Capítulo 6
Ponto de vista de Emma
Bati a porta atrás de mim e tranquei. Minhas costas bateram na madeira e eu fiquei ali, parada, arfando como se tivesse corrido uma maratona.
Meu Deus. Meu Deus. Ele sentiu o cheiro. Ele realmente sentiu o cheiro.
Meu rosto estava pegando fogo. Aquele tipo de ardor que faz os olhos lacrimejarem e o couro cabeludo formigar. Eu ainda conseguia ver o jeito como o nariz dele tinha tremido. O jeito como os olhos dele tinham se arregalado, reconhecendo na hora.
Nunca mais vou sair deste quarto. Vou morrer aqui. Daqui a cinquenta anos vão encontrar meu esqueleto ainda prensado contra esta porta.
Eu me deixei escorregar até o chão e enterrei o rosto nas mãos. Puxei algumas respirações trêmulas.
Tá. Tá. Ele é atleta. Eles provavelmente fazem piadas nojentas de vestiário sobre essas coisas o tempo todo. Talvez ele só... esqueça. Finja que nunca aconteceu.
Aham. Sei.
Eu me obriguei a levantar, me afastei da porta e olhei em volta do quarto. Paredes cor de creme. Piso de madeira. Uma cama queen com um edredom azul-marinho. Simples. Limpo. Normal.
Sobre a escrivaninha, perto da janela, havia um cartão de boas-vindas apoiado ao lado de um vaso de girassóis. Fui até lá e peguei o cartão.
Bem-vinda ao lar, Emma, na caligrafia caprichada de Victoria.
Minha garganta apertou. Ela tinha tentado de verdade. Tinha pensado em como me fazer sentir desejada ali.
Ao contrário do filho dela, que tinha acabado de me humilhar publicamente na porta.
Soltei o cartão e peguei o saco de lixo debaixo da escrivaninha. Tirei a blusa e o short e enfiei tudo lá dentro. Dei um nó duplo, como se eu pudesse selar todo o desastre de hoje.
O banheiro era ligado ao meu quarto. Abri o chuveiro no máximo de quente e entrei debaixo do jato.
A água bateu na minha pele e, enfim, eu me permiti respirar. Deixei o calor queimar o cheiro de aeroporto e o fedor de vestiário e cada segundo mortificante deste dia.
É só deixar tudo ir pelo ralo. Tudo. A meia dura de sujeira. O sorrisinho dele. Aquele rosto estupidamente lindo quando ele se inclinou e me cheirou como se eu fosse algum experimento científico que deu errado.
Esfreguei o cabelo duas vezes. Usei metade do sabonete líquido. Fiquei debaixo d’água até meus dedos enrugarem e o banheiro encher de vapor.
Quando finalmente fechei o chuveiro, eu me senti quase humana de novo.
Troquei por roupas limpas — um short de algodão macio e uma camiseta enorme da PSU que o papai devia ter deixado para mim — e desci.
Vozes vinham da cozinha. Parei no patamar, meio escondida atrás da parede.
Papai estava no fogão usando um avental que dizia “Sargento da Churrasqueira”. Ele virava alguma coisa numa frigideira enquanto Victoria estava sentada na ilha da cozinha com o laptop aberto, digitando rápido.
— Amor, o fogo está alto demais — ela disse sem levantar os olhos.
— Eu sei, eu sei. — Papai ajustou a chama.
Era uma cena tão normal. Doméstica. Do tipo que eu via em filmes, mas nunca tinha vivido de verdade. Mamãe e eu sempre comíamos comida de delivery ou janta de micro-ondas enquanto ela fazia o segundo turno.
Caleb estava no sofá da sala, rolando a tela do celular. O cabelo dele ainda estava úmido. Ele tinha trocado para uma calça de moletom cinza e uma camiseta preta que destacava os braços.
Eu me forcei a desviar o olhar e desci o resto da escada.
— Emma! — Papai me viu na hora. — Chegou na hora perfeita. O jantar já vai ficar pronto.
Victoria fechou o laptop e sorriu.
— Como foi o banho? Está se sentindo melhor?
— Sim. Obrigada.
— Vem sentar. — Ela deu um tapinha no banco ao lado dela.
Eu me sentei. Caleb ergueu os olhos do celular, encontrou os meus por meio segundo e então desviou.
Ótimo. De volta a fingir que eu não existo.
Papai trouxe pratos de salmão grelhado com molho de manteiga e limão, legumes assados e arroz. Parecia bom. Bom mesmo.
Nós nos sentamos à mesa de jantar. Eu fiquei de frente para Victoria. Caleb ficou na diagonal de mim. O mais longe possível, ainda estando na mesma mesa.
Papai ergueu a taça de vinho. Caleb e eu estávamos com suco.
— À Emma, oficialmente entrando para a nossa família!
Eu levantei meu copo e tentei sorrir. Victoria encostou o dela no meu, com um olhar caloroso.
— Come tudo, querida. Você parece mais magra do que no ano passado. — Ela me passou os legumes. — Ah, e amanhã a gente devia ir fazer compras pro churrasco da família. Você vem comigo, né?
Parei com o garfo a meio caminho da boca.
— Churrasco da família?
Meu pai se apressou em responder, com a voz animada:
— É! Todo ano, no último fim de semana de agosto, a gente faz um encontrozinho. Só nós. A gente faz churrasco, nada na piscina, fica de boa no quintal. Agora que você está aqui, vamos estar todos juntos.
Meu estômago se revirou. Um dia inteiro. Presa no quintal com o Caleb.
Victoria se virou para ele.
— Amor, você tem treino nesse dia? O técnico disse que a última semana antes de começarem as aulas ia ser mais leve, né?
Caleb pousou o garfo. A voz dele saiu sem emoção.
— Talvez eu tenha planos.
As sobrancelhas de Victoria se franziram.
— Que planos? O churrasco é sábado à tarde. Você só tem treino de manhã.
Silêncio.
Os olhos de Caleb deram um salto até mim. Só por um segundo. Mas eu vi.
Vi exatamente o que tinha ali. O mesmo olhar que ele tinha me dado quatro anos atrás quando eu entreguei aquele taco de hóquei consertado. Frio. Distante. Como se eu fosse algo que ele tinha que tolerar, mas preferia evitar.
Ele não quer ficar perto de mim. Claro que não. Por que alguma coisa mudaria?
— Eu vejo — ele disse, por fim.
Meu pai entrou rápido no meio:
— Tudo bem, tudo bem. Sem pressão. A gente resolve.
Eu me concentrei em cortar o salmão em pedacinhos minúsculos. Empurrei a comida pelo prato.
Minha boca se abriu antes que eu conseguisse impedir:
— Você vai pro campus todo dia? Mesmo sem as aulas terem começado?
Caleb me olhou. Me olhou de verdade. Os olhos azul-gelo dele eram indecifráveis.
— Pré-temporada. O time de hóquei volta um mês antes.
Victoria acrescentou:
— O Caleb está no penúltimo ano agora. É crucial pro draft da NHL. Os treinadores são bem rígidos.
Assenti. Tentei parecer interessada e não como se meu cérebro estivesse dando cambalhotas.
Ele some durante o dia. Ele some durante o dia. Eu não vou ter que ver ele. Posso evitar ele completamente, exceto no jantar e—
Mordi a parte de dentro da bochecha para não sorrir. Baixei o olhar para o prato e serrei um pedaço de salmão com o garfo.
Talvez isso dê certo.
Depois do jantar, ajudei meu pai a colocar a louça na lava-louças enquanto Victoria respondia e-mails do trabalho e Caleb sumia escada acima.
— Obrigado por ajudar, querida — meu pai disse. Ele parecia cansado, mas feliz. — Fico muito contente que você esteja aqui.
— Eu também, pai.
A mentira saiu fácil.
Voltei pro meu quarto e fiz uma chamada de vídeo com a mamãe.
Ela atendeu no segundo toque, o rosto enchendo a tela.
— Bebê! Como está o Colorado? Está se adaptando bem?
— Sim, está tudo bem. A casa é bonita. A Victoria é um amor.
— E o David? Ele está te tratando bem?
— Ele fez o jantar. E ficou muito bom, na verdade.
Mamãe sorriu.
— Que maravilha. E o Caleb? Vocês dois estão se dando bem?
Minha mente piscou com a imagem do aeroporto. O vestiário. A porta. O rosto dele quando sentiu meu cheiro.
— A gente está bem. Ele está ocupado com as coisas do hóquei.
— Que bom. Lembra: agora vocês são família. Faz um esforço pra criar laços com ele, tá?
— Tá, mãe.
A gente conversou por mais uns dez minutos, até ela precisar ir. Desliguei e me joguei de costas na cama.
Família. Certo. Porque é exatamente isso que eu e o Caleb somos.
Me preparei pra dormir. Escovei os dentes. Lavei o rosto. Me enfiei debaixo das cobertas.
O cansaço me atingiu de uma vez só. Meu corpo afundou no colchão. As pálpebras pesaram.
Pelo menos hoje acabou. Pelo menos nada mais pode dar errado.
Eu estava começando a pegar no sono quando ouvi.
Toc. Toc. Toc.
Pisquei. Encarei o teto.
Eu estou imaginando. Já dormi.
Toc. Toc.
— Emma?
Meus olhos se arregalaram. Sentei tão rápido que a cabeça girou.
Era a voz do Caleb. Do lado de fora da minha porta. Às — peguei o celular — onze e meia da noite.
Que porra é essa?
Saí da cama e fui até a porta. Parei ali, com a mão na maçaneta.
— O quê?
Silêncio. Aí:
— Sobre hoje. A coisa do aeroporto. Eu devia ter ido te encontrar. Desculpa.
Fiquei olhando para a porta. Meu cérebro simplesmente travou.
Ele está pedindo desculpas. Caleb Claffey está pedindo desculpas.
Que diabos está acontecendo agora?
