Capítulo 8

Ponto de vista de Emma

As sobrancelhas de Victoria se ergueram. “Você está treinando com o cara contra quem vai competir pela posição no draft?”

O maxilar de Caleb se contraiu. Quase nada. Você nem notaria se não estivesse prestando atenção.

“A gente se puxa. O técnico aprovou.”

Mentirosos.

Eu não sabia como sabia. Eu só sabia. Tinha alguma coisa no jeito como ele falou. Liso demais. Ensaiado demais.

Ele está arranjando uma desculpa pra não estar aqui. Pra não estar no churrasco. Comigo.

Victoria suspirou. Pareceu decepcionada, mas não insistiu.

“Tudo bem. Se é isso que você precisa fazer.”

“É.”

Caleb se levantou. Pegou a bolsa de academia do chão. A mesma Nike preta de ontem, provavelmente ainda com cheiro de suor e gelo.

Ele passou pela minha cadeira. Não diminuiu o passo. Não olhou pra mim.

Simplesmente foi embora.

A porta da frente abriu. Fechou.

Soltei um ar que eu nem sabia que estava prendendo.

Victoria se sentou à minha frente com o café. “Ele está sob muita pressão este ano. Este ano é crucial pro draft.”

Eu assenti. Dei uma mordida na torrada sem sentir gosto.

É. Pressão. Com certeza é por isso que ele não aguenta ficar no mesmo cômodo que eu por mais de cinco minutos.


O centro comercial era enorme. Daqueles complexos gigantes de shopping a céu aberto, com um Whole Foods, um Target e umas cinquenta outras lojas que eu nunca teria conseguido pagar lá na Flórida.

Victoria empurrou o carrinho pelos corredores do mercado como uma mulher em missão. Jogando dentro bifes, pacotes de salsicha, espigas de milho, sacos de mix de salada.

“O David adora um bom ribeye”, ela disse, examinando dois cortes diferentes. “E o Caleb só come proteína magra. Você tem alguma restrição alimentar que eu deva saber?”

Balancei a cabeça. “Eu como praticamente de tudo.”

“Perfeito.” Ela colocou os dois bifes no carrinho. “Vamos fazer uma mistura. Assim todo mundo fica feliz.”

Fomos andando pela loja. Victoria manteve um comentário constante — qual marca de salsicha era melhor, como saber se o milho estava fresco, se a gente precisava de cerveja ou só vinho.

Era bom. Normal. O tipo de compra de supermercado que eu só tinha visto em séries de TV.

“Vamos montar tudo no quintal”, Victoria disse quando nos aproximamos do caixa. “A churrasqueira, umas mesas. Você pode convidar amigos, se quiser. Quanto mais gente, melhor.”

Tentei sorrir. “Eu ainda não conheço ninguém.”

“Isso vai mudar quando as aulas começarem. Você vai ver.” Ela deu um tapinha no meu braço. “Ah! E talvez o Caleb possa te apresentar a algumas pessoas quando ele estiver livre.”

Meu rosto esquentou.

É. Tenho certeza de que os amigos do hóquei dele vão adorar conhecer a garota que apareceu no vestiário deles cheirando a banheiro de república.

“Talvez”, consegui dizer.

Colocamos as compras no SUV de Victoria — um Audi preto elegante que provavelmente custava mais do que minha mãe ganhava em um ano. Aí ela me surpreendeu estacionando em frente a uma loja de roupas em vez de ir pra casa.

“O clima do Colorado é traiçoeiro”, ela disse, já soltando o cinto. “Manhãs frias, tardes quentes. Você provavelmente não fez mala pra isso.”

“Victoria, você não precisa—”

“Vamos.” Ela já estava fora do carro.

Eu a segui para dentro. A loja era clara e impecável, cheia daquele tipo de roupa casual, mas cara, que eu normalmente só olhava pela internet.

Victoria circulou pelos cabides como se fizesse aquilo todos os dias. Pegou algumas camisetas, jeans, uma jaqueta leve.

“Experimenta essas.”

Eu peguei. Encarei as etiquetas de preço.

Uma dessas camisetas custa o que eu gastava com comida por uma semana.

— Victoria, isso é demais.

Ela fez um gesto, dispensando minha preocupação. — Não seja boba. Você é minha filha agora. É isso que as mães fazem.

A palavra me acertou em cheio no peito.

Filha.

Olhei para as roupas nos meus braços. Senti a garganta apertar.

— Obrigada — sussurrei. — Sério. Obrigada... Vicky.

O rosto dela inteiro se iluminou. — Ah, querida, vem cá.

Ela me puxou para um abraço. Ali mesmo, no meio da loja. E eu deixei.

Quando chegamos ao caixa, Victoria entregou o cartão de crédito sem nem olhar o total.

Enquanto a caixa passava tudo, Victoria suspirou. Baixinho. Quase para si mesma.

— Eu sempre quis ter uma filha — ela disse. — O Caleb era tão apegado à mãe quando era pequeno, mas meninos... eles crescem. Se afastam. Principalmente depois de... — Ela deixou a frase morrer.

Eu olhei para ela. Olhei de verdade.

Os olhos dela tinham ficado distantes. Tristes.

— Depois de quê? — perguntei, baixo.

Ela piscou. Pareceu voltar a si.

— Depois que o pai dele e eu nos divorciamos. — Ela pegou a sacola de compras da caixa. — Vamos. Vamos colocar isso no carro.

Colocamos as sacolas no porta-malas. Voltamos para o SUV.

Victoria não ligou o carro de imediato. Só ficou ali, as mãos no volante, encarando o para-brisa.

— Eu não costumo falar sobre isso — ela disse por fim. — Mas você é da família agora. Você precisa saber.

Meu estômago se revirou.

Isso vai ser ruim. Eu estou sentindo.

— Hector — o pai do Caleb — teve um caso. Com a sócia dele no escritório. Nós nos divorciamos quando o Caleb tinha dez anos.

As mãos de Victoria se apertaram no volante.

— Todo menino tem aquele momento, sabe? Quando percebe que o pai não é um herói. É só um homem. Um homem falho, egoísta. — Ela fez uma pausa. — Para o Caleb, esse momento chegou cedo. Mas essa nem foi a pior parte.

Ela se virou para me olhar. Os olhos estavam úmidos.

— A pior parte veio alguns meses depois. O treinador de hóquei do Caleb — o primeiro treinador de verdade, o homem que ensinou ele a patinar — morreu num acidente de carro.

Minha respiração travou.

— O Hector estava dirigindo. Tinha bebido. O treinador estava no banco do passageiro, voltando de um dos jogos do Caleb. — A voz dela falhou. — O carro bateu numa barreira. O Hector saiu com ferimentos leves. O treinador morreu na hora.

— Meu Deus...

— E então o Hector fez o que o Hector sabe fazer melhor. Contratou advogado. Achou alguma brecha, algum detalhe técnico, algum erro processual. Convenceu o júri de que o acidente não tinha sido culpa dele. — O riso de Victoria foi amargo. — E saiu ileso dessa também.

Eu me senti enjoada.

— O Caleb não falou com o pai por um ano depois disso. Se recusou a ver ele. Se recusou a atender as ligações. — Ela enxugou os olhos. — Ele se jogou no hóquei. Treinava até não aguentar mais ficar em pé. Como se, se patinasse com força o bastante, rápido o bastante, pudesse fugir de tudo.

Ficamos ali em silêncio. De repente, o SUV pareceu pequeno demais.

— Estou te contando isso — disse Victoria — porque eu preciso que você entenda. O Caleb não é um garoto ruim, mesmo que às vezes pareça frio. Ele é frio porque não sabe mais ser outra coisa. Não agora.

Ela estendeu a mão e apertou a minha.

— Você está perto da idade dele. Talvez... talvez você consiga alcançá-lo de um jeito que eu não consigo. Talvez você possa ajudá-lo.

Eu encarei Victoria.

Ajudá-lo? O cara que me olhou hoje de manhã como se eu fosse uma mancha na vida perfeita dele?

Mas agora eu sabia. Por baixo daquele gelo, havia um menino de dez anos que tinha visto seu herói morrer e seu pai sair livre.

E eu não fazia a menor ideia do que fazer com isso.

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