Capítulo 7
Ponto de vista de Emma
Fiquei ali, congelada, com a mão ainda na maçaneta, encarando os veios da madeira como se eles pudessem me dar respostas.
Ele pediu desculpas. Caleb Claffey realmente pediu desculpas.
Pela fresta embaixo da porta, eu conseguia ver a sombra dos pés dele. Ele não tinha se mexido. Só estava ali no corredor, às onze e meia da noite, esperando eu dizer alguma coisa.
Meu cérebro repetia a voz dele. Plana. Mecânica. “Eu devia ter ido te buscar. Foi mal.”
Não “me desculpa”. Só “foi mal”. Como se estivesse marcando um item numa lista que a mãe dele tinha entregado.
A Victoria obrigou ele a fazer isso? É por isso que ele parece estar lendo um roteiro?
Encostei o ouvido na porta. Ouvi a respiração dele — lenta, controlada. O tipo de respiração que você faz quando está tentando não surtar.
Por meio segundo, eu quis abrir a porta. Quis ver o rosto dele, ver se havia alguma coisa de verdade por trás daqueles olhos azul-gelo.
Mas então minha mente voltou ao vestiário. Ele ali com Tyler e Cody, rindo de alguma coisa. O jeito como ele olhou através de mim quando eu perguntei da irmã dele.
“Eu não tenho irmã.”
Minha mão apertou a maçaneta até os nós dos dedos ficarem brancos.
Não. Eu não vou fazer isso. Não vou ser a meia-irmã patética que se apaixona por qualquer migalha de atenção que ele joga na minha direção.
Respirei fundo. Tentei fazer minha voz soar normal. Indiferente.
“Eu sei. Tudo bem. Eu cheguei em casa de qualquer jeito.”
Silêncio.
Eu conseguia sentir ele processando aquilo. Quase dava para ouvir as engrenagens girando na cabeça dele.
Então a voz dele voltou, e soou diferente. Mais afiada. “…Só isso?”
Eu quase ri. Quase.
O que ele esperava? Que eu escancarasse a porta e dissesse que estava tudo perdoado porque ele se dignou a dizer duas palavras?
“Eu estava prestes a dormir”, eu disse. “Então… boa noite.”
Mais silêncio. Mais longo dessa vez.
Então a voz dele baixou. Mais dura. “Emma. Abre a porta. A gente devia conversar cara a cara.”
Meu pulso disparou. Eu ouvia nos ouvidos, aquela batida idiota que fazia minhas mãos tremerem.
Não. Não, não, não. Se eu abrir essa porta, vou olhar para o rosto dele e vou ceder. Eu sempre cedo.
Em vez disso, encostei as costas na porta. Senti a madeira fria nas escápulas através da camiseta.
“Caleb.” Minha voz saiu mais firme do que eu me sentia. “Você lembra do que você disse?”
Pausa.
“O quê?”
Fechei os olhos. Vi ele parado naquele chalé de esqui quatro anos atrás, o maxilar tenso, os olhos frios como a neve lá fora.
“Depois do chalé de esqui. Depois do taco quebrado. Você disse que a gente não era obrigado a ser irmãos próximos. Que manter distância seria melhor para nós dois.” Engoli em seco. “Eu só estou fazendo o que você pediu.”
As palavras ficaram suspensas no ar entre nós. Entre essa porta.
Ouvi ele soltar o ar. Seco. Como se eu tivesse dado um soco nele.
Depois, nada.
Esperei. Contei minhas batidas do coração. Uma. Duas. Três.
Por fim, passos. Pesados. Deliberados. Se afastando pelo corredor.
Eu escorreguei até o chão, com as costas ainda na porta, e puxei os joelhos até o peito.
Eu fiz a coisa certa. Eu fiz a coisa certa.
Então por que meu peito parecia como se alguém tivesse arrancado tudo de dentro e me deixado oca?
Fiquei sentada ali por sei lá quanto tempo. Tempo o bastante para minha bunda ficar dormente no piso de madeira. Tempo o bastante para a casa ficar completamente silenciosa.
Quando finalmente me enfiei na cama, eu não consegui dormir.
Eu continuava vendo ele. Não o Caleb-no-corredor. Mas o Caleb no gelo.
Camisa 9. Cortando a defesa como se fosse de papel. Aquele foco nos olhos, aquele controle absoluto. O jeito como o corpo inteiro dele se movia como uma arma, preciso e devastador.
Por que eu continuo pensando nisso?
Virei de lado. Soquei o travesseiro. Tentei achar um lugar mais fresco.
Porque você é uma idiota, é por isso. Porque, aparentemente, ver um cara que te odeia jogar hóquei agora é… sexy. Ótimo. Maravilhoso. Super normal e saudável.
Eu gemi e enfiei o rosto no travesseiro.
No fim, o cansaço venceu. Adormeci pensando em gelo e em olhos azuis frios e no som dos patins cortando o silêncio.
Alguma coisa me acordou. Vozes lá embaixo. Pratos batendo.
Peguei o celular na mesa de cabeceira. 7:32 da manhã.
Aff.
Fiquei deitada por um minuto, encarando o teto, tentando me convencer de que eu podia simplesmente ficar na cama o dia inteiro. Me esconder aqui até o Caleb sair para o treino e eu não ter que lidar com qualquer nova dose de constrangimento que estivesse me esperando lá embaixo.
Mas meu estômago roncou. Traidor.
Me arrastei para fora da cama e vesti o mesmo short de ontem à noite. Passei os dedos pelo cabelo. Nem me dei ao trabalho de olhar no espelho, porque eu sabia que estava um lixo e não me importava.
A escada rangeu sob meus pés. Agora eu conseguia ouvir a voz da Victoria, animada e alegre, falando de lista de compras ou alguma coisa assim.
Entrei na cozinha e me arrependi imediatamente de cada decisão que tinha me levado até aquele momento.
Caleb estava sentado à mesa de jantar. Um shake de proteína na frente dele. Torrada integral. O celular na mão.
Ele ergueu os olhos quando eu entrei.
Nossos olhares se encontraram por exatamente meio segundo. Talvez menos.
O rosto dele estava completamente vazio. Como se eu fosse uma estranha. Como se ontem à noite nunca tivesse acontecido. Como se ele não tivesse parado do lado de fora da minha porta às onze e meia pedindo desculpas.
Então ele baixou os olhos de novo para o celular.
Meu estômago despencou tão rápido que eu cheguei a ficar tonta.
Certo. Claro. De volta a fingir que eu não existo.
“Querida!” Victoria se virou do balcão, toda sorrisos. “Bom dia! Vem tomar café. Hoje a gente vai fazer compras pro churrasco, lembra?”
Eu me sentei na cadeira mais longe do Caleb. O mais longe que a mesa permitia.
“Sim. Parece bom.”
Minha voz saiu chapada. Tentei consertar, tentei soar mais animada, mas já era tarde. Victoria já estava voltando para o café, alheia a tudo.
Peguei uma fatia de torrada da cesta no centro da mesa. Me concentrei com força em passar manteiga. Em não olhar para o Caleb.
Mas eu sentia ele ali. Ocupando espaço. Respirando o mesmo ar.
Cadê o meu pai?
“O David saiu cedo”, disse Victoria, como se tivesse lido minha mente. “Reunião grande. Ele volta hoje à noite.”
Ótimo. Então era só eu, Victoria e a escultura de gelo humana do outro lado da mesa.
Victoria se serviu de mais café e então se virou para o Caleb. A voz dela mudou — ainda calorosa, mas com aquela pontinha que mães ganham quando vão fazer uma pergunta que já sabem que você vai tentar escapar.
“Caleb, o churrasco no sábado. Você tá confirmado, né? O treinador mandou um e-mail ontem dizendo que não vai ter treino extra neste fim de semana.”
Caleb largou o celular. Devagar. De propósito.
Eu vi a mão dele se mexer pelo canto do olho. Vi os dedos dele tamborilarem uma vez na mesa.
Então os olhos dele passaram por mim.
Só por um segundo. Só o suficiente para eu sentir como se fosse um toque físico.
Minha mão congelou no meio do movimento, a faca de manteiga pairando sobre a torrada.
Por que ele tá olhando pra mim?
Ele desviou o olhar. De volta para a Victoria.
“Talvez eu tenha planos no sábado. E hoje o Alex marcou uma sessão de treino, então talvez eu chegue tarde.”
As sobrancelhas de Victoria se ergueram. “Alex? Alex Cameron? Seu adversário?”
“Sim.”
“Você vai treinar com o cara contra quem você tá competindo por posição no draft?”
