Capítulo 1
Tum... tum...
O som de corpos se chocando contra a porta blindada ecoou mais uma vez.
Vinha acompanhado do guincho de unhas arranhando o metal e de rosnados irregulares, guturais.
Aquele barulho persistia havia um ano inteiro. Vinte e quatro horas por dia, nunca tinha parado de verdade.
Encostado na parede gelada, fiquei encarando a ferrugem que se formava nas dobradiças da porta por causa da umidade. Aquela porta de titânio, com trinta centímetros de espessura, era a única barreira entre o mundo lá fora e eu e meu filho de seis anos, Leo.
— Pai...
Leo murmurou fraco do catre no canto. A voz dele estava seca como lixa raspando na madeira.
Corri na hora e peguei a toalha amarelada, jogada na borda da pia. A bacia estava completamente seca, restando só uma camada rasa de crosta branca de calcário. Dobrei a toalha, tentando pressionar a parte levemente úmida contra a testa do meu filho. A pele dele estava assustadoramente quente, e o cabelo loiro grudava nas bochechas, colado de suor.
— Eu tô aqui, Leo. O papai tá aqui.
— Eu quero... água... — As pálpebras dele tremularam com violência; ele nem tinha força para abrir os olhos.
Estiquei a mão, peguei a jarra plástica na bancada e sacudi. Não saiu som nenhum de dentro.
A nossa última água tinha acabado três dias atrás. Antes, quando a situação chegava a esse ponto, eu me arriscava a abrir a porta só uma fresta para tentar pegar algumas gotas dos canos vazando no corredor do lado de fora.
Mas não nesses últimos dias. Os monstros lá fora pareciam atraídos por algum cheiro, se juntando em número cada vez maior. Se eu abrisse a porta nem que fosse a espessura de um fio de cabelo, eles invadiriam em bando como cães raivosos sentindo cheiro de sangue.
Olhei para as minhas mãos trêmulas, as veias saltadas sob a pele.
Eu mesmo causei tudo isso.
Eu era o engenheiro-chefe de bioquímica do Projeto Gênesis. Até hoje, sempre que fecho os olhos, a lembrança daquele acidente de um ano atrás se repete vívida na minha cabeça.
Sirenas vermelhas piscavam frenéticas por toda a base subterrânea, e os alarmes agudos quase estouravam meus tímpanos.
Através das paredes de vidro do corredor, os funcionários de repente começaram a se contorcer e desabar como loucos, para logo se erguerem de novo e dilacerarem com ferocidade as pessoas ao redor. Havia sangue espirrando e corpos caídos por toda parte.
Minha esposa, Sarah, e eu carregamos Leo, correndo desesperados em direção a este abrigo central no nível mais baixo. Os infectados nos perseguiam sem dar trégua. Nos poucos segundos que levei para digitar o código de acesso no painel, três monstros encharcados de sangue se lançaram sobre nós.
Sarah fez uma escolha. Ela empurrou Leo e eu para dentro da passagem e segurou a horda de infectados.
— Tranque a porta, Adrian! Proteja o Leo!
Aquelas foram as últimas palavras que ela me disse. Em seguida, a enorme porta antiexplosão desceu lentamente, bloqueando minha visão.
Daquele momento em diante, eu me tornei o homem mais pecador do mundo.
Minha pesquisa destruiu o mundo inteiro. Matou minha esposa. E agora eu nem sequer conseguia proteger a única linhagem de sangue que ela deixou para trás.
Eu precisava encontrar água.
Levantei-me, vasculhando o abrigo mal iluminado até meus olhos se fixarem numa grade de ferro enferrujada no canto do teto.
Era um duto de ventilação abandonado que conectava o abrigo ao respiradouro de exaustão na superfície da ilha.
No último ano, eu tinha encarado aquele duto incontáveis vezes, com o olhar vazio. Eu sabia que levava para fora, mas era estreito demais. Eu nunca conseguiria me espremer num espaço tão apertado, então jamais o considerei uma opção viável.
Mas agora eu olhei para mim mesmo.
Trezentos e sessenta e cinco dias sobrevivendo com rações no limite do mínimo, somados à ansiedade crônica e à insônia, tinham definhado completamente meu corpo. Meu jaleco grande demais pendia frouxo dos ombros. Através da pele fina como papel, eu conseguia distinguir nitidamente o contorno de cada costela. Eu pesava menos da metade do que pesava antes.
Se fosse eu agora... talvez eu coubesse.
Eu não precisava chegar à superfície. Só precisava rastejar o bastante pelo duto inclinado, onde a condensação pudesse ter se acumulado por causa da diferença de temperatura, ou por onde alguma água da chuva pudesse ter infiltrado. Só alguns goles de água, e Leo conseguiria aguentar até amanhecer.
Não havia tempo para hesitar.
Fui até a bancada, enfiei uma chave de fenda e uma lona plástica impermeável no bolso e arrastei uma caixa metálica de armazenamento para perto. Em pé sobre ela, eu mal conseguia alcançar a borda do duto.
Arranquei a grade de ferro, recebendo em troca uma lufada de ar abafado e empoeirado. Puxei uma grande respiração, agarrei as bordas e me içei para dentro.
Lá dentro era um breu total. Eu só conseguia avançar me arrastando, alternando a pressão dos cotovelos e dos joelhos.
Depois de subir cerca de seis metros, a temperatura caiu de modo perceptível. Estendi a mão, apalpando as paredes do duto. Secas. Sem condensação. Nem sinal de umidade.
Continuei me arrastando mais para dentro. À frente, uma fenda tênue de luz apareceu aos poucos. Luz da lua. Isso significava que as aletas metálicas da exaustão da superfície estavam bem na minha frente.
Quanto mais eu me aproximava da superfície, mais meu coração disparava.
Meu cérebro começou a criar imagens incontroláveis do mundo lá fora: cadáveres apodrecendo espalhados pelo chão, monstros vagando por prédios em ruínas, manchas de sangue preto já seco.
Parei a poucos centímetros das aletas metálicas. Espiando pelas frestas, vi o lado de fora.
Sem ruínas. Sem membros decepados espalhados por toda parte.
Vi um gramado perfeitamente aparado. Mais ao fundo, estavam os conhecidos arbustos artificiais do paisagismo — um canto do quintal da vila que eu mesmo tinha ajudado a projetar nesta ilha.
Tudo estava assustadoramente silencioso. Mas o que de fato me fez prender a respiração foi um par de pés a menos de dois metros da abertura de ventilação, calçando coturnos pretos de combate.
Coturnos limpos.
Uma chama brilhante se acendeu, iluminando o perfil de um homem.
— Sério, esse trabalho é uma merda completa. — O homem que fumava soltou um anel pesado de fumaça. — Essa máscara de molde de látex coça pra caralho, e por dentro fica encharcada de suor.
Uma voz impaciente respondeu, fora do meu campo de visão:
— Para de ficar mexendo na cara. Se você estragar, a equipe de adereços vai precisar de mais duas horas pra reaplicar sua maquiagem. E agradece. Você fica parado oito horas por dia, não faz esforço nenhum, e só bate numa porta de metal e geme umas vezes quando tá entediado. Tá ganhando oitocentos dólares por dia por isso.
O homem que fumava disse:
— Mas eu fico pensando... aquele cientista lá embaixo, o Hale, é figurão. Tá trancado naquela lata de metal sem janela há um ano inteiro. Como diabos ele ainda não enlouqueceu?
Outro rosto entrou no meu campo de visão, mastigando alguma coisa; as palavras saíram abafadas:
— Ouvi dizer que ele quase surtou no começo. Ainda bem que o Victor e a Sarah sabem o que estão fazendo. O Victor montou um canal falso no sistema de alto-falantes da ilha, e de tempos em tempos joga lá embaixo uma “transmissão de sobreviventes militares” fajuta. O cara ainda acha que vai ser resgatado.
Victor. O capitão da segurança da minha ilha particular.
Sarah. Minha amada esposa.
— Mas qual é o plano final? — O homem que fumava deu um peteleco na cinza. — Se eles já tomaram conta da segurança da ilha, por que não descem com uns caras, dão um tiro no pai e no garoto e acabam logo com isso? Economizavam uma fortuna, em vez de contratar equipe de filmagem e comprar sangue falso só pra encenar esse circo diário.
— Você é burro? — O homem que comia zombou. — Beleza, o Victor comanda a segurança, mas ele não controla o mainframe lá no bunker. Todos os dados centrais de pesquisa da Genesis, patentes que valem centenas de bilhões e as contas suíças criptografadas — tá tudo trancado naquele servidor. E o Hale é o único que sabe o código-mestre de liberação.
— Então por que não arrancam isso dele na tortura?
— E se o Dr. Hale for osso duro e preferir morrer a abrir a boca? A Sarah conhece ele por dentro e por fora; foi por isso que ela bolou esse teatro genial. O Hale ainda acha que foi ele que causou o vazamento? Ainda acha que a esposa dele foi devorada viva bem do lado de fora da porta só pra salvar ele? Essa culpa é a melhor carta na manga. O Victor pretende espremer ele até a última gota. Quando os suprimentos lá embaixo acabarem de vez e o Hale vir o filho pairando à beira da morte por causa da doença, eles vão descer disfarçados de equipe de resgate e pedir o código. Pra salvar o filho, o bom doutor vai entregar absolutamente tudo.
O homem que fumava deu uma risadinha. “Caralho, isso é implacável. Falando na esposa, aliás... a atuação da Sarah foi de primeira. Até eu comprei aquela cena, um ano atrás, quando ela foi arrastada pra dentro da horda de zumbis. Quem diria que, enquanto o Dr. Hale tá lá embaixo chorando de culpa, a Sarah tá na vila, tomando champanhe e se esfregando na cama com o Capitão Victor todo santo dia? Antes de eu vir trocar o turno, vi ela lá fora na varanda, fumando de camisola de seda.”
“Ué, mas é óbvio. O Hale pode até ser o dono da escritura da ilha, mas quem tá aproveitando de verdade são eles dois. Daqui a alguns dias, quando pegarem o código e trancarem o bunker de vez, deixando o Hale morrer de fome, essas centenas de bilhões vão ser legalmente todos deles. Tá, apaga isso aí. Acabou o intervalo. O Victor mandou a gente ir lá bater na porta por mais meia hora pra aumentar a pressão. Capricha; quem paga nossas contas agora são eles.”
Os dois homens se levantaram. Depois do baque pesado dos passos se afastando, lá fora voltou ao silêncio de morte.
Dentro do duto de metal, mantive minha posição suspensa, completamente imóvel.
Naquele espaço estreito e claustrofóbico, o único som que restava era a batida constante do meu coração no peito.
Um ano atrás: aqueles infectados horríveis, cobertos de sangue, se atirando sobre a multidão.
Um ano atrás: os alarmes estridentes e aquele olhar decidido nos olhos de Sarah quando ela encarou a morte e me empurrou para trás da porta de segurança.
No último ano: o pavor absoluto toda vez que eu via o fundo do nosso barril de água.
No último ano: os gemidos fracos e febris do Leo nos meus braços.
E bem do lado de fora da porta: o som incessante, diário, de garras arranhando metal...
Abaixei a cabeça devagar e encarei minhas mãos. No meu pulso estava o relógio mecânico que Sarah tinha me dado. Nos últimos dias e noites, eu tinha acariciado o mostrador incontáveis vezes, pedindo desculpas para ela no vazio.
Agora tudo fazia sentido.
Interesses corporativos, traição, ganância sem freios. Eles cobiçavam a propriedade intelectual dentro do meu cérebro, então construíram sob medida um túmulo só para mim.
Saí do duto devagar para pegar um pouco de água que salvava vidas e então rastejei de volta para dentro. De volta ao abrigo, dei a água para Leo.
Como combinado, a batida pesada dos dois figurantes esmurrando a porta blindada ecoou do lado de fora, acompanhada de alguns rosnados guturais exageradamente dramáticos.
“Pai...” Leo se mexeu na maca. “Tem... tem muitos monstros?”
Olhei para o rosto febril de Leo e alisei de leve o cabelo dele.
“De certo modo, sim”, eu disse, baixinho. “Monstros muito mais assustadores do que os infectados.”
