Capítulo 5

Ponto de vista de Emma

"Eu disse pra sair." Caleb tinha erguido o olhar então. Os olhos dele estavam vermelhos. Não um vermelho de raiva — um vermelho de devastação. O tipo de vermelho que vem de segurar o choro com tanta força que o corpo inteiro treme. "Sai dessa porra daqui."

Eu tinha saído correndo. Tropeçado de volta escada acima com o cotovelo latejando e a garganta apertada e o cérebro gritando que eu tinha estragado tudo.

Mais tarde — depois que Victoria me encontrou chorando no meu quarto, depois que ela explicou que o taco tinha pertencido ao primeiro treinador do Caleb, o homem que tinha descoberto o talento dele e o treinado por anos antes de morrer num acidente de carro — eu entendi.

Aquele taco tinha uma assinatura. Uma data. Uma semana antes de o treinador morrer.

Era a última coisa que o Caleb tinha dele.

E eu tinha destruído.

Liguei para a minha mãe naquela noite. Implorei para ela encontrar alguém que pudesse consertar. Ela descobriu um especialista em restauração de memorabilia esportiva em Denver, que cobrou três mil dólares para reparar a quebra de um jeito tão perfeito que mal dava para ver a emenda.

Eu devolvi para o Caleb no último dia da viagem. Envolto em papel de seda. Minhas mãos tremendo enquanto eu estendia para ele.

"Eu mandei consertar", eu disse. "Eu sei que não é a mesma coisa, mas—"

Ele pegou. Olhou o reparo. O maxilar dele se mexeu como se estivesse mastigando palavras que não queria dizer.

"Valeu", ele murmurou por fim.

Foi isso. Uma palavra. Seca. Vazia.

Ele nunca mais olhou para mim do mesmo jeito.


Cheguei ao térreo e empurrei a porta de saída, indo direto para uma luz do sol ofuscante. O calor me deu um tapa na cara depois do ar-condicionado do prédio. Agosto no Colorado era estranho — quente durante o dia, frio à noite — e meu corpo ainda não tinha se ajustado depois da umidade da Flórida.

Puxei o celular. Chamei um Uber. O motorista — um cara de meia-idade, com um aromatizador dos Broncos pendurado no retrovisor — me pegou em menos de cinco minutos.

— Primeiro a segurança do campus — eu disse a ele. — Depois Oak Creek Estates.

Ele assentiu e saiu da guia.

O escritório da segurança era um prédio pequeno de tijolos perto da entrada principal. Entrei correndo, peguei minha mala na sala de depósito onde eles tinham guardado, e voltei para o carro. Tudo levou, no máximo, uns três minutos.

— Certo — disse o motorista. — Oak Creek?

— Isso. 2847 Maple Ridge Drive.

A viagem levou mais quinze minutos. Ruas residenciais ladeadas de árvores. Gramados bem cuidados. Crianças andando de bicicleta. O tipo de bairro que parecia ter sido projetado por alguém que assistiu a comédias de família demais.

Quando paramos em frente à casa, entreguei dinheiro ao motorista e desci com minha mala.

E então eu só fiquei ali parada.

A casa era bonita. Muito bonita. Revestimento bege com acabamento marrom-escuro. Gramado impecável. Garagem para dois carros. O tipo de lugar que gritava “família suburbana de classe média alta” de um jeito que fazia o apertado apartamento da minha mãe em Tampa parecer ainda menor em comparação.

Peguei o celular. Conferi a hora. Victoria tinha dito que eles não voltariam para casa antes das seis — alguma coisa sobre a concretagem do meu pai atrasar e ela ter reuniões em sequência com clientes. Agora mal eram quatro e meia.

Eu podia simplesmente dizer ao meu pai que preciso de uns dias para me ajeitar. Pegar um hotel barato. Evitar toda essa situação constrangedora de morar junto até as aulas começarem—

Um motor roncou atrás de mim.

Eu me virei.

Uma SUV prateada entrou na garagem. A porta do motorista se abriu e meu pai desceu, o rosto já se transformando naquele sorriso culpado que ele sempre fazia quando sabia que tinha feito merda.

—Emma! Meu amor! Você conseguiu chegar! —ele veio trotando até mim. —Desculpa mesmo por hoje. A concretagem terminou mais cedo —graças a Deus—, mas eu não consegui sair a tempo de ir te buscar pessoalmente. Achei que a Victoria tinha dito pra você encontrar o Caleb.

—Sim, tudo bem, pai. Sério. Eu dei um jeito.

Victoria apareceu do lado do passageiro. Estava vestida num social casual —calça e blusa de seda—, mas de algum jeito conseguia parecer elegante em vez de engomada. O cabelo escuro estava preso num coque certinho.

Ela veio até mim e me puxou para um abraço antes que eu pudesse reagir.

—Bem-vinda de volta, querida. Fico tão feliz que você esteja aqui. Eu estava com medo de você ficar presa lá fora esperando nesse calor.

O abraço foi quente. De verdade. Fez meu peito doer de um jeito que eu não sabia explicar.

—Obrigada —murmurei no ombro dela.

Ela se afastou e me examinou. O nariz dela enrugou de leve.

—Você… teve algum acidente com a sua bagagem?

Ai, meu Deus. O cheiro.

—Eu… ahn… aconteceu uma situação no aeroporto. —A mentira saiu lisa. Ensaiada. —A retirada de bagagens estava um caos.

—Ah, não. —A expressão de Victoria virou preocupação. —Bom, vamos dar um jeito de te deixar limpinha. Cadê o Caleb? Ele não te encontrou no rinque?

Meu estômago despencou.

—Ele… estava ocupado. Treino.

As sobrancelhas de Victoria se juntaram.

—O quê? Não. Eu disse especificamente pra ele te encontrar lá. Eu mandei três mensagens.

—Talvez ele não tenha visto? —arrisquei, sem convicção.

—Ele viu. —Agora havia uma ponta cortante na voz dela. Aquele tom que significava que alguém estava prestes a levar uma bronca. —Aquele garoto…

A porta da frente se abriu.

Caleb saiu carregando a bolsa de academia, o cabelo ainda úmido do banho. Estava de jeans escuro e uma camiseta do hóquei da PSU que grudava nos ombros dele de um jeito que devia ser ilegal.

Os olhos dele prenderam nos meus. Alguma coisa passou pelo rosto —surpresa? Reconhecimento? Culpa?— antes de a expressão ficar completamente vazia.

Victoria se virou para ele na mesma hora.

—Caleb Michael Claffey. Eu mandei você encontrar a Emma no rinque.

—O treino passou do horário. —A voz dele era plana. Entediada. Como se aquela conversa fosse inferior a ele.

—Isso não é desculpa—

—Victoria, tudo bem —meu pai interrompeu. Ele já estava indo em direção à porta da frente, claramente desesperado para evitar confronto. —A Emma está aqui agora. É isso que importa. Vou lá começar o jantar—

—David—

—Sério, querida. Tá tudo bem. Vamos só deixar todo mundo acomodado.

Victoria suspirou. Um suspiro que dizia a gente conversa sobre isso depois. Ela voltou para mim com uma expressão mais suave.

—Vem, querida. Vou te mostrar seu quarto. Segundo andar, primeira porta à esquerda.

Peguei minha mala e comecei a subir os degraus da entrada. Caleb ainda estava ali, bloqueando metade da passagem. Eu tive que me espremer para passar por ele.

Foi quando ele travou.

O nariz dele se mexeu. Os olhos se estreitaram. E então o rosto inteiro dele virou algo entre confusão e nojo.

—Mas que porra… —ele se inclinou um pouco mais. Cheirou. —Você tá com cheiro de… de aquela vez que a gente pegou o Tyler no vestiário quando ele tava—

Ele parou. No meio da frase. Os olhos se arregalaram.

E eu soube. Eu soube exatamente o que ele ia dizer.

Meu rosto ficou em combustão. O calor inundou minhas bochechas tão rápido que eu fiquei tonta. Porque eu sabia o que ele tinha sentido. Eu sabia o que ainda estava grudado na minha roupa.

Aquela meia. Aquela maldita meia dura e encardida do cesto de roupa suja.

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo