Capítulo 9
Ponto de vista de Caleb
O gelo parecia bom sob as minhas lâminas. Limpo. Simples. O tipo de coisa que fazia sentido quando todo o resto estava fodido.
Alex veio para cima de mim com tudo, conduzindo o disco como se tivesse algo a provar. A gente estava nessa havia duas horas — terceira série de um contra um — e nenhum de nós ia recuar.
Li o movimento dele antes mesmo de ele fazer. Cortei o caminho na linha azul. Meu ombro se chocou contra o peito dele, corpo contra corpo, e senti o impacto atravessar nós dois. O disco escapou. Eu o recolhi e mandei um passe de backhand para o nosso ponta.
O arremate foi alto, do lado da luva. Gol.
— Porra — Alex arfou, curvado sobre o taco. O suor pingava do queixo dele no gelo. — Você tá ligado hoje.
Passei a luva pela testa. Minha camisa estava encharcada, grudando nas ombreiras. Meus pulmões queimavam.
Ótimo. Melhor do que pensar na noite passada. Melhor do que lembrar de como eu fiquei do lado de fora da porta dela feito um babaca patético, tentando encontrar palavras que não existiam.
— Dormi bem — eu disse.
Eu estava me acostumando com isso. A mentir mais. Na verdade, fiquei encarando o teto por três horas pensando na Emma. No jeito como a voz dela falhou quando eu pedi desculpas. No jeito como eu queria empurrar aquela porta e—
— Ah, para com essa merda — Alex disse, mas estava sorrindo. Ele girou o pulso direito em círculos lentos, fazendo uma careta de leve.
Eu reparei.
— O pulso ainda tá incomodando?
— Não, tá de boa. Coloquei gelo por trinta minutos ontem. O inchaço baixou. — Ele flexionou os dedos, testando a amplitude do movimento. — O Tyler me pegou torto durante os treinos. O técnico me tirou mais cedo só por precaução.
— O Tyler precisa aprender a diferença entre ser agressivo e ser imprudente.
— Nem me fala. — Alex pegou a garrafa d’água no banco. — Mas, falando em ontem… você não vai acreditar no que aconteceu depois que eu voltei pro vestiário.
Tomei um gole longo. A água fria desceu pela garganta, mas não fez porra nenhuma contra o calor que ainda rastejava sob a minha pele.
— O quê?
— Puck bunny. No vestiário.
Quase engasguei.
— O quê?
Alex assentiu, olhando por cima do ombro como se estivesse com medo de alguém ouvir. A pista estava vazia, exceto por nós — uma das vantagens de treinar no centro do Denver antes do amanhecer —, mas velhos hábitos custavam a morrer.
— É. Encontrei ela escondida atrás dos cestos de roupa. Me assustou pra caralho. Uma daquelas puck bunnies malucas, eu acho.
Puck bunnies. As garotas que rondavam jogadores de hóquei como se a gente fosse caixa eletrônico ambulante e conteúdo de Instagram. Algumas eram só fãs — inofensivas, empolgadas, irritantes, mas toleráveis. Outras eram caçadoras. Faziam qualquer coisa pra chegar perto de um jogador. Se enfiavam em vestiário. Roubavam camisas. Tiravam fotos por fama. Algumas até vendiam história pra tabloide quando não conseguiam o que queriam.
A maioria dos caras do time adorava essa merda. Amava a atenção. A validação. O acesso fácil.
Eu nunca vi graça. Bagunçado demais. Público demais. Risco demais pra alguém como eu, que precisava manter as próprias merdas trancadas a sete chaves.
— Como ela era? — me ouvi perguntar.
Meus dedos se apertaram em torno da garrafa. O plástico estalou.
— Nova. Cabelo castanho. Baixinha — talvez um e sessenta, um e sessenta e dois. — Alex deu de ombros. — Ela parecia apavorada. Não como as de sempre, sabe? Elas são só confiança e peitos. Essa garota parecia que queria sumir dentro do chão.
Cabelo castanho. Baixinha. Apavorada.
Meu cérebro ligou os pontos antes que eu conseguisse impedir.
Emma?
— Eu achei que ela tava lá pra roubar alguma coisa — Alex continuou. — Ou tirar foto. Você sabe como elas são. Então eu perguntei que porra ela tava fazendo numa área restrita. — Ele fez uma pausa. — Ela só gaguejou alguma coisa e saiu correndo.
A garrafa amassou na minha mão. O som foi alto no silêncio da pista.
Eu queria perguntar mais. Queria saber exatamente o que ela tinha dito, como ela tinha ficado, se estava usando aqueles malditos óculos que a deixavam com cara de algum tipo de fantasia nerd na qual eu não tinha o menor direito de pensar.
Mas eu não podia. Porque perguntar significava me importar. E me importar significava explicar. E eu não conseguia explicar a Emma para ninguém sem expor tudo o que eu tinha passado quatro anos tentando enterrar.
— Você tá bem, cara? — Alex me observava. Os olhos dele estavam atentos. Atentos demais. — Você tá com uma cara estranha.
Forcei meu rosto a voltar ao neutro. Afrouxei a mão na garrafa antes que ela se partisse de vez. — Tô bem.
— Você conhece ela?
— Não.
A mentira saiu lisa. Fácil. Eu mentia sobre a Emma desde o dia em que a minha mãe me sentou e disse que o David tinha uma filha. Desde que eu vi a foto dela e senti alguma coisa se revirar, bem no fundo do estômago, de um jeito que não tinha direito nenhum de estar ali.
Alex me analisou por mais um segundo e então deu de ombros. — Estranho. Ela não parecia o tipo de sempre. Mas tanto faz. Eu falei pra segurança ficar de olho.
— É — consegui dizer. — Boa.
Antes que Alex insistisse mais, uma voz ecoou pela pista.
— GAROTOS!
Não precisei olhar para saber que era o Tyler. O cara só tinha um volume: insuportável.
Ele veio disparado pelo túnel como um golden retriever cheirado de cocaína, bolsa de academia balançando num ombro, o rosto rasgado num sorriso tão largo que devia doer.
— Hoje é por minha conta! — anunciou, largando a bolsa no banco com um baque. — Bebida, asinhas, o que vocês quiserem. Eu pago!
A boca do Alex se curvou num meio sorriso. — Deixa eu adivinhar. Você transou.
Tyler abriu os braços, como se estivesse recebendo um prêmio. — Bingo! Eu sabia que você ia sacar, Cameron. Você é tipo um vidente do sexo ou alguma porra assim.
Senti minha mandíbula travar. — O técnico disse nada de distrações durante a pré-temporada.
— Relaxa, Cap. — Tyler fez um gesto, me dispensando, ainda sorrindo. — Foi uma coisa de uma noite. Acho que a garota nem era da faculdade. Sem compromisso, sem drama, sem impacto no meu jogo. Palavra de escoteiro.
Ele levantou três dedos numa saudação debochada.
Tyler chegou mais perto, se inclinando como se fosse contar um grande segredo. Aí ele fungou.
Fungou mesmo o ar perto de mim.
— Cara — ele disse, arregalando os olhos. — Você trocou o sabonete ou sei lá? Você tá com um cheiro diferente.
Dei um passo para trás. — Sai pra lá, porra.
Tyler riu, jogando a cabeça para trás. — Uau! Sensível! Tô só falando, mano. Você normalmente tem cheiro de... sei lá, gelo e tristeza. Hoje você tá com um— todo—
— Larga disso, McRae.
Mas ele não estava ouvindo. Já tinha mudado de assunto, virando para o Alex com aquela mesma energia maníaca.
— Falando sério — Tyler disse, baixando a voz como se a gente estivesse num vestiário cheio de gente em vez de numa pista vazia. — Aquela garota? O perfume dela era insano pra caralho. Tipo... nem sei descrever. Doce, mas não doce demais, sabe? Meio baunilha talvez? E ela era pequenininha — tipo, eu praticamente conseguia levantar ela com uma mão só. Cabelo castanho, óculos... — Ele abriu um sorriso. — Não é muito a minha praia, mas porra, ela tava com vontade. E aquele cheiro ficou todo nos meus lençóis e agora toda vez que eu sinto eu só quero—
Ele fez um gesto obsceno, empurrando o quadril para a frente.
Alex deu um empurrão nele. — Guarda essa merda pra você, cara.
— Ué? Tô só falando! — Tyler sorriu, imperturbável. E foi na direção do Alex como se fosse abraçar.
Alex riu e empurrou ele de volta. — Não encosta essa tua bunda tarada em mim, McRae.
Os dois já estavam rindo, se empurrando como crianças num parquinho.
Mas eu não estava rindo.
Porque meu cérebro tinha acabado de repetir a noite passada com um detalhe perfeito e excruciante.
Emma passando por mim no corredor. O cheiro de baunilha e sabonete e alguma coisa por baixo. Alguma coisa que cheirava a sexo e suor e—
Pequena. Cabelo castanho. Óculos.
Emma e Tyler?
Minhas mãos se fecharam em punhos. A fita nos nós dos dedos repuxou. Minha respiração ficou curta.
Não. Não é possível. Nem fodendo.
