Capítulo 2

As batidas implacáveis na porta blindada tinham parado. Eu nem percebi quando.

Eu estava sentado no chão de concreto gelado do bunker, usando com cuidado a água que acabara de conseguir para umedecer os lábios rachados de Leo, gota a gota, cada uma preciosa.

Eu sabia que eles estavam prestes a agir.

E, como eu esperava, a luz vermelha de perigo na parede tremeluziu e acendeu.

Um segundo depois, um guincho agudo de microfonia explodiu do interfone de emergência instalado ao lado da porta pesada.

Kzzzt… bzzt…

Num bunker que tinha permanecido em silêncio absoluto por um ano inteiro, aquela rajada eletrônica repentina foi um choque.

Se isso tivesse acontecido meia hora antes, meu coração estaria querendo saltar do peito. Agora, porém, eu apenas me sentei com calma na beira do catre, encarando o alto-falante empoeirado.

"Alô... Dr. Adrian Hale... está me ouvindo?"

Logo, a voz de um homem estalou pelo interfone.

Se o meu palpite estivesse certo, o homem do outro lado daquela porta, segurando o rádio, não era ninguém menos que o meu “leal” chefe de segurança, Victor.

Eu não apertei o botão FALAR imediatamente. Deixei que ele continuasse com aquela encenação.

"Doutor, aqui é a Unidade Conjunta de Resposta Bioquímica do Exército dos EUA..." Victor arfava no microfone, o tom encharcado de pânico fabricado. "Encontramos as coordenadas criptografadas e a frequência privada que sua esposa, Sarah, deixou nas ruínas. Os infectados aqui fora estão se aglomerando! Temos poder de fogo pesado, mas não vamos conseguir segurá-los por muito mais tempo!"

Eu me levantei, caminhei até o interfone e puxei uma respiração funda. Quando falei, forcei minha voz a tremer com uma mistura, digna de Oscar, de êxtase puro e incredulidade.

“A... a equipe de resgate? Vocês finalmente chegaram?!” gritei para o receptor, garantindo que um soluço desesperado atravessasse as palavras.

"Doutor, graças a Deus o senhor ainda está vivo!" Tenho que admitir: a atuação do Victor era boa pra caramba. "Escute, sabemos que seu filho está aí dentro. Trouxemos antipiréticos de primeira linha e antibióticos de amplo espectro. Podemos administrar no menino imediatamente, mas o tempo é crucial. Precisamos abrir essa porta blindada agora!"

“Então abram! Abram a porra da porta!” Eu bati as mãos contra as placas de titânio, fingindo o tom de um homem empurrado além do limite. “O teclado externo ainda funciona! Eu imploro, por favor, entrem! O Leo está morrendo...”

"Doutor, se acalme e me escute!" Victor latiu pelo rádio. "O comando nos deu ordens estritas. Não podemos arrombar essa porta até garantirmos os dados da instalação. O mundo lá fora já era, acabou. Os figurões precisam dos dados-raiz dos seus servidores ‘Genesis’. É a nossa única esperança de sintetizar uma cura global."

Ele fez uma pausa, mudando o tom para algo gravemente sério, até um pouco heroico.

"Doutor, preciso que o senhor dite os códigos de substituição-mestre dos servidores agora mesmo. Assim que verificarmos os dados, vamos atravessar essa camada de infectados e tirar vocês dois daí. Por favor, coopere."

Se eu fosse o homem que eu era ontem, ouvir a palavra “cura” teria sido o bastante para eu arrancar o próprio coração e entregá-lo.

Encarando a grossa porta de aço, deixei escapar uma risada silenciosa e amarga.

— Os códigos... tá... eu vou dar os códigos... — engasguei algumas lágrimas convincentes, colei os lábios no microfone atrás da grade e comecei a ditar.

— A maiúsculo... l minúsculo... 7, 9, 2... hífen... G maiúsculo... s minúsculo... 0, 4, 4...

Li tudo numa lentidão excruciante. Quando cheguei ao último caractere, agarrei com força a carcaça do interfone e implorei com a voz mais patética e dilacerante que consegui:

— É tudo... eu juro. Por favor... só deem o remédio pro meu filho. Abram a porta...

A linha ficou muda por cerca de um minuto.

Eles estavam usando um terminal portátil do lado de fora para entrar e verificar a carga.

Sessenta segundos depois, Victor voltou ao microfone. Dessa vez, havia uma inflexão inconfundível de triunfo presunçoso e arrogante na voz dele.

"Códigos verificados, Doutor."

— Então anda e abre a porta! — eu continuei gritando.

"Devagar, Doutor. A conexão de dados atraiu mais deles; estão se amontoando. Precisamos de tempo para limpar o setor, senão vocês dois vão ser despedaçados no segundo em que essa porta abrir." O tom de Victor agora era completamente desdenhoso. "Mantenha sua posição. Não faça nenhuma estupidez e aguarde o resgate. Câmbio e desligo."

— Alô?! Alô! Quanto tempo isso vai levar?! Ei!

Gritei mais algumas vezes, só para garantir. Nada. Só o zumbido estático de uma linha morta.

Tirei o polegar do botão. No mesmo instante, qualquer vestígio de pânico sumiu do meu rosto, lavado e substituído por uma indiferença gelada. Não bati mais na porta. Não fiz mais um som.

O corredor lá fora ficou silencioso.

Eu nem precisava adivinhar para onde ele estava indo. Ele já devia estar correndo escada acima para estourar o champanhe.

Girei nos calcanhares e voltei a passos rápidos para a maca.

Agora eu estava contra o relógio.

Puxando um lençol de baixo da lona, agarrei as bordas e rasguei com toda a força que tinha. Riiip. O algodão grosso se abriu em tiras compridas. Eu as amarrei uma na outra, ponta com ponta, improvisando depressa uma tipoia grosseira, mas firme.

— Leo, acorda, campeão — sussurrei, tocando de leve a bochecha do meu filho.

Ele conseguiu abrir os olhos só uma frestinha. A respiração estava terrivelmente fraca. — Pai... a gente foi salvo?

— Foi, filho. O pai vai te tirar daqui agora mesmo.

Peguei o corpinho minúsculo e frágil dele, subi na caixa metálica de armazenamento e o ergui em direção à saída de ar. Leo era pequeno o bastante para caber com facilidade na tubulação, mas, sem força nenhuma sobrando no corpo, ele não conseguia se mover sozinho. Eu tive de rastejar atrás dele, avançando devagar, empurrando-o centímetro por centímetro.

Quinze pés. Vinte e cinco pés. Trinta.

O brilho tênue do luar voltou a se insinuar sobre nós.

Com um último empurrão, conduzi Leo para fora do poço subterrâneo.

Trezentos e sessenta e cinco dias de escuridão absoluta finalmente tinham acabado.

Ajoelhei-me no gramado impecavelmente aparado, enchendo os pulmões em grandes tragadas de ar fresco. Ao longe, eu ouvia o som fraco das ondas do mar arrebentando contra os penhascos e, além do jardim, erguia-se a mansão enorme, toda iluminada.

Eu mesmo havia desenhado a planta daquela casa. Construí aquilo para dar à minha esposa, Sarah, o paraíso definitivo de férias.

A cabeça de Leo tombou para o lado; ele estava perdendo a consciência de novo. Encostei-o com cuidado junto ao muro da divisa, perfeitamente escondido atrás de uma sebe densa, e dei leves tapinhas em sua bochecha. “Leo, o papai precisa se afastar só um pouquinho. Só um minuto. Você fica bem aqui, não se mexe e espera por mim, tá bom?”

Leo fez um leve movimento de cabeça.

Agachado, usei o paisagismo alto como cobertura e me movi em silêncio em direção à vila.

Eu conhecia o ponto cego exato de todas e cada uma das câmeras de segurança desta propriedade.

Esta era a minha ilha. O meu patrimônio.

Espreitando pelas janelas, vi o saguão imponente inundado de luz. Lá embaixo, os atores contratados já estavam dando uma festa de encerramento.

Passei por eles, pegando a escadaria a céu aberto da ala oeste, deslizando como um fantasma até o terraço do segundo andar.

Aquela varanda contornava de perto a suíte principal e a sala de estar de cima. Através do vidro duplo do chão ao teto, à prova de som, eu não conseguia ouvir nada, mas tinha um lugar na primeira fila para o espetáculo lá dentro.

Uma mulher de combinação de seda transparente estava junto ao armário de bebidas, girando uma taça de cristal na mão. Mesmo depois de um ano, eu jamais confundiria aquela silhueta. Era minha esposa, Sarah.

O cabelo dela caía em ondas elegantes, perfeitamente modeladas. A pele estava impecável, luminosa.

Victor se largava no sofá, vestido com uma camisa de alfaiataria de alto padrão, aberta no colarinho, com as botas apoiadas na minha mesa de centro de mármore italiano. Ele segurava um tablet — sem dúvida o mesmo que tinham acabado de usar para verificar meus códigos — e o rosto dele praticamente irradiava ganância.

“Funcionou?” Sarah se virou, entregando a Victor uma dose cara de champanhe, a expressão marcada por uma antecipação ansiosa.

—Como num passe de mágica. —Victor pegou o copo e acenou o tablet para ela. —No segundo em que o idiota ouviu que a gente estava “salvando” o filho dele, a voz afinou que nem a de uma cadela. Todos os códigos verificados, protocolos-raiz destravados. Amanhã de manhã, esta ilha, aquelas contas de vários bilhões de dólares e cada uma das patentes do “Genesis” vão ser completamente nossas.

Sarah se aproximou e tocou o copo no dele com um tilintar seco.

Jogando um braço em volta da cintura dela, Victor a puxou para o colo. —Agora que temos as senhas, ele não serve pra nada. Mais tarde mando uns caras lá embaixo pra enfiar uma bala na cabeça dele. Acabar com as pontas soltas.

—Uma bala rápida? Isso é misericórdia demais. —Sarah arrancou o tablet da mão dele, os olhos correndo pelos zeros digitais nos extratos bancários.

Victor abriu um sorriso de canto. —Justo. Ele achou mesmo que o mundo tinha acabado aqui fora por um ano inteiro. Você devia ter ouvido ele implorando pra mim pelo comunicador — soava pior do que um cachorro apanhado. Ver o filho dele morrer devagar enquanto ele apodrece, se afogando na culpa por sua causa... é, deixar ele morrer de fome com certeza é mais divertido do que atirar nele.

Ele deu um gole no champanhe e então parou. —Mas e se ele ficar desesperado por água? Se ele perceber que as batidas pararam, sacar o que aconteceu e simplesmente sair por aquela porta?

—Sair?

Sarah jogou a cabeça para trás e riu.

—Você dá crédito demais pro meu marido nerd. Mesmo que a gente escancarasse aquelas portas de aço, ele não teria coragem de dar um passo pra fora daquele bunker. E mesmo que, por algum milagre absoluto, ele enlouquecesse e saísse correndo... o dinheiro dele, a identidade dele, a vida inteira dele já foram transferidos legalmente pra nós. Esta ilha está infestada dos seus mercenários. O que ele vai fazer? Lutar com a gente?

—Você tem razão. Deixa ele apodrecer no escuro. À nossa vida novinha em folha. Um brinde.

Eles brindaram sob o lustre de cristal e riram.

De pé nas sombras da sacada, eu cerrei os punhos com tanta força que as unhas cravaram nas palmas. Eu me obriguei a não estilhaçar o vidro e avançar. Ela estava certa em uma coisa: a ilha estava lotada das armas deles. Mas eles tinham cometido um erro de cálculo catastrófico.

Eles achavam que as coisas mais valiosas desta ilha eram os bilhões parados em contas suíças e uma pilha de patentes registradas.

Eles não faziam a menor ideia do que o “Projeto Genesis” realmente era. Nem tinham a mínima noção do que eu de fato construí sob a rocha-mãe desta ilha.

Lancei um último olhar para os dois amantes agarrados no sofá.

Então, sem fazer um som, virei as costas, segurei no cano de drenagem da parede externa e desapareci na escuridão — indo direto para a sala de controle subterrânea isolada nos fundos da propriedade.

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo