mãos tremendo.
Os dedos dele seguiram a linha da quebra. Devagar. Deliberadamente. Como se ele não conseguisse acreditar no que estava vendo.
“Me desculpa”, eu disse. Minha voz falhou. “Eu não encostei de propósito — a estante caiu e—”
“Sai daqui.”
As palavras foram baixas. Baixas demais.
“Caleb, por favor, eu posso consertar—”
